Estudo expõe avanço da “machosfera” e violência contra mulheres online

Levantamento aponta que grupos no Telegram funcionam como espaços de formação ideológica, disseminam misoginia e ódio às mulheres
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Os termos “red pill” e “blue pill” foram inspirados no filme Matrix e são atribuídos a homens “fortes” ou “fracos” na machosfera. Foto: Creative Commons.

Ambientes digitais, como grupos de mensagens e redes sociais, não são espaços seguros para mulheres. É o que aponta estudo inédito da Fundação Getulio Vargas (FGV). A nota técnica A machosfera é política: construção ideológica e ataques a políticas de gênero indica que esses ambientes, dominados por homens, não apenas reproduzem misoginia, mas também funcionam como ecossistemas de formação ideológica. Confira mais em TVT News.

A chamada machosfera — conjunto de comunidades online que reúnem homens para discutir questões de gênero sob uma perspectiva masculinista — frequentemente promove comportamentos agressivos contra mulheres. Com discursos que alimentam ressentimento, esses grupos disseminam o ódio ao feminismo e reforçam a ideia de que homens seriam “vítimas” do cenário social e político atual.

O crescimento dessas comunidades no Brasil motivou o estudo da FGV. O levantamento analisou a atuação da machosfera no Telegram entre 2015 e 2025, com foco em 85 grupos que somaram mais de 7 milhões de mensagens.

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Estudo aponta como a machosfera se orienta por discursos misóginos e outras formas de ódio, que podem escalar para violência física.

Uma das conclusões é que, mesmo quando não tratam diretamente de política, esses espaços têm forte conteúdo ideológico. Foram registradas cerca de 16 mil menções a Lula e Bolsonaro. Discursos com forte orientação à direita mais radicalizada dominam os debates, com discursos anti-esquerda, críticas a instituições democráticas e rejeição a direitos fundamentais.

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Outro achado relevante diz respeito à socialização nesses grupos, marcada por forte caráter ideológico. Embora a misoginia seja central, os discursos frequentemente incorporam outras formas de preconceito, como racismo, LGBTfobia e classismo. Em casos extremos, há normalização ou defesa da violência, sobretudo contra mulheres.

A nota também aponta ataques recorrentes a políticas de gênero, como a Lei Maria da Penha, a educação sexual e direitos reprodutivos. As mensagens que circulam nesses grupos sugerem que essas políticas colocariam em risco a família e a ordem moral.

Essa visão não se restringe ao ambiente digital. Segundo o estudo, conteúdos e narrativas da machosfera circulam em outras redes sociais e são, por vezes, reproduzidos por figuras públicas, inclusive políticos da direita. Isso contribui para deslegitimar políticas públicas construídas a partir da luta das mulheres ao longo da história.

Linguagem da machosfera

A linguagem utilizada nesses grupos é própria e marcada pela misoginia, pela disseminação de ódio e pela exaltação de uma masculinidade agressiva.

Termos como “alfa”, “beta”, “incel” e “red pill” são usados para classificar homens conforme um suposto padrão de comportamento. “Alfa” e “red pill” definem aqueles que se consideram dominante, que “despertaram” de uma suposta opressão masculina. Já “beta” é utilizado de forma pejorativa para se referir a homens considerados submissos.

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O coronel da PM de SP Geraldo Leite Rosa Neto, acusado de ter matado a mulher, também policial, com um tiro na cabeça, participava de grupos ligados à machosfera. Foto: reprodução

A expressão “red pill” tem origem no filme Matrix e, nesse contexto, representa a ideia de “acordar” de uma relidade, baseada em uma leitura conspiratória das relações de gênero, que oprime os homens. Outro termo recorrente é “sigma”, associado a uma figura que caminha solitária, rejeita hierarquias, mas mantém traços de superioridade.

“Incel”, abreviação de involuntary celibate (celibatário involuntário), refere-se a homens que atribuem às mulheres a responsabilidade por suas frustrações afetivas e sexuais, frequentemente manifestando ódio ou desprezo.

Apesar das diferenças, esses grupos convergem em torno de uma agenda moral conservadora, fortemente baseada na rejeição a direitos das mulheres.

Violência política de gênero

A desumanização e a legitimação da violência são elementos centrais da machosfera. O ódio direcionado a mulheres em posições de poder é recorrente.

Deputadas e outras lideranças femininas são frequentemente alvo de ataques, que incluem a circulação de conteúdos ofensivos e campanhas de deslegitimação. Companheiras de políticos também são atingidas, com insultos, sexualização e exposição vexatória.

Para Julie Ricard, pesquisadora e coordenadora do estudo, é um erro tratar a machosfera como um fenômeno exclusivamente virtual.

— Reduzir a machosfera à misoginia online é subestimar o problema. Ela funciona como um ambiente de formação política, onde a misoginia organiza visões de mundo sobre autoridade, ordem social, inimigos públicos e até sobre quais direitos devem existir — afirmou.

Os efeitos dessas comunidades baseadas no ódio às mulheres, portanto, ultrapassam o ambiente digital. Esses espaços contribuem para a formação de um ambiente social mais hostil e intolerante, com impactos diretos no aumento da violência contra mulheres.

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