EUA criam precedente perigoso com sequestro de Maduro, diz James Green

Professor da Brown University avalia que operação contra Maduro na Venezuela expõe arrogancia imperial e fragiliza Trump internamente
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“Trump está violando todas as normas da democracia americana, todos os dias”. Foto: Reprodução

O isolamento diplomático dos Estados Unidos (EUA) após o sequestro do presidente venezuelano Nicolás Maduro marcou um dos momentos mais críticos da política externa norte-americana nos últimos anos. Em reunião do Conselho de Segurança da ONU, Brasil e outros 21 países denunciaram a operação como violação explícita da Carta das Nações Unidas e do direito internacional. Washington contou apenas com o apoio de Argentina e Trinidad e Tobago, cenário que, para o historiador e cientista político James Green, professor emérito da Brown University e presidente do Washington Brazil Office, revela um erro estratégico grave do governo Donald Trump, com consequências jurídicas e geopolíticas de longo alcance. Leia em TVT News.

Em entrevista ao Jornal TVT News Primeira Edição, Green avaliou que a ação norte-americana rompeu limites fundamentais do sistema internacional. “Independentemente de qualquer debate sobre legitimidade eleitoral, não existe nenhuma justificativa para os Estados Unidos invadirem outro país, sequestrarem seu presidente e levá-lo para ser julgado em território americano”, afirmou. Para o professor, trata-se de um precedente extremamente perigoso, capaz de normalizar práticas que ameaçam chefes de Estado em qualquer parte do mundo.

Enquanto diplomatas se posicionavam a poucos metros da sede da ONU, Maduro comparecia algemado a um tribunal federal em Nova York, onde declarou não reconhecer a jurisdição dos Estados Unidos e se definiu como “prisioneiro de guerra”. Segundo Green, essa imagem simboliza a contradição central da política de Trump: “Os Estados Unidos se apresentam como defensores da ordem internacional, mas agem à revelia das próprias regras que dizem proteger”.

O professor destacou que a votação no Conselho de Segurança expôs um isolamento incomum de Washington. “Vinte e um países contra três. É um isolamento acachapante”, resumiu. Para ele, o contraste com episódios passados, como a invasão do Iraque, é revelador. “Naquela época, muitos países apoiaram ou toleraram a ação dos Estados Unidos. Agora, vemos uma rejeição muito mais clara”, observou.

No plano interno, Green ressaltou que Trump também enfrenta limites legais e políticos. A Constituição norte-americana proíbe intervenções militares sem autorização do Congresso, regra ignorada na operação contra a Venezuela. “Trump está violando todas as normas da democracia americana, todos os dias”, disse. Segundo ele, a sociedade dos Estados Unidos está profundamente polarizada, mas a maioria da população rejeita uma intervenção direta na Venezuela, o que pode gerar desgaste eleitoral significativo.

Para o analista, a ofensiva contra Caracas reflete uma visão ultrapassada de hegemonia, baseada na Doutrina Monroe e na ideia da América Latina como “quintal” dos Estados Unidos. “Trump se vê como um imperador, alguém que pode dominar sua área de influência”, afirmou. No entanto, essa postura, segundo Green, tende a produzir instabilidade e resistência, tanto na região quanto dentro dos próprios Estados Unidos.

Questionado sobre o risco de expansão desse tipo de ação para outros países, Green alertou que o precedente criado pode ser utilizado por outras potências. “Amanhã alguém pode justificar algo semelhante contra a Ucrânia, Taiwan ou qualquer outro país”, disse. Na sua avaliação, a reação contida de China e Rússia não significa passividade, mas cálculo estratégico. “Deixar os Estados Unidos criarem esse precedente pode ser útil para eles no futuro”, explicou.

O professor também analisou o impacto regional da ofensiva. Para ele, mais do que uma tentativa direta de controle da Venezuela, a ação busca enfraquecer Cuba e intimidar governos latino-americanos. “Não é necessário invadir todos os países. A ameaça já funciona como chantagem política e econômica”, afirmou, citando exemplos recentes de pressão sobre processos eleitorais na região.

Apesar disso, Green ponderou que a realidade econômica limita a ambição norte-americana. A crescente presença da China no comércio e nos investimentos latino-americanos dificulta qualquer divisão rígida do mundo em zonas exclusivas de influência. “Hoje, a América Latina tem vínculos econômicos profundos com a China. Isso não pode ser simplesmente apagado por decreto ou ameaça militar”, avaliou.

Para James Green, a estratégia de Trump tende a se voltar contra o próprio governo. Pesquisas recentes indicam ampla rejeição popular a uma intervenção direta na Venezuela, o que pode comprometer a base eleitoral republicana nas eleições legislativas. “Trump está entrando em uma situação muito negativa para seus próprios interesses políticos”, afirmou.

Ao final da entrevista, o professor destacou ainda o simbolismo da data da operação, próxima ao aniversário da invasão do Capitólio, em 6 de janeiro. Para ele, a ação externa também cumpre o papel de desviar a atenção da crise interna nos Estados Unidos. “A Venezuela virou o foco, enquanto questões graves da democracia americana ficam em segundo plano”, concluiu.

Na avaliação de James Green, o sequestro de Nicolás Maduro não apenas aprofunda a crise na Venezuela, mas coloca em xeque a credibilidade internacional dos Estados Unidos e inaugura uma fase de maior instabilidade no sistema global.

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