EUA recuam nas acusações contra Maduro como líder de suposto cartel de drogas

Ao retirar a alegação Nicolás Maduro chefiaria o chamado Cartel de Los Soles, governo americano enfraquece ainda mais a narrativa judicial e politica contra o presidente venezuelano
eua-recuam-nas-acusacoes-contra-maduro-como-lider-de-suposto-cartel-de-drogas-nao-existe-consenso-nem-sequer-sobre-a-existencia-do-cartel-de-los-soles-foto-rs-fotos-publicas-tvt-news
Não existe consenso nem sequer sobre a existência do Cartel de Los Soles. Foto: RS/Fotos Públicas

Em uma mudança substancial que abala os alicerces das acusações norte-americanas contra o presidente venezuelano, o Departamento de Justiça dos Estados Unidos reescreveu formalmente a acusação contra Nicolás Maduro, capturado no último sábado (3), e retirou a alegação central de que ele era o líder de um cartel de drogas denominado “Cartel de Los Soles”. Saiba mais em TVT News.

A nova redação, divulgada após a captura, descreve o suposto grupo não como uma organização criminosa hierárquica, mas como um “sistema de clientelismo” e uma “cultura de corrupção” alimentada pelo narcotráfico. O termo “Cartel de Los Soles”, que aparecia 32 vezes na acusação original de 2020 e era a peça-chave para retratar Maduro como um chefe narcotraficante, agora é mencionado apenas duas vezes.

O recuo jurídico expõe uma contradição profunda: ao longo de 2025, a administração Trump, com base na acusação original, designou formalmente o “Cartel de Los Soles” como uma Organização Terrorista Estrangeira (FTO). Essa designação foi usada para justificar ações políticas e militares mais duras contra o governo de Maduro.

No entanto, essa designação nunca teve respaldo em relatórios técnicos internacionais. A Avaliação Nacional de Ameaça das Drogas da DEA, o Relatório Mundial sobre Drogas da ONU e análises da União Europeia nunca listaram ou sequer mencionaram o “Cartel de Los Soles” como uma organização de tráfico significativa. Especialistas há anos argumentam que o termo é uma gíria jornalística venezuelana da década de 1990, usada para descrever redes de corrupção dentro das forças armadas, e não um cartel com estrutura definida.

Apesar da revisão factual do Departamento de Justiça, a retórica política da Casa Branca mantém o tom anterior. No domingo (4), o secretário de Estado e conselheiro de segurança nacional, Marco Rubio, em entrevista à NBC, insistiu: “Continuaremos a reservar-nos o direito de atacar os barcos que transportam drogas… operados por organizações criminosas transnacionais, incluindo o Cartel de Los Soles. É claro que o líder desse cartel está agora sob custódia dos EUA… E esse líder é Nicolás Maduro“.

O presidente Donald Trump, em discurso no Congresso, também persistiu ao chamar Maduro de “um cara violento“. A insistência em uma narrativa já corrigida pelos próprios promotores do caso mostra um fosso entre a estratégia jurídica e a narrativa política.

A acusação revisada tenta reforçar seu conteúdo com novas alegações consideradas frágeis por analistas. Ela inclui como suposto co-conspirador de Maduro o líder do Tren de Aragua, uma poderosa gangue prisional venezuelana. A conexão alegada, no entanto, baseia-se em telefonemas de 2019 onde o gangster oferecia serviços de escolta para carregamentos de drogas.

A alteração da denúncia ocorre poucos dias após a captura de Nicolás Maduro em Caracas por forças especiais americanas, uma operação que desencadeou forte reação internacional e debate sobre soberania, direito internacional e legitimidade das ações de Washington contra governos estrangeiros. A Venezuela condenou a revisão como tentativa de “retratar” a narrativa dos EUA, enquanto especialistas em América Latina apontam que a própria mudança evidencia a fragilidade de elementos centrais da acusação americana.

Assuntos Relacionados