Estados Unidos revogam ingressos de torcedores iranianos às vésperas da Copa do Mundo

Os EUA já haviam imposto uma rotina sem precedentes à seleção iraniana, proibindo os jogadores a permanecer no país após jogos
Um comerciante iraniano segura uma antiga camisa da seleção nacional de futebol do Irã em sua loja, em Teerã, em 8 de maio de 2026. A seleção iraniana, também conhecida como Team Melli, estreia na Copa do Mundo de 2026, sediada conjuntamente por Estados Unidos, México e Canadá, contra a Nova Zelândia, em Los Angeles, no dia 15 de junho, antes de enfrentar Bélgica e Egito pelo Grupo G. (Foto: AFP)

A Federação de Futebol do Irã (FFIRI) denunciou, nesta terça-feira (9), que a cota de ingressos destinada aos torcedores do país para a Copa do Mundo foi retirada pelo governo dos Estados Unidos. A medida ocorre a dois dias da abertura oficial da competição, agendada para esta quinta-feira (11). Leia em TVT News.

O cancelamento atinge a cota regulamentar de 8% das entradas que cabiam à federação iraniana para distribuição, inviabilizando o acesso do público que planejou o deslocamento para apoiar a sua seleção.

De acordo com o posicionamento oficial emitido pela FFIRI, a barreira imposta pelo governo norte-americano penaliza diretamente os cidadãos que agiram em conformidade com as diretrizes organizacionais do torneio.

Isso acontece apesar do fato de que muitos torcedores iranianos, confiando no processo oficialmente anunciado, já haviam feito os planos necessários para comparecer aos jogos”, manifestou a entidade em nota oficial.

Até o momento, nem as autoridades dos Estados Unidos nem a direção da Fifa se pronunciaram de forma pública para justificar a suspensão das entradas.

Com essa medida, o país norte-americano desrespeita novamente os princípios de isonomia e cooperação que deveriam pautar as relações internacionais no esporte.

A situação da seleção iraniana nos EUA

Se a torcida foi barrada antes mesmo de embarcar, a delegação de atletas do Irã enfrentará uma rotina operacional sem precedentes na história das competições internacionais.

Embora os 26 jogadores convocados tenham recebido autorização legal para cruzar a fronteira e disputar os confrontos da fase de grupos, o governo de Donald Trump proibiu a permanência continuada do time em solo norte-americano.

Na prática, a equipe do Irã será obrigada a se retirar dos Estados Unidos imediatamente após o encerramento de cada partida.

O acirramento das tensões geopolíticas por conta da guerra iniciada por Israel, e apoiada pelos EUA, ao Irã, desestruturou o planejamento logístico original da comissão técnica.

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Seleção iraniana joga as três partidas da 1ª fase nos EUA. Foto: Reprodução

Inicialmente, a seleção pretendia fixar sua base de treinamentos e hospedagem na cidade de Tucson, no estado do Arizona, facilitando o deslocamento para os três primeiros jogos oficiais que ocorrem em território norte-americano.

Diante do cenário de guerra e dos entraves burocráticos, o grupo precisou transferir sua concentração para a cidade de Tijuana, localizada no México.

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Os termos dos vistos concedidos pelo governo dos Estados Unidos limitam-se à entrada estritamente temporária para a realização de treinos e jogos, vetando qualquer modalidade de pernoite. O embaixador do Irã no México, Abolfazl Pasandideh, expressou forte preocupação com as amarras impostas à delegação e alertou que as restrições tendem a comprometer o desgaste físico e o foco dos profissionais.

De acordo com o visto deles, aparentemente eles podem ir de manhã e voltar à tarde“, explicou Pasandideh, mencionando o trajeto aéreo contínuo de ida e volta que os atletas cumprirão nos dias de jogos em Los Angeles e Seattle.

Viajar logo após o jogo pode prejudicar rotina de treinos da seleção iraniana

O embaixador também expôs o descontentamento de Teerã com a negativa norte-americana em conceder vistos de entrada para componentes fundamentais da comissão técnica e da comitiva oficial de dirigentes.

Pasandideh asseverou que viagens extensas, necessidade de voos extras, falhas de coordenação externa e o tempo desperdiçado nos trâmites de imigração diários podem deteriorar o rendimento técnico em campo.

O diplomata concluiu destacando que o Irã utilizou o esporte para manifestar o seu desejo de convivência pacífica em meio ao contexto de agressões sofridas pelo seu país. Instada a se manifestar sobre os prejuízos logísticos impostos à delegação, a Fifa limitou-se a declarar que os detalhes do deslocamento devem ser respondidos diretamente pela representação iraniana.

O desrespeito às regras de isonomia da Fifa e o veto a árbitro africano

O tratamento hostil direcionado ao Irã não configura um fato isolado na organização do torneio na América do Norte.

Em mais uma demonstração de desrespeito às regras de isonomia, fair play e neutralidade política preconizadas pela Fifa, o governo dos Estados Unidos barrou a entrada do árbitro somali Omar Artan, profissional escalado oficialmente pela entidade máxima do futebol para atuar na Copa do Mundo.

Artan, de 34 anos, seria o primeiro cidadão da Somália a arbitrar partidas na história do torneio mundial. Ele integra o quadro de árbitros internacionais da Fifa desde 2018, atua na liga profissional somali e foi condecorado como Árbitro do Ano pela Confederação Africana de Futebol (CAF) em 2025.

O profissional compunha o grupo seletor de 52 árbitros designados para capitanear a competição compartilhada entre Canadá, México e Estados Unidos.

A despeito de possuir um visto regular e válido para ingresso nos Estados Unidos, Artan teve a entrada rejeitada pelo governo Trump. A Somália figura na lista de nações cujos habitantes sofrem restrições severas e proibições de viagem impostas pela Casa Branca.

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O árbitro da Somália Omar Abdulkadir Artan durante a Copa Africana de Nações (CAN) – Foto: Kenzo Tribouillard/AFP

Em manifestações políticas recentes, Donald Trump rotulou o país africano de maneira depreciativa e externou o propósito de extinguir o status especial de proteção que resguarda imigrantes somalis de processos de deportação.

O assessor do Ministério da Juventude e Esportes da Somália e ex-capitão da seleção nacional, Ciise Aden Abshir, repudiou publicamente o veto migratório imposto pelas autoridades americanas. Abshir asseverou que Omar Artan desponta como uma das referências mais respeitadas da arbitragem no continente africano.

Negar sua entrada nos Estados Unidos e impedi-lo de trabalhar (…) prejudica não apenas a ele pessoalmente, mas também mina o compromisso do futebol com a equidade, o mérito e o espírito de fair play“, protestou o assessor, conclamando a comunidade internacional do esporte a se solidarizar com o profissional.

Assim como no caso iraquiano e iraniano, a administração norte-americana esquivou-se de emitir explicações públicas sobre o veto ao árbitro africano, aprofundando as críticas sobre a quebra de igualdade de condições em um torneio de abrangência global.

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