EUA afirmam ter roubado petroleiro da Rússia

Sob Trump, EUA abandonam o multilateralismo. Sequestram um presidente, impõem tarifas ilegais e agora provocam uma potência nuclear
EUA iniciaram hoje (7) uma operação para tentar apreender um petroleiro de bandeira russa ligado à Venezuela, em mais um capítulo da intensa campanha liderada pelo presidente Donald Trump contra o mundo Foto: Casa Branca/Reprodução
EUA iniciaram hoje (7) uma operação para tentar apreender um petroleiro de bandeira russa ligado à Venezuela, em mais um capítulo da intensa campanha liderada pelo presidente Donald Trump contra o mundo Foto: Casa Branca/Reprodução

Os EUA iniciaram hoje (7) uma operação que apreendeu um petroleiro de bandeira russa ligado à Venezuela, em mais um capítulo da intensa campanha liderada pelo presidente Donald Trump contra o mundo. De acordo com informações do Comando Europeu das Forças Armadas dos EUA, a embarcação já está sob controle e o Departamento de Segurança Interna norte-americano. A apropriação aconteceu próximo à costa da Islândia, no Atlântico Norte, mesmo após informações de que a Rússia enviaria um submarino para realizar a escolta. Entenda na TVT News.

O episódio representa uma escalada que coloca Washington em rota de confronto não apenas com Caracas, mas também com Moscou. É mais uma ação unilateral da administração americana no cenário internacional. Desde que assumiu o governo, Trump abandonou o multilateralismo. Em ações como tarifaços ilegais e até o sequestro de um presidente (Maduro), o extremista norte-americano coloca em xeque o direito internacional e organizações diplomáticas.

O pirata Trump e a resposta russa

O navio em questão, anteriormente conhecido como Bella 1 e agora renomeado Marinera, estava sendo perseguido pela Guarda Costeira dos EUA e por forças militares norte-americanas no Atlântico Norte após ter conseguido escapar de tentativas de apreensão no Caribe em dezembro último. O petroleiro é alvo de sanções dos EUA desde 2024 por questões políticas e o petróleo é considerado ilícito por Washington. Os EUA já tomaram pelo menos dois petroleiros venezuelanos e roubaram a carga.

Em resposta à pressão americana, a Rússia teria enviado um submarino para escoltar o Marinera durante sua travessia pelo Atlântico, na área aproximada entre a costa da Islândia e a zona econômica exclusiva desse país. De acordo com o jornal The New York Times, soldados que participaram da operação afirmam não terem avistado os russos.

Quebra do multilateralismo

Do ponto de vista jurídico internacional, a operação de apreensão de um navio registrado sob a bandeira russa em alto mar suscita críticas. Navios registrados sob a bandeira de um Estado gozam de proteção jurídica conforme a Convenção das Nações Unidas sobre o Direito do Mar (UNCLOS). Uma mudança de bandeira em pleno oceano, como a realizada pelo Marinera, não resolve automaticamente questões de legitimidade e pode, inclusive, ser contestada como não conferindo proteção real sem os procedimentos formais de registro.

A ação americana de perseguir e tentar apreender o tanque em águas internacionais foi justificada por Washington como parte de um esforço para aplicar sanções econômicas e cortar redes de transporte que supostamente beneficiam regimes sancionados, no caso, o venezuelano e seus aliados. As autoridades americanas alegam que a embarcação fazia parte de uma “shadow fleet” (frota opaca) usada para burlar sanções e movimentar petróleo irregularmente.

No entanto, a resposta russa, enviando um submarino e outros navios de guerra para escoltar o Marinera, amplifica as implicações geopolíticas e pode ser interpretada como um ato de desafio direto às tentativas dos EUA de impor sua vontade em águas internacionais.

Doutrina Trump

A operação se insere em um contexto mais amplo: nos últimos dias, a administração Trump intensificou sua campanha contra o regime de Nicolás Maduro, incluindo o sequestro do presidente venezuelano em Caracas e sua transferência para Nova York, onde Maduro enfrenta um tribunal de exceção, sem competência para julgá-lo. Essa abordagem externa agressiva já havia provocado críticas de líderes internacionais, incluindo do Secretário-Geral da ONU, que expressou preocupações quanto à legalidade e ao potencial de instabilidade regional.

A tentativa de apreensão do Marinera pode afetar as relações com a Rússia de maneira significativa, num momento em que a geopolítica global já mostra estreitas tensões entre grandes potências. Moscou reagiu formalmente com protestos diplomáticos, exigindo que os Estados Unidos interrompam a perseguição ao navio e defendendo que a embarcação, ao estar sob bandeira russa, possui proteção soberana contra tentativas de apreensão por terceiros.

O episódio reforça o debate global sobre o uso de poderio militar e jurídico pelos Estados Unidos para fazer valer sanções e políticas externas, algo que tem sido criticado por governos, organizações internacionais e especialistas em direito internacional por erodir práticas de cooperação e regimes normativos multilaterais.

Em síntese, a escalada em torno do petroleiro russo Marinera evidencia uma postura de confrontação que ultrapassa a esfera bilateral entre EUA e Venezuela, envolvendo agora uma grande potência nuclear. A operação americana, mais um exemplo de unilateralismo de Trump, pode ter consequências para a estabilidade da ordem internacional e para a previsibilidade das normas internacionais e a soberania dos Estados.

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