O senador Flávio Bolsonaro, candidato à Presidência pelo PL, pagou R$ 600 mil à Elytron, empresa de cibersegurança que tentou vender fora do Brasil um sistema de IA, ou inteligência artificial, para manipulação política em eleições de forma clandestina.
O PL também declarou ter pago R$ 131,9 mil à mesma companhia. A informação é do The Intercept Brasil, que teve acesso a documentos sobre a oferta feita nos Estados Unidos. A campanha de Flávio nega ter contratado qualquer serviço ilegal. Entenda com a TVT News.
O que você precisa saber
- The Intercept revela pagamentos de R$ 600 mil da campanha de Flávio Bolsonaro à Elytron, empresa que ofereceu sistema de IA para manipular eleições nos EUA.
- O que é a Elytron: a Elytron Cybersecurity é uma empresa brasileira de consultoria e auditoria de segurança da informação, com sede em São Paulo, que atua desde 2010. A companhia se apresenta como especializada em “serviços ofensivos e defensivos” e diz possuir uma “ferramenta exclusiva de Inteligência Artificial” com conceito de “Cyber Army (exército cibernético)”
Flávio Bolsonaro pagou R$ 600 mil a empresa que vende nos EUA sistema de IA para manipular eleições, revela The Intercept
Segundo o Intercept Brasil, os documentos detalham uma operação que incluía coletar uma enorme quantidade de dados e identificar grupos de eleitores. Com base no perfil de cada grupo, o sistema executaria ações como espalhar boatos e desinformação, criar contas falsas nas redes sociais e usar “técnicas de guerra psicológica” para desacreditar adversários.
De acordo com a reportagem do Intercept, são esses “comportamentos inautênticos” que separam uma operação de influência ilegal e clandestina de uma estratégia comum de marketing político.
A campanha de Flávio Bolsonaro pagou R$ 600 mil à Elytron, empresa de cibersegurança que tentou comercializar nos Estados Unidos um sistema de inteligência artificial para manipulação política em eleições. A informação foi revelada com exclusividade pelo The Intercept Brasil.
Documentos obtidos pelo portal detalham que a operação oferecida incluía coleta imensa de dados, identificação de grupos de eleitores, disseminação de boatos, criação de contas falsas nas redes sociais e uso de “técnicas de guerra psicológica” para desacreditar adversários. Essas ações, chamadas de “comportamentos inautênticos”, diferenciam uma operação de influência ilegal de uma mera estratégia de marketing político.
Quem entregou os documentos
Os registros foram repassados ao The Intercept Brasil pelo tecnologista americano Vincent Edward Reed, consultor da Elytron entre 2024 e 2025. Ele atuou como intermediário para apresentar o sistema a pessoas ligadas à campanha de Donald Trump em 2024. A tecnologia foi demonstrada aos republicanos, mas não há confirmação de contratação, informa a reportagem.
Reed afirmou ao Intercept que rompeu com a empresa por considerar que o sistema viola preceitos éticos e legais. Ele disse que o sistema poderia mirar eleitores com deepfakes de IA. Segundo o Intercept, ele denunciou a operação ao FBI e ao Comitê de Supervisão da Câmara dos Deputados dos EUA, mas as apurações não avançaram.
Como foram os pagamentos
O Intercept levantou, no DivulgaCand, sistema da Justiça Eleitoral em que os candidatos informam suas despesas, três notas fiscais emitidas pela Elytron. Duas são de R$ 500 mil cada, datadas de 16 de setembro de 2026, e uma delas consta como cancelada. A terceira, de 2 de outubro, soma R$ 100 mil. Todas descrevem “consultoria em tecnologia da informação” e citam atividades genéricas, como apoio forense e monitoramento de infraestrutura.
A reportagem observa que, na prestação de contas parcial entregue no fim de setembro, a campanha declarou uma despesa de R$ 1 milhão com a empresa. O pagamento do PL, de R$ 131,9 mil, foi registrado em 20 de julho e menciona apenas “serviços técnico-profissionais”.


O que dizem os citados
Procurada pelo Intercept, a campanha de Flávio Bolsonaro afirmou que não contrata serviço que viole a legislação eleitoral. A assessoria classificou como tentativa de caráter político-eleitoral a associação entre um serviço de segurança da informação e práticas de manipulação, e disse que a contratação seguiu procedimentos regulares.
O Intercept destaca ainda que não há evidências de que o sistema denunciado por Reed tenha sido usado por Flávio ou pelo PL nas eleições de 2026. Dois executivos da Elytron na Europa e no Oriente Médio, ouvidos pela reportagem, negaram que a empresa ofereça manipulação política ou deepfakes e negaram reuniões com equipes ligadas à campanha de Trump.
O que é a Elytron e como ela atua
Conforme o Intercept Brasil, a Elytron se apresenta como empresa de segurança da informação com atuação internacional, endereço comercial em São Paulo e registro em Portugal desde 2021. Seu rosto público é João Lucas Melo Brasio, que se define como especialista em cibersegurança e “hacker ético” e fundou o negócio em 2018.
O que a apresentação da empresa descreve
A reportagem do Intercept detalha que a apresentação confidencial feita a pessoas ligadas à campanha de Trump prometia unir dados e inteligência artificial para campanhas massivas e direcionadas. O material cita ainda geodirecionamento, mapeamento de demandas regionais e testes de eficácia de comunicação.
O diferencial, segundo o Intercept, seria a operação ativa de comportamentos inautênticos: criar contas falsas, plantar rumores e operar avatares gerados por IA. Um fluxograma anexado ao documento parte de um objetivo político, define um alvo e escolhe o método, que vai de operações psicológicas e infiltração em redes adversárias à criação e à disseminação de desinformação.

Consultada pelo Intercept, a pesquisadora Beatriz Farrugia, analista de desinformação e interferência estrangeira da ONG Debunk, avaliou que o plano descreve uma operação de influência completa. Para ela, a estratégia vai muito além de postar desinformação ou deepfakes.
Conexões internacionais
O Intercept aponta que a rede da Elytron inclui executivos ligados à Aleria, empresa de inteligência artificial dos Emirados Árabes Unidos, e ao xeque Tahnoon bin Zayed Al Nahyan, conselheiro de segurança nacional do país. A reportagem também registra a proximidade de dirigentes da empresa com o entorno de Pablo Marçal, integrante da campanha de Flávio desde o fim de setembro, e com o lutador Renzo Gracie, que disse ser sócio de dois executivos em outra empresa, mas negou relação com a Elytron.
Big Tech Meta admite falhas e lacuna em sistema de IA que favoreceu montagens para Flávio
A revelação sobre a Elytron veio numa semana de denúncias de interferência nas eleições envolvendo a Meta. Na quarta-feira (14), usuários relataram que a Meta AI, assistente de inteligência artificial do WhatsApp, recusou pedidos de imagens com “Lula 13”, mas atendeu pedidos com “Flávio 22”, segundo o Diário do Nordeste.
A campanha de Lula acionou o Tribunal Superior Eleitoral (TSE) e, segundo o Midiamax, argumentou que o algoritmo da Meta é enviesado e pratica “seletividade algorítmica” em favor de Flávio.
Em nota, a Meta disse ter proibido temporariamente a recomendação de candidatos e a geração de imagens deles. A empresa afirmou ainda ter tomado medidas extras para que pedidos com apenas o primeiro nome e o número de urna também não gerem imagens, como mostrou a coluna Mônica Bergamo, da Folha. A reportagem testou a ferramenta depois da nota e viu que ela ainda criava imagens com “Vote Flávio”, mas não com expressões ligadas a Lula.
Nesta sexta-feira (16), O Globo informou que a Meta falou em uma lacuna no sistema de IA que favoreceu as montagens para Flávio e disse que o problema foi corrigido.
Testes isolados, segundo o DGABC, mostram aplicação inconsistente dos filtros, mas não permitem concluir que houve favorecimento deliberado. A resolução 23.755/2026 do TSE proíbe o favorecimento político-eleitoral por respostas automatizadas, como lembrou o Jornal da Paraíba.
Esquema de criptomoeda para impulsionar postagens pró-Flávio é suspenso pelo TSE
Outro episódio da semana, revelado pela Folha de S.Paulo, envolve um site que oferecia criptomoedas a quem publicasse mensagens favoráveis a Flávio. Segundo a Agência Brasil, a ministra Estela Aranha determinou na sexta-feira (9) a suspensão do site, por entender que ele oferecia vantagem econômica durante as eleições.
De acordo com o B News, o projeto, chamado Brasil 22 Token (B22), foi lançado em 6 de outubro e distribuía os ativos a quem publicasse e comprovasse as postagens. O processo cita Flávio, Pablo Marçal e os responsáveis pela plataforma. A campanha de Flávio disse desconhecer a autoria do site e anunciou medidas judiciais para derrubá-lo, informou a Agência Brasil. O candidato também negou a contratação de perfis para divulgar conteúdo de campanha.
Interferência nas eleições e uso de IA seguem no centro do segundo turno
O caso Elytron, a polêmica da Meta AI e o site de criptomoedas colocam a IA e a interferência nas eleições no centro do debate do segundo turno. O Intercept ressalta que a denúncia de Reed é um novo elemento nas preocupações com manipulação política via redes sociais, tema que ganhou força desde o ano passado.