Flávio Bolsonaro deixou sem resposta a maioria das perguntas no debate da Band

O senador respondeu diretamente a cinco das 21 perguntas recebidas; temas como os R$ 134 milhões do Vorcaro e direitos das mulheres ficaram sem esclarecimentos
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Lula e Flávio no debate antes do 2° turno - Crédito: Renato Pizzutto/Band

Por que Flávio foge das perguntas? O senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ) respondeu diretamente a apenas cinco das 21 perguntas que recebeu do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) e dos mediadores no primeiro debate do segundo turno, realizado pela TV Bandeirantes no domingo (18). Leia em TVT News.

Levantamento do Brasil de Fato, feito a partir da íntegra da transmissão, identificou que outras 11 questões foram respondidas parcialmente e cinco tiveram como resposta mudanças de assunto ou contra-ataques.

Entre os principais temas que ficaram sem esclarecimento estão a negociação de R$ 134 milhões com o banqueiro Daniel Vorcaro para financiar o filme Dark Horse, sobre Jair Bolsonaro; o voto contrário à ampliação da licença-maternidade de servidoras públicas; a atuação do senador em um caso envolvendo a morte de uma criança de cinco anos; e suas posições sobre jornada de trabalho, segurança pública e políticas sociais.

Ao longo do confronto, Lula retomou perguntas que não haviam sido respondidas, cobrando explicações sobre decisões parlamentares, relações políticas e propostas de governo. Em determinado momento, afirmou que o adversário havia se preparado para evitar as respostas.

Dinheiro negociado com Vorcaro segue sem explicação detalhada

O tema que mais se repetiu no debate foi a negociação de R$ 134 milhões com Daniel Vorcaro, ex-dono do Banco Master, para financiar Dark Horse. Lula questionou Flávio ao menos sete vezes sobre o destino dos recursos e pediu que o senador detalhasse como o dinheiro foi utilizado.

Flávio afirmou que os valores seriam destinados à produção do filme, mas não apresentou, durante o debate, informações detalhadas sobre o caminho dos recursos. Diante das cobranças, declarou que já havia explicado o caso e que continuaria prestando esclarecimentos quando necessário.

O presidente também questionou a compra de uma casa que, segundo ele, custou R$ 10 milhões e teve parte do pagamento relacionada a recursos do Banco de Brasília (BRB), instituição envolvida no caso Master. Flávio respondeu que comprar um imóvel com o próprio trabalho não seria um problema, mas não esclareceu a questão específica sobre o BRB.

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Por que Flávio Bolsonaro escreveu corrupto na própria mão? Imagem: reprodução Band

Direitos das mulheres e jornada de trabalho

Lula cobrou uma explicação para o voto contrário de Flávio, em 2009, quando era deputado estadual no Rio de Janeiro, à ampliação da licença-maternidade das funcionárias da Assembleia Legislativa do Estado (Alerj). Segundo a cobrança feita no debate, o então parlamentar foi o único dos 49 deputados a votar contra a proposta.

Em vez de justificar a decisão, o senador afirmou que não tinha nada contra as mulheres, mencionou a esposa e as filhas e passou a fazer acusações contra familiares do presidente. Lula insistiu na pergunta, mas não obteve uma resposta sobre o voto.

A discussão também envolveu a escala 6×1 e as propostas relacionadas à jornada de trabalho. O confronto expôs divergências sobre os direitos dos trabalhadores e o papel do Estado na proteção social. Flávio, porém, não esclareceu os pontos centrais levantados pelo adversário sobre sua posição e a atuação de aliados políticos em propostas de flexibilização das relações de trabalho.

O tema tem impacto direto na vida de milhões de brasileiros, especialmente trabalhadores que enfrentam longas jornadas e têm pouco tempo para descanso, convivência familiar e atividades pessoais. No debate, a cobrança sobre a escala de trabalho não resultou em uma explicação detalhada sobre como o candidato pretende tratar a questão.

Atuação em caso de criança morta e política de armas

Na área da segurança pública, Lula questionou a atuação de Flávio em favor de um policial militar acusado de matar uma criança de cinco anos com um tiro de fuzil, no Rio de Janeiro. O presidente perguntou por que o senador teria interferido para evitar a prisão do agente.

Flávio desviou a discussão para o voto de pessoas presas e para críticas à atuação do governo federal. Também afirmou que não se deveria criminalizar a advocacia e mencionou que o policial ainda não havia sido julgado. Não explicou, contudo, a intervenção questionada por Lula.

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O presidente também cobrou esclarecimentos sobre a posição do senador a respeito de mecanismos de identificação de munições, que podem ajudar a rastrear a origem de projéteis encontrados em cenas de crimes. Flávio negou que pretendesse retirar essas informações, mas não detalhou a atuação legislativa mencionada pelo adversário.

A discussão ocorreu em meio ao debate sobre o acesso a armas e os mecanismos de controle do armamento no país. Para além das divergências entre os candidatos, a identificação de munições é uma ferramenta que pode contribuir para investigações e para a apuração de possíveis desvios de estoques legais.

Modelo de Milei e propostas para a economia

Lula perguntou repetidamente se Flávio considera o presidente argentino Javier Milei uma referência para seu projeto de governo. O senador não respondeu diretamente. Em vez disso, criticou governos de esquerda de outros países e prometeu combater a corrupção.

A discussão também envolveu a possibilidade de cortes em despesas públicas e os efeitos dessas medidas sobre serviços como educação e saúde. O presidente questionou quem seria atingido pelas reduções defendidas pelo adversário, mas não obteve uma resposta detalhada sobre os impactos sociais das propostas.

Ao falar sobre economia, Flávio prometeu abrir espaço de mais de R$ 200 bilhões no orçamento, sem especificar de onde viriam os recursos ou apresentar, durante a resposta, uma explicação detalhada de como a economia seria realizada. Ele resumiu sua proposta à necessidade de retirar Lula do governo.

Na saúde, o senador defendeu o chamado “padrão Einstein”, além da ampliação do prontuário eletrônico e da telemedicina. Não explicou como financiaria as medidas nem como elas seriam implementadas para ampliar o acesso da população ao Sistema Único de Saúde (SUS).

Na segurança pública, defendeu classificar o Primeiro Comando da Capital (PCC) e o Comando Vermelho (CV) como organizações terroristas e abrir 500 mil vagas no sistema prisional. A redução da maioridade penal não foi abordada diretamente nessa resposta, embora o candidato tenha defendido a medida posteriormente, no debate.

Lula também perguntou se o grupo político do senador pretende entregar terras raras e minerais críticos brasileiros aos Estados Unidos. Flávio classificou a questão como falsa e falou sobre o Escudo das Américas, iniciativa que apresentou como uma forma de cooperação contra o narcotráfico, sem tratar diretamente dos minerais.

Relações políticas e desafio sobre sigilo

Outra cobrança envolveu a contratação de familiares de pessoas apontadas por Lula como ligadas ao chamado Escritório do Crime, grupo de matadores de aluguel do Rio de Janeiro. Flávio respondeu com acusações contra o presidente e mencionou condenados em casos de corrupção, mas não esclareceu a questão apresentada.

Na reta final do debate, Lula propôs que os dois candidatos abrissem os sigilos bancário e telefônico de suas famílias e entregassem os dados ao Tribunal Superior Eleitoral (TSE) antes da eleição. Flávio afirmou que não tinha nada a esconder, mas acusou o presidente de receber dinheiro por fora, sem aceitar ou rejeitar expressamente o desafio.

O senador respondeu diretamente a algumas outras perguntas, entre elas uma sobre manter um escritório com o empresário conhecido como “Careca do INSS”.

Ele negou manter o escritório. Também negou ter tentado retirar a numeração das munições, contestou números sobre armas e munições liberadas durante o governo Bolsonaro e explicou que o corte de despesas que propõe atingiria o que considera privilégios do presidente. Respondeu ainda a uma pergunta da mediação sobre produtividade.

O levantamento do Brasil de Fato também identificou perguntas sem resposta direta de Lula: das 17 questões recebidas do adversário e dos mediadores, o presidente respondeu ao ponto central de três, respondeu parcialmente a seis e desviou de oito.

No caso de Flávio, porém, a reportagem destacou a repetição de perguntas por Lula, especialmente sobre os recursos de Vorcaro, o voto contrário à licença-maternidade e a atuação no caso do policial. Mesmo após as cobranças reiteradas, essas questões permaneceram sem esclarecimento sobre seus pontos centrais.

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