Flávio Bolsonaro era usuário master de conta ligada a jatinho usado por Vorcaro

Documentos citados por Malu Gaspar, de O Globo, indicam acesso do senador à conta de uma holding ligada à propriedade da aeronave; Flávio e o advogado Willer Tomaz negam vínculo financeiro ou societário
Foto de Flávio Bolsonaro e Willer Tomaz recuperada da conta iCloud de Willer Tomaz pela Polícia Federal – Reprodução

O senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ), candidato à Presidência da República, figurava como “usuário master” da conta bancária de uma empresa offshore que detinha um terço da participação em um jatinho executivo utilizado por ele em uma viagem com Vorcaro aos Estados Unidos, em janeiro de 2025. Leia em TVT News.

A informação foi publicada pela jornalista Malu Gaspar, do jornal O Globo, em reportagem assinada também por Yago Godoy e Johanns Eller, com base em documentos identificados pela Polícia Federal (PF).

A empresa, chamada Alcazar Holdings, é sediada na Ilha da Madeira, em Portugal, e tem como sócio o advogado Willer Tomaz, amigo de Flávio e investigado no caso de fraudes envolvendo o Instituto Nacional do Seguro Social (INSS). A holding possuía 33,33% da empresa Fraction 024, responsável pela propriedade da aeronave Embraer Legacy 650.

O jatinho que levou Moraes era então do… Flávio?

O avião também tinha como cotista a Prime You, empresa da qual Daniel Vorcaro, ex-dono do Banco Master, foi sócio entre setembro de 2021 e setembro de 2025. O mesmo jato foi utilizado pelo ministro do Supremo Tribunal Federal (STF) Alexandre de Moraes e sua mulher, a advogada Viviane Barci de Moraes, em agosto de 2025.

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E-mail de funcionária de Willer Tomaz para o banco Santander menciona divisão de conta entre advogado e Flávio Bolsonaro (PL) – Foto: Reprodução

O que diz o relatório da Polícia Federal

Segundo a reportagem de Malu Gaspar, a PF identificou e-mails trocados entre o banco Santander e uma secretária de Willer Tomaz, recuperados do iCloud do advogado durante as investigações sobre irregularidades no INSS.

Em relatório, os investigadores afirmam que Flávio Bolsonaro aparecia na documentação de abertura da conta da Alcazar Holdings com perfil de “usuário master”. De acordo com a PF, essa condição indicaria “nível elevado de acesso e gerenciamento” dos recursos bancários e “acesso operacional relevante” à conta.

Para os investigadores, a informação sustenta a hipótese de uma eventual participação econômica ou societária de fato do senador na empresa. O relatório também aponta que a participação da Alcazar na Fraction 024 poderia ajudar a esclarecer possíveis vínculos indiretos de Flávio com a estrutura societária do avião.

Um e-mail enviado ao Santander em 22 de maio de 2025 solicitava a inclusão de um novo usuário no perfil master da conta e a desvinculação de contas associadas a Flávio Bolsonaro e Willer Tomaz. A instituição financeira respondeu que as contas haviam sido excluídas do contrato.

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O documento, porém, não comprova por si só que o senador fosse sócio formal da holding ou que tivesse participação econômica na propriedade do jato. Essa possibilidade aparece como hipótese investigativa no relatório da PF, e não como conclusão definitiva.

Flávio e Willer Tomaz negam vínculo financeiro

Foto de Flávio Bolsonaro recuperada da conta iCloud de Willer Tomaz pela Polícia Federal – Reprodução
Foto de Flávio Bolsonaro recuperada da conta iCloud de Willer Tomaz pela Polícia Federal – Reprodução

Em nota à reportagem de O Globo, Flávio Bolsonaro negou ter mantido conta bancária na qual Willer Tomaz ou alguma de suas empresas figurasse como usuário master. O senador classificou como falsas as afirmações nesse sentido e argumentou que o próprio e-mail comprovaria que a associação era indevida, já que houve solicitação de desvinculação.

A defesa de Flávio também afirmou que a divulgação das informações ocorre em período eleitoral e acusou os responsáveis de disseminar notícias falsas.

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Willer Tomaz, por sua vez, declarou que mantém apenas uma relação de amizade com o senador, sem vínculo financeiro ou societário. O advogado contestou a interpretação dos documentos e afirmou que as viagens mencionadas na reportagem foram realizadas a lazer, com familiares convidados e sem pagamento ou contrapartida.

Tomaz também questionou a divulgação de dados extraídos de seu celular e de sua conta no iCloud, classificando o episódio como vazamento criminoso.

As negativas dos dois envolvidos não eliminam as questões levantadas pelos documentos descritos pela PF, mas deixam claro que a suposta participação econômica ou societária de Flávio na empresa permanece contestada.

Viagens internacionais e mensagens privadas

Em abril de 2025, registros indicariam uma reserva de voo entre Lisboa, em Portugal, e Nice, na França, com Flávio, sua mulher, Fernanda Bolsonaro, e o advogado Willer Tomaz, acompanhado da esposa.

Em maio do mesmo ano, outra reserva previa um trajeto entre Cascais, em Portugal, e Nice, com destino final indicado pela apuração como Mônaco. Os registros incluíam familiares dos dois.

Segundo Tomaz, essas viagens foram de lazer, sem pagamento ou contrapartida. A reportagem também menciona um safári realizado na África do Sul, em março de 2025, com a participação do senador Weverton Rocha (PDT-MA), citado em investigações relacionadas ao escândalo do INSS.

Reservas do jatinho com Willer, Flávio Bolsonaro e familiares na Europa – Foto: Reprodução
Reservas do jatinho com Willer, Flávio Bolsonaro e familiares na Europa – Foto: Reprodução

Outro elemento descrito no material da PF é a utilização do aplicativo Confide para conversas entre Flávio e Willer. A ferramenta oferece mensagens criptografadas e recursos de apagamento automático. Segundo os investigadores, o número de telefone do senador aparecia entre os contatos favoritos do advogado.

O uso do aplicativo, isoladamente, não comprova irregularidade. A informação integra o conjunto de elementos reunidos pela investigação para examinar a relação entre os dois.

Jatinho também foi utilizado por Alexandre de Moraes

O Embraer Legacy 650 ganhou repercussão após a divulgação de que Flávio Bolsonaro viajou na aeronave em janeiro de 2025. Posteriormente, foi revelado que Alexandre de Moraes e sua mulher também utilizaram o mesmo avião em agosto daquele ano.

A propriedade da aeronave era dividida entre três cotistas, entre eles a Prime You, da qual Daniel Vorcaro foi sócio, e a Alcazar Holdings, ligada a Willer Tomaz. A estrutura societária é relevante para a apuração porque o relatório da PF aponta que Flávio figurava como usuário master da conta bancária da holding.

A reportagem também menciona um contrato de R$ 50 milhões negociado por Vorcaro com Viviane Barci de Moraes, que previa a cessão da participação da Prime You e recursos para a manutenção do avião. O escritório da advogada e de seus filhos já havia firmado outro contrato com o Banco Master, no valor de R$ 131 milhões, dos quais R$ 80 milhões teriam sido pagos.

Essas informações fazem parte de frentes distintas da apuração e não devem ser confundidas com uma comprovação de irregularidade por parte de Flávio Bolsonaro ou do ministro Alexandre de Moraes.

Confira abaixo a nota de Flávio Bolsonaro:

O senador nunca manteve conta tendo como usuário master o Sr. Willer Tomaz ou qualquer de suas empresas. Toda e qualquer afirmação nesse sentido é falsa.

O próprio e-mail apresentado comprova justamente que a vinculação era indevida, tanto que solicita a desvinculação. Ou seja, o pedido só reforça que qualquer possibilidade de associação existente estava errada e precisava ser corrigida.

Essas insinuações surgem em pleno período eleitoral e exigem responsabilidade. A divulgação de Fake News é crime eleitoral e os responsáveis deverão responder na forma da lei.

Confira também a nota de Willer Tomaz:

O advogado Willer Tomaz repudia as inverdades reiteradas na reportagem. Com o senador Flávio Bolsonaro mantém apenas amizade, sem nenhum vínculo financeiro ou societário.

Os dois nunca dividiram conta bancária. O e-mail enviado ao Santander não demonstra o contrário. Extrair desse documento uma “eventual participação econômica ou societária” é ilação.

Os deslocamentos citados foram viagens de lazer com as famílias, que embarcaram como convidadas, sem pagamento ou contrapartida de qualquer natureza.

Converter conjecturas em denúncias, em plena campanha eleitoral, tem o evidente propósito de interferir no pleito. A exposição de dados sigilosos de seu celular e iCloud integra o vazamento criminoso já investigado pela Polícia Federal, e os autores responderão na Justiça.

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