Flávio emitiu R$ 1,5 mi em notas para empresas do esquema do Master

Documentos revelam emissão de três notas fiscais pelo escritório do senador para empresas conectadas à estrutura investigada no caso Master
Flávio confirma contrato de R$ 500 mil com empresa de contabilidade, nega vínculo com o banco de Daniel Vorcaro e afirma que cancelou serviços para a Copenhagen. Foto: Reprodução

As revelações sobre a relação entre o senador e pré-candidato à Presidência Flávio Bolsonaro (PL-RJ) e o escândalo envolvendo o Banco Master ganharam um novo capítulo. Documentos obtidos e divulgados inicialmente pelo Metrópoles, mostram que o escritório de advocacia do parlamentar emitiu três notas fiscais que somam R$ 1,5 milhão para duas empresas que aparecem ligadas à estrutura empresarial investigada no caso envolvendo o ex-controlador do Banco Master, Daniel Vorcaro. Saiba mais na TVT News.

Segundo os documentos, duas notas fiscais de R$ 500 mil cada foram emitidas em 7 de abril de 2025 para a Copenhagen Assessoria e Consultoria S.A., mas acabaram canceladas. Dois dias depois, em 9 de abril, o escritório de Flávio emitiu uma terceira nota, também de R$ 500 mil, desta vez para a Contábil Correa Contabilidade & Auditoria Ltda., sem registro de cancelamento.

>> Siga o grupo da TVT News no WhatsApp

As novas informações ampliam o contexto das relações entre Flávio Bolsonaro e Daniel Vorcaro, que já vinham sendo expostas pela série investigativa Vaza Flávio, do Intercept Brasil. As reportagens revelaram, inicialmente, áudios em que o senador solicita ao então banqueiro um aporte de R$ 134 milhões para financiar o filme Dark Horse, cinebiografia sobre Jair Bolsonaro.

Em seguida, vieram à tona registros da viagem de Flávio a São Paulo para se reunir com Vorcaro quando o empresário já enfrentava graves problemas judiciais, além de mensagens nas quais o banqueiro determinava que os pagamentos destinados ao filme fossem tratados como “o mais importante disparado, mesmo em meio à crise de liquidez enfrentada pelo Banco Master.

Agora, os documentos relativos às notas fiscais sugerem que as conexões entre o senador e empresas presentes na estrutura investigada não se limitaram às negociações envolvendo o financiamento do longa-metragem.

Empresas aparecem na estrutura investigada

A Copenhagen tornou-se alvo de atenção por figurar entre as empresas que mais receberam recursos do Banco Master.

De acordo com documentos da Receita Federal obtidos pela CPI do Crime Organizado, a companhia recebeu aproximadamente R$ 57,9 milhões do banco entre 2024 e 2025. A empresa foi criada em novembro de 2024 com capital social de apenas R$ 40, fato destacado nas reportagens por contrastar com o elevado volume de recursos posteriormente movimentado.

Segundo as investigações, a Copenhagen pertence ao fundo Estônia, administrado pela Trustee DTVM, gestora citada nas apurações da Polícia Federal sobre o caso Master por supostamente participar da administração e movimentação de ativos ligados ao grupo de Daniel Vorcaro.

Outro elemento comum entre as duas empresas destinatárias das notas fiscais é o contador Rogério Lourenço Novo.

Ele aparece como único sócio da Contábil Correa e passou a figurar como diretor da Copenhagen. Além disso, integra o conselho fiscal da Ambipar, empresa que também aparece relacionada à estrutura empresarial investigada.

As reportagens lembram ainda que Rogério Lourenço Novo já foi investigado anteriormente pela Polícia Federal por suposta participação em um esquema de emissão de notas fiscais falsas entre 2013 e 2015, investigação que estimava fraude superior a R$ 100 milhões. O caso acabou arquivado.

O que dizem as notas

As duas notas posteriormente canceladas registravam prestação de consultoria jurídica para a Copenhagen.

Já a terceira nota, mantida ativa, refere-se a serviços de assessoria jurídica prestados à Contábil Correa.

Até o momento, não foram apresentados detalhes públicos sobre a natureza específica dos serviços jurídicos realizados pelo escritório de Flávio Bolsonaro para a empresa de contabilidade.

Flávio confirma contrato e nega ligação com o Master

Flávio Master
Senador diz que tentativas de associá-lo ao Master são “infundadas”. Foto: Jefferson Rudy/Agência Senado

Em manifestação pública e em nota enviada à imprensa, Flávio Bolsonaro confirmou que seu escritório recebeu R$ 500 mil da Contábil Correa por serviços advocatícios privados.

Segundo o senador, a contratação ocorreu com a BR Global, nome fantasia da Contábil Correa, empresa que, segundo ele, presta serviços para mais de 200 clientes.

Flávio afirmou que posteriormente foi consultado sobre a possibilidade de atender uma cliente da empresa — a Copenhagen —, mas que recusou a contratação.

Por isso, segundo sua versão, as duas notas emitidas para a Copenhagen foram canceladas antes que qualquer pagamento fosse realizado.

O parlamentar também afirmou desconhecer qualquer vínculo entre as empresas contratantes e o Banco Master.

Em nota, declarou:

“Não tenho e jamais tive conhecimento de qualquer relação ou vinculação entre a BR Global ou a Copenhagen e o Master.”

O senador ainda sustentou que tentativas de associá-lo ao banco seriam infundadas e afirmou suspeitar de vazamento ilegal de informações fiscais protegidas por sigilo.

Dono da Copenhagen confirma contratação

Ao Metrópoles, Rogério Lourenço Novo confirmou ser proprietário da Copenhagen desde setembro de 2025.

Ele declarou que contratou o escritório de Flávio Bolsonaro para prestar serviços jurídicos destinados a clientes de sua empresa de contabilidade, em um modelo que classificou como “quarteirização”.

Questionado sobre quais clientes receberam atendimento ou quais serviços foram efetivamente executados, afirmou possuir mais de 200 clientes e disse que buscaria as informações. Segundo a reportagem, porém, ele não voltou a responder aos questionamentos.

Caso amplia pressão sobre pré-campanha

As novas revelações surgem em um momento em que o caso Master continua produzindo desdobramentos políticos e judiciais.

Além das investigações sobre o financiamento do filme Dark Horse, tramitam ações na Justiça Eleitoral questionando eventual abuso de poder econômico relacionado à produção cinematográfica.

Também vieram a público informações de que Daniel Vorcaro incluiu, em sua nova proposta de colaboração premiada apresentada à Polícia Federal e à Procuradoria-Geral da República, relatos sobre os pedidos de recursos feitos por Flávio Bolsonaro para o financiamento do filme, conforme revelou a CNN Brasil.

No Tribunal Superior Eleitoral, o caso passou a ser relatado pelo presidente da Corte, ministro Kassio Nunes Marques, indicado ao Supremo Tribunal Federal por Jair Bolsonaro. Entre os processos sob sua relatoria estão ações que discutem o financiamento do filme, eventual abuso de poder econômico e os impactos eleitorais do caso.

Enquanto isso, a sucessão de reportagens amplia o escrutínio sobre as relações entre Flávio Bolsonaro, Daniel Vorcaro e empresas que aparecem na estrutura financeira investigada no escândalo do Banco Master. Embora o senador negue qualquer irregularidade e afirme que todas as suas atividades profissionais ocorreram dentro da legalidade, as novas informações acrescentam mais um elemento ao conjunto de fatos que vem sendo apurado por autoridades e que já provocou repercussões políticas durante a corrida presidencial de 2026.

Assuntos Relacionados