Flotilha leva ajuda a Cuba e expõe impacto do bloqueio dos EUA

Missão com cerca de 140 ativistas entrega alimentos, remédios e painéis solares enquanto ilha enfrenta apagões e disparada no preço dos combustíveis
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Comboio Nossa América” prevê envio de até 50 toneladas de ajuda à ilha por via marítima e aérea Foto: Reprodução/@DiazCanelB

Uma flotilha internacional de ajuda humanitária chegou a Cuba nesta terça-feira (26), em meio ao agravamento da crise energética que atinge o país. A iniciativa reúne cerca de 140 ativistas de diferentes nacionalidades e transporta alimentos, medicamentos e painéis solares, em uma tentativa de aliviar os impactos do bloqueio econômico e da escassez de combustíveis que têm provocado apagões frequentes em toda a ilha. Leia em TVT News.

O primeiro barco da missão, o pesqueiro “Maguro”, atracou em Havana com três dias de atraso, após enfrentar condições climáticas adversas e problemas técnicos durante a travessia iniciada na Península de Yucatán, no México. Ao se aproximar do porto, os tripulantes renomearam simbolicamente a embarcação como “Granma 2.0”, em referência ao histórico iate utilizado por Fidel Castro e seus companheiros para iniciar a revolução de 1956.

No convés, ativistas exibiam uma faixa com a mensagem “Deixe Cuba viver”, enquanto apoiadores reunidos no cais respondiam com gritos de “Sim a Cuba! Não ao bloqueio!”. A cena sintetiza o caráter político da missão, que busca não apenas entregar ajuda emergencial, mas também denunciar o impacto das sanções impostas pelos Estados Unidos.

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A flotilha integra o chamado “Comboio Nossa América”, uma operação internacional que prevê o envio de até 50 toneladas de ajuda à ilha por via marítima e aérea. Nos últimos dias, carregamentos vindos da Europa e dos Estados Unidos já haviam chegado por avião, enquanto outros dois barcos são esperados para reforçar a operação.

Os organizadores atribuem o agravamento da crise energética às medidas adotadas pelo governo de Donald Trump, que teriam restringido o acesso de Cuba a combustíveis após mudanças no cenário político regional. Com a escassez de petróleo, o país enfrenta uma combinação de usinas obsoletas e falta de insumos, o que resultou em pelo menos sete apagões nacionais desde 2024 — dois deles apenas na última semana.

O impacto é sentido diretamente pela população. O preço da gasolina disparou para cerca de US$ 9 por litro (aproximadamente R$ 46), valor muito acima da média internacional e praticamente inviável para a maioria dos cubanos. A crise energética afeta desde o funcionamento de hospitais até o abastecimento de alimentos e o transporte público.

David Adler, coordenador da organização Progressive International e um dos líderes da missão, afirmou que a iniciativa busca evidenciar o “custo humano” das sanções. Segundo ele, a ação demonstra que “a solidariedade internacional pode superar o isolamento imposto”.

Entre os participantes está o ativista brasileiro Thiago Ávila, que defendeu maior mobilização internacional em apoio à ilha. “Não podemos permitir que o direito internacional seja soterrado pela ganância”, afirmou durante a travessia. Ele destacou que a missão também representa uma resposta organizada da sociedade civil diante da inação de governos.

A brasileira Lisi Proença ressaltou que a experiência adquirida em iniciativas anteriores — como a tentativa de envio de ajuda humanitária à Faixa de Gaza — permitiu ampliar a capacidade logística da flotilha. “Agora conseguimos transportar itens maiores, como painéis solares, que podem ajudar diretamente comunidades afetadas pelos apagões”, explicou.

Apesar do caráter humanitário, a ação enfrenta críticas. Setores do exílio cubano em Miami classificam a flotilha como uma “ação política” que beneficiaria o governo da ilha mais do que a população. Os organizadores rejeitam essa leitura e afirmam que a distribuição da ajuda é feita diretamente junto a comunidades e organizações locais.

Enquanto o debate político se intensifica, a chegada da flotilha evidencia a gravidade da crise vivida em Cuba. Entre apagões, inflação e escassez de recursos básicos, a população enfrenta um cenário de deterioração das condições de vida — e a ajuda internacional, embora limitada, surge como um alívio emergencial diante de um problema estrutural que permanece sem solução no curto prazo.

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