A faixa de renda mensal isenta do Imposto de Renda da Pessoa Física (IRPF) passou de R$ 1.903,98, valor mantido durante boa parte do governo Jair Bolsonaro (PL), para R$ 5 mil em 2026, no terceiro mandato de Luiz Inácio Lula da Silva (PT). A mudança representa uma ampliação de aproximadamente 163% no limite de isenção efetiva e altera a tributação sobre os rendimentos de trabalhadores, aposentados e pensionistas. Leia em TVT News.
A diferença entre os dois governos está na política adotada para corrigir a tabela do imposto. Durante a gestão Bolsonaro, entre 2019 e 2022, a faixa de isenção permaneceu congelada no valor estabelecido em 2015. A ausência de atualização fez com que a inflação reduzisse o poder de compra dos rendimentos e ampliasse, na prática, o número de pessoas sujeitas à cobrança do tributo.
A partir de 2023, o governo Lula iniciou uma sequência de mudanças para elevar o limite de isenção. Em maio daquele ano, a faixa efetiva chegou a R$ 2.640 mensais, considerando o desconto simplificado. Em fevereiro de 2024, passou para R$ 2.824 e, em maio de 2025, alcançou R$ 3.036.
A alteração mais abrangente começou a valer em janeiro de 2026. Com a nova regra, aprovada em 2025, quem recebe até R$ 5 mil por mês em rendimentos tributáveis passou a ter isenção integral do IRPF. Para quem ganha entre R$ 5.000,01 e R$ 7.350 mensais, a legislação prevê uma redução gradual do imposto devido.
Congelamento no governo Bolsonaro: faixa de isenção não acompanhou inflação
A manutenção da tabela durante boa parte do governo Bolsonaro contrastou com as mudanças implementadas a partir de 2023. Como a faixa de isenção não acompanhou a inflação, rendimentos que antes estavam livres da cobrança puderam passar a ser tributados, mesmo sem representar um aumento real do poder de compra.
A política tributária faz parte de uma discussão mais ampla sobre a distribuição de renda e o papel do Estado. A forma como os impostos são cobrados determina quem contribui proporcionalmente mais para o financiamento das políticas públicas e quem dispõe de maior renda depois do pagamento dos tributos.
A comparação entre os governos também precisa considerar os diferentes contextos econômicos. A gestão Bolsonaro enfrentou os efeitos da pandemia de Covid-19, enquanto o terceiro mandato de Lula começou diante de um cenário de insegurança alimentar, baixo investimento público e desestruturação de políticas sociais. Ainda assim, os dados apresentados pela economista Juliane Furno apontam diferenças entre as escolhas econômicas das duas administrações.
Isenção do Imposto de Renda para quem ganha até R$ 5 mil é um avanço do governo Lula
Em artigo publicado no especial Lula × Bolsonaro 2026, do Le Monde Diplomatique Brasil, a economista Juliane Furno analisa os resultados do terceiro governo Lula e os compara às políticas adotadas na gestão anterior.
Para a pesquisadora, a ampliação da isenção do Imposto de Renda para quem ganha até R$ 5 mil representa um avanço na tentativa de reduzir o caráter regressivo da tributação brasileira.
A medida foi acompanhada pela criação de uma tributação mínima sobre as altas rendas, que ajuda a financiar a ampliação da isenção. Na avaliação de Furno, essa mudança constitui um movimento concreto para tornar o sistema tributário menos desigual, ao aliviar a cobrança sobre rendimentos menores e ampliar a contribuição das faixas mais elevadas de renda.
A economista também destaca outros resultados do atual governo relacionados ao trabalho e à renda. Entre eles estão a retomada da política de valorização real do salário mínimo, a recomposição do Bolsa Família e a redução do desemprego. Segundo os dados citados por ela, a taxa de desocupação chegou a 5,3% no trimestre encerrado em agosto de 2026, enquanto a população ocupada alcançou 103,5 milhões de pessoas.
Furno, porém, aponta limites na política econômica de Lula. O governo manteve regras fiscais que subordinam despesas sociais e investimentos públicos às metas de resultado primário.
A pesquisadora também chama atenção para os juros elevados e o endividamento das famílias, fatores que dificultam a transformação dos avanços no emprego e na renda em uma melhora mais perceptível das condições de vida.
A análise indica que a ampliação da isenção do IRPF é uma mudança relevante, mas não resolve, por si só, os problemas relacionados à desigualdade, ao custo do crédito e à distribuição dos rendimentos.
Diferenças na renda e no papel do Estado
No governo Bolsonaro, o Brasil conviveu com taxas de desemprego de dois dígitos durante grande parte do mandato, chegando a 14,9% no auge da pandemia. A recuperação do mercado de trabalho ocorreu, em parte, por meio da informalidade e de vínculos precários.
O país terminou 2022 com mais de 33 milhões de pessoas em situação de insegurança alimentar grave, segundo a Rede Penssan. No mesmo período, o salário mínimo teve ganhos reais praticamente nulos ao longo dos quatro anos de governo Bolsonaro.
Já na gestão Lula, a retomada da valorização real do salário mínimo e a recomposição de políticas sociais foram acompanhadas pela ampliação da isenção do Imposto de Renda. Para Furno, essas decisões indicam uma concepção diferente sobre a atuação do Estado na redução das desigualdades.
Outra diferença está na política econômica voltada ao setor produtivo. Enquanto o governo Bolsonaro privatizou a Eletrobras e vendeu refinarias e subsidiárias da Petrobras, a administração Lula voltou a defender o planejamento estatal e a participação pública no desenvolvimento econômico, embora, na avaliação da pesquisadora, ainda existam limitações nos investimentos.
A economista também alerta para as propostas econômicas associadas a Flávio Bolsonaro. Segundo sua análise, um programa baseado em cortes de gastos, redução de impostos e flexibilização de direitos trabalhistas pode pressionar os serviços públicos e transferir custos para a população de menor renda.
Ela ressalta que uma eventual revisão da tributação mínima sobre as altas rendas poderia comprometer o financiamento da isenção do IRPF para quem recebe até R$ 5 mil.
A comparação evidencia, portanto, duas orientações distintas para a política tributária. Durante boa parte do governo Bolsonaro, a faixa de isenção permaneceu congelada. Sob Lula, ela foi ampliada progressivamente até alcançar R$ 5 mil mensais em 2026, acompanhada de uma mudança na tributação das rendas mais altas.