A morte de “El Mencho”, líder do Cártel Jalisco Nueva Generación (CJNG), provocou onda de violência no México com estradas bloqueadas e prédios públicos e comerciais incendiados. Leia em TVT News.
Quem foi El Mencho
El Mencho era Nemesio Oseguera Cervantes, líder do Cártel Jalisco Nueva Generación (CJNG), considerado o mais violento do México. El Mencho morreu em uma operação militar depois de ser procurado por décadas. Era ex-policial e fundou o cartel mais violento do México e morreu em operação militar
México enfrenta onda de violência após morte de El Mencho, narcotraficante mais procurado do país
Guadalajara, México, 23 de fevereiro de 2026, com informações da AFP
O México permanece em estado de alerta nesta segunda-feira (23), com escolas fechadas em pelo menos oito estados, após a onda de violência desencadeada pela morte do poderoso chefe do narcotráfico Nemesio “El Mencho” Oseguera em uma operação militar.
A presidente Claudia Sheinbaum pediu calma à população em meio à explosão de violência, que provocou bloqueios em rodovias, incêndios de veículos e estabelecimentos comerciais, além do cancelamento de dezenas de voos de companhias aéreas dos Estados Unidos e do Canadá.
Além do fechamento de escolas em vários estados, o Poder Judiciário anunciou que os juízes podem manter os tribunais fechados se considerarem necessário.
“El Mencho”, líder do Cartel Jalisco Nova Geração (CJGN), era o narcotraficante mexicano mais procurado. O governo dos Estados Unidos oferecia uma recompensa de 15 milhões de dólares por informações que levassem à sua captura.
Ele era considerado o último dos chefões ao estilo de Joaquín “El Chapo” Guzmán e Ismael “El Mayo” Zambada, presos em 2016 e 2024, respectivamente, e atualmente detidos nos Estados Unidos.
O narcotraficante de 59 anos ficou ferido em um confronto com militares na localidade de Tapalpa (oeste do país) e morreu “durante seu traslado por via aérea à Cidade do México”, informou o Exército.
Durante a operação, sete criminosos morreram e três militares ficaram feridos. Dois integrantes do CJNG foram detidos e diversas armas foram apreendidas, como lançadores de foguetes capazes de derrubar aeronaves e destruir veículos blindados.
A porta-voz da Casa Branca, Karoline Leavitt, afirmou que os Estados Unidos “forneceram apoio de inteligência ao governo mexicano” na operação.
Guadalajara paralisada
Em reação à operação militar, membros do cartel iniciaram uma onda de violência em vários estados. Homens armados bloquearam com carros e caminhões incendiados diversas vias do estado de Jalisco.
A capital do estado, Guadalajara, a segunda maior cidade do país e que receberá quatro jogos da Copa do Mundo de 2026, ficou paralisada após um pedido do governo para que os moradores procurassem abrigo.
Todos os estabelecimentos comerciais fecharam as portas. Nas ruas, apenas as sirenes dos carros dos bombeiros eram ouvidas, enquanto os serviços de emergência trabalhavam para controlar os incêndios provocados por supostos membros do cartel.
“Chegaram alguns homens armados, vi a arma e disseram para sairmos, nós saímos e eles tinham um carro com as portas abertas. Pensei que iam nos sequestrar, corri para a frente, até uma barraca de tacos, e me abriguei com eles”, disse à AFP María Medina, que trabalha em uma loja de conveniência que foi incendiada por criminosos em Guadalajara.
Os bloqueios e incêndios de lojas e estabelecimentos também se estenderam ao balneário de Puerto Vallarta, ao estado vizinho de Michoacán e aos estados de Puebla (centro), Sinaloa (noroeste), Guanajuato (centro) e Guerrero (sul), entre outros.
Oito horas depois da operação militar, muitas rodovias permaneciam bloqueadas por homens armados, constataram jornalistas da AFP.
Segundo as autoridades mexicanas, às 20h00 (23h00 de Brasília), quase 90% dos 229 bloqueios registrados no país tinham sido desativados.
Pressão de Trump
Diante do cenário de violência, três partidas de futebol foram suspensas no domingo. O Departamento de Estado americano instou seus cidadãos no México a buscarem abrigo.
A morte de “El Mencho” ocorre em meio à pressão do presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, para que o México freie o envio de drogas, especialmente fentanil, para seu país, e de acusações de que o governo Sheinbaum não faz o suficiente para combater o narcotráfico.
O subsecretário de Estado americano Christopher Landau descreveu a operação como um “grande marco para o México, os Estados Unidos, a América Latina e o mundo”.
O cartel de “El Mencho” foi formado em 2009 e se tornou uma das quadrilhas do narcotráfico mais violentas do México, segundo informações do Departamento de Justiça americano.
Os Estados Unidos classificaram esse cartel como uma organização terrorista e o acusam de tráfico de cocaína, heroína, metanfetamina e fentanil.

O que é o Cartel Jalisco Nova Geração e qual é seu futuro sem El Mencho?
Cidade do México, México
O Exército mexicano matou no domingo (22) Nemesio Oseguera “El Mencho”, fundador e líder do Cartel Jalisco Nova Geração (CJNG), o traficante mais poderoso do México e por quem os Estados Unidos ofereciam 15 milhões de dólares (R$ 78 milhões).
Oseguera, de 59 anos, ficou ferido em um confronto com militares na localidade de Tapalpa, em Jalisco (oeste). Ele morreu pouco depois, quando era transferido por via aérea para a Cidade do México.
O CJNG reagiu de forma violenta, com bloqueios de rodovias e incêndio de veículos em Jalisco – sede do cartel – e em outros estados do país. Células do cartel incendiaram estabelecimentos comerciais e provocaram terror entre a população.
A reação após a operação evidenciou o amplo poder que o cartel mantém em diferentes regiões do México, com presença tanto em atividades legais quanto ilegais. Também mostrou sua ampla estrutura e capacidade de mobilização.
A resposta brutal do cartel reacendeu dúvidas sobre o futuro da organização criminosa e os possíveis cenários que podem se abrir após este episódio. As principais questões são abordadas a seguir:
1. O que é o Cartel Jalisco Nova Geração e quão poderoso é?
O “Mencho” fundou este cartel em 2009 e, segundo especialistas, trata-se de uma das organizações do narcotráfico mais poderosas do México. O chefe do tráfico morto era um dos principais responsáveis pelo envio de heroína, cocaína, metanfetamina e fentanil para os Estados Unidos, segundo o governo americano.
“É certamente uma das organizações mais poderosas no México em termos de capacidade militar, de recrutamento e de armas”, disse à AFP David Mora, especialista do centro de análise Crisis Group.
Os negócios do cartel se expandiram para outras atividades criminosas, como extorsão, roubo de combustível e tráfico de pessoas, segundo a agência antidrogas americana (DEA), crimes que lhe garantem forte renda e grande capacidade econômica.
O CJNG se caracterizou por se mostrar “sempre disposto a desafiar o governo mexicano”, afirma.
Em diversas ocasiões, divulgou imagens de seus pistoleiros exibindo armamento e veículos blindados, além de ter atentado em 2020 contra o atual secretário de Segurança Pública, Omar García Harfuch, quando este era chefe da polícia na capital. Também esteve por trás, em novembro, do assassinato do prefeito de Uruapan, Carlos Manzo.
“Em sua narrativa, eles sempre estão muito dispostos a desafiar e a mostrar sua capacidade operacional (…). Não hesitam em realizar ataques muito políticos como o de García Harfuch”, disse Mora.
2. Por que a reação foi tão violenta em vários estados do México?
A reação violenta após a operação contra Oseguera destacou o poder do cartel no México. Os bloqueios e o incêndio de lojas e estabelecimentos também se estenderam ao balneário de Puerto Vallarta, ao estado vizinho de Michoacán e aos estados de Puebla (centro), Sinaloa (noroeste), Guanajuato (centro) e Guerrero (sul).
É a organização criminosa predominante em vários estados, mas em outros está em conflito com outros grupos criminosos.
“O que vimos hoje é justamente uma demonstração de onde operam e onde podem infligir violência”, disse Mora.
Por sua vez, o analista de segurança nacional Gerardo Rodríguez afirmou que as autoridades tinham “calculado sua reação”; o que “não estava no radar era que (a reação) tivesse alcance nacional” e que ativassem células aliadas em todo o país.
Apesar disso, Rodríguez destacou que, com suas ações, o cartel não conseguiu impedir que Oseguera fosse morto e que seu corpo fosse transferido pelas autoridades para a Cidade do México.
“Em termos táticos e operacionais, é uma operação muito bem-sucedida do governo da República”, disse Rodríguez.

3. O que acontecerá com o cartel sem o “Mencho” à frente?
Nemesio Oseguera era um líder criminoso ao estilo de Joaquín “Chapo” Guzmán e Ismael “El Mayo” Zambada, presos nos Estados Unidos. Tinha presença dominante no CJNG e não contava com sucessores claros.
Segundo especialistas, o CJNG havia se fortalecido após o enfraquecimento do Cartel de Sinaloa por suas guerras internas.
Seu filho mais velho, conhecido como “El Menchito”, foi condenado no ano passado nos Estados Unidos à prisão perpétua.
Os possíveis cenários são que o cartel continue operando sem seu líder ou que entre em uma guerra interna pelo comando.
Em caso de conflito interno, “teríamos um aumento da violência homicida”, disse o especialista em segurança David Saucedo.
“Ao não haver uma sucessão direta, cria-se um vazio de poder que abre a possibilidade de gerar rearranjos violentos dentro da organização”, explicou o analista do Crisis Group.
© Agence France-Presse

