Duas moradoras da Comunidade Vitória Pantanal, na região do Jardim Monte Líbano, em Piracicaba, denunciam que foram intimidadas por policiais militares (PMs) e obrigadas a entregar camisetas de apoio ao presidente Lula na manhã desta quarta-feira (21). Saiba mais sobre violência policial em SP com a TVT News.
Mulheres são intimidadas por PMs a tirar camisetas de apoio ao Lula
Uma delas afirma ter levado um chute após se recusar a retirar a peça porque ficaria de sutiã. A deputada estadual Professora Bebel (PT) esteve no bairro e anunciou que encaminhará o caso à Ouvidoria da Polícia Militar para cobrar apuração e responsabilização dos envolvidos.
Segundo as mulheres, cujas identidades estão sendo preservadas, a abordagem ocorreu quando saíam de casa e passavam por uma ação policial na comunidade. Elas relatam que os agentes perguntaram se moravam no local e se usavam drogas. Em seguida, passaram a questionar as camisetas e a fazer ofensas relacionadas ao apoio ao PT.
“Foi aí que me deram um chute e foram até minha casa, para que eu retirasse a camiseta. Lá, pegaram mais uma camiseta, mas disseram que queriam cinco”
“Quando viram que se tratava de uma camiseta pedindo votos para o presidente Lula, imediatamente pediram que a retirasse”, contou uma das moradoras. Segundo ela, os policiais também perguntaram se não havia “um partido melhor para trabalhar”.
Uma das mulheres, que vestia outra peça por baixo, retirou a camiseta e a entregou aos agentes. A outra se recusou por estar apenas de sutiã.
“Foi aí que me deram um chute e foram até minha casa, para que eu retirasse a camiseta. Lá, pegaram mais uma camiseta, mas disseram que queriam cinco”, relatou. Ao todo, segundo as denunciantes, os policiais levaram três camisetas.
As duas mulheres vão registrar a ocorrência na Delegacia da Mulher. Para Bebel, o relato exige investigação rigorosa tanto sobre a agressão denunciada quanto sobre a retirada e a destinação do material de campanha.
“Esse caso não pode ficar impune. Os policiais não podem abusar do seu poder para intimidar militantes do nosso partido e fazer uso indevido de material retirado das nossas apoiadoras”, afirmou a deputada.
Bebel classificou o episódio como violência política e ideológica e disse que cobrará providências para que os agentes envolvidos respondam por sua atuação.
PMs teriam colocado camisetas em menores apreendidos
As camisetas do Lula teriam sido retiradas das mulheres para serem colocadas em menores que foram apreendidos pela polícia. As informações são da TV TODODIA, de Piracicaba.
Em depoimento à TVT TODODIA, “a mãe de um adolescente de 17 anos detido durante uma ocorrência relacionada a entorpecentes em Piracicaba afirma que policiais teriam colocado camisetas alusivas ao presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) nos três detidos após a abordagem nesta quarta-feira (21”).
Edna Souza Barbosa, de 33 anos, disse à TV TODODIA que “o filho não usava a camiseta no momento em que foi abordado. Segundo ela, os três detidos teriam recebido peças iguais posteriormente”.
De acordo com a reportagem da TV TODODIA, A versão apresentada pela mãe diverge do registro inicial da ocorrência, que descreve “três homens de camiseta branca do Lula”.
“Eles não estavam com as camisetas. Colocaram as três blusas iguais”, afirmou Edna à TV. De acordom com a reportagme, “a mulher também acusa policiais de agredirem o filho durante a ação e afirma que uma filha de 14 anos teria sido empurrada no peito ao tentar se aproximar do irmão. Segundo Edna, familiares também teriam sido ameaçados caso acompanhassem a abordagem.”
Caso lembra a falsificação com os sequestradores do empresário Abílio Diniz
O caso dos sequestradores do empresário Abílio Diniz, em 1989, é um dos episódios mais sujos da história política brasileira, especialmente pela tentativa de associar o sequestro à campanha presidencial de Luiz Inácio Lula da Silva, o Lula, que disputava a Presidência naquele ano.
O que aconteceu em dezembro de 1989?
- 11 de dezembro de 1989: Abílio Diniz, então proprietário do Grupo Pão de Açúcar, foi sequestrado em São Paulo.
- 16 de dezembro: a polícia localizou o cativeiro, libertou o empresário e prendeu os envolvidos. A operação ocorreu na véspera do segundo turno da eleição presidencial, disputado por Lula e Fernando Collor de Mello.
- A repercussão política: imagens dos sequestradores usando camisetas do PT foram divulgadas pela imprensa, e a polícia informou ter encontrado materiais de campanha de Lula nos imóveis ligados ao grupo.
As camisetas foram colocadas pela polícia?
Essa foi a denúncia feita pelos próprios sequestradores e pelo PT na época. O caso ganhou uma dimensão política porque a associação entre o partido e o crime surgiu às vésperas da votação presidencial.
Em depoimento à Justiça, o líder do grupo, o argentino Humberto Paz, afirmou que policiais haviam tirado suas roupas e colocado nele uma camiseta do PT. O relato foi publicado pela Folha de S.Paulo em janeiro de 1990. A PM, na época negou as acusações de tortura e de que tivesse vestido os presos com camisetas do partido.
A investigação sobre a suspeita de que os presos teriam sido fotografados com as camisetas por iniciativa da polícia foi arquivada dois anos depois, por falta de provas, segundo reportagem da Folha.
O que diz a Secretaria de Segurança Pública
A reportagem da TVT entrou em contato com a Secretaria de Segurança Pública de São Paulo (SSP-SP) para explicação tanto sobre a violência contra as mulheres, como sobre a acusação de políciais terem colocado camisetas em menores apreeendidos e aguarda a resposta oficial.
Por hora, a SSP diz que está apurando o caso.
Caso Ana Clara é outro exemplo de violência da PM
O episódio de intolerância acontece no mesmo dia em que o Brasil se pergunta sobre o caso Ana Clara Gomes Machado, menina que morreu ao ser atingida por tiros de fuzil disparado pela PM do Rio de Janeiro.
Ana Clara tinha cinco anos quando foi atingida por um disparo em 2 de fevereiro de 2021, na comunidade Monan Pequeno, no bairro de Pendotiba, em Niterói. O julgamento do PM responsável pelo disparo estava previsto para este dia 21 de outubro, mas não aconteceu por interferência de Flávio Bolsonaro.
Relembre o caso Ana Clara
Segundo as informações reunidas sobre o caso, a menina havia acabado de acordar e brincava na calçada de casa quando foi baleada. O irmão dela, de dois anos, estava nas proximidades.

O Ministério Público do Rio de Janeiro (MPRJ) apontou o cabo Bruno Dias Delarolli, integrante do 12º Batalhão da Polícia Militar, como responsável pelo disparo fatal. O agente foi acusado de homicídio doloso, classificação aplicada quando há intenção de matar ou quando o autor assume o risco de provocar a morte.
O policial alegou que estava em uma situação de confronto com criminosos armados. A investigação, entretanto, contestou essa versão. Conforme os elementos periciais citados nos relatos sobre o caso, foram encontrados vestígios de munição calibre 7,62, compatível com o fuzil utilizado pelo militar, sem identificação de cápsulas de pistola que sustentassem a hipótese de troca de tiros.
Delarolli foi preso em flagrante, mas passou a responder ao processo em liberdade em novembro de 2021.
Flávio Bolsonaro entrou na defesa do PM em 2024
A participação de Flávio Bolsonaro no caso começou em 2024, quando o senador passou a integrar a equipe jurídica responsável pela defesa do policial militar. Naquele momento, a Justiça já havia determinado que o acusado fosse submetido ao Tribunal do Júri, responsável pelo julgamento de crimes dolosos contra a vida.