“Ninguém tem o direito de causar medo”, diz Lula ao criticar Trump

Em entrevista ao El País, presidente brasileiro acusa líder dos EUA de agir com base na força e defende diálogo, multilateralismo e respeito à soberania em cenário global “muito delicado”
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Para Lula, a postura do presidente norte-americano revela não apenas uma leitura equivocada da geopolítica, mas também produz efeitos negativos para o próprio povo dos Estados Unidos. Foto: Ricardo Stuckert / PR

Em entrevista ao jornal espanhol El País, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva fez duras críticas ao presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, apontando o que considera uma condução equivocada da política internacional baseada na imposição de força econômica, militar e tecnológica. Ao longo da conversa, Lula contrapôs esse modelo ao que defende como liderança responsável, pautada pelo diálogo entre nações e pelo respeito à soberania. Saiba mais na TVT News.

“Prefiro ser um líder respeitado, não temido. Ninguém tem o direito de causar medo”, afirmou Lula, em uma das declarações mais contundentes da entrevista. A crítica sintetiza a visão do presidente brasileiro sobre o papel das grandes potências no cenário global e marca uma clara oposição ao estilo adotado por Trump, que, segundo Lula, parte do pressuposto de que o poder dos Estados Unidos lhes permite ditar as regras do jogo internacional.

O presidente brasileiro também relatou diretamente um episódio de tensão diplomática recente entre Brasil e Estados Unidos, envolvendo tarifas comerciais e sanções. Segundo Lula, os argumentos apresentados por Trump para justificar medidas contra o Brasil “não eram verdadeiros”. Diante disso, optou por uma estratégia de contenção e diálogo. “Disse a ele que dois países governados por dois senhores de 80 anos deveriam conversar com maturidade”, contou.

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Para Lula, a postura do presidente norte-americano revela não apenas uma leitura equivocada da geopolítica, mas também produz efeitos negativos para o próprio povo dos Estados Unidos. Ele citou como exemplo decisões militares que acabam impactando diretamente o custo de vida da população, como o aumento no preço dos combustíveis. “Quando se toma uma decisão dessas, quem paga é o povo”, afirmou.

Ao ampliar a análise, Lula afirmou que o mundo vive hoje uma conjuntura de alta instabilidade, agravada justamente por esse tipo de postura unilateral. “É como se o mundo fosse um navio à deriva”, disse, ao criticar o enfraquecimento das instituições internacionais e o aumento simultâneo de conflitos ao redor do planeta. Segundo ele, nunca houve, desde a Segunda Guerra Mundial, tantos focos de guerra ao mesmo tempo.

Lula defende reforma dos organismos multilaterais

Nesse contexto, o presidente brasileiro defendeu a reformulação urgente de organismos como a Organização das Nações Unidas (ONU), que, em sua avaliação, perdeu credibilidade diante da incapacidade de mediar conflitos e conter ações unilaterais de grandes potências. Lula criticou diretamente o funcionamento do Conselho de Segurança, afirmando que os países que deveriam garantir a paz frequentemente agem à margem das próprias regras internacionais.

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“Prefiro ser um líder respeitado, não temido”, frisou. Foto: Ricardo Stuckert/PR

“As instituições não cumprem mais o papel para o qual foram criadas. E isso abre espaço para discursos como o de Trump ganharem força”, avaliou. Para o presidente, a atual estrutura global, baseada na correlação de forças do pós-Segunda Guerra, já não responde aos desafios contemporâneos e precisa ser atualizada para refletir uma ordem mais equilibrada e representativa.

Lula também fez um alerta contundente sobre os riscos de escalada militar. Segundo ele, a lógica do rearmamento, impulsionada por decisões de potências globais, pode levar o mundo a um cenário ainda mais perigoso. “Alguém precisa tomar a iniciativa de parar isso”, disse, destacando que tem buscado diálogo com lideranças internacionais, como as da China, Índia e países europeus, para promover negociações e reduzir tensões.

Ao mencionar a possibilidade de uma nova guerra de grandes proporções, Lula foi enfático: “Uma terceira guerra mundial seria uma tragédia dez vezes maior que a segunda”. Para ele, evitar esse desfecho passa necessariamente por abandonar a lógica da imposição e fortalecer o multilateralismo — justamente o oposto do que atribui à atuação de Trump.

Na entrevista, o presidente também abordou o impacto dessas disputas globais na América Latina, criticando a histórica ingerência dos Estados Unidos na região. Embora tenha descartado o risco iminente de novas intervenções, Lula reiterou que nenhum país tem o direito de interferir na soberania de outro — uma crítica indireta, mas clara, à política externa norte-americana.

Ao longo da conversa, Lula procurou reafirmar o papel do Brasil como defensor do diálogo e da cooperação internacional. Segundo ele, sua “guerra” é a do argumento e da negociação, e não a da força. “Quero mais comércio, mais democracia, mais entendimento entre os países”, disse.

A entrevista também teve espaço para temas domésticos, como as eleições de 2026 e o embate com o bolsonarismo, mas foi no campo internacional que Lula adotou o tom mais incisivo. Ao criticar diretamente Trump e o modelo que ele representa, o presidente brasileiro se posiciona como uma das vozes em defesa de uma ordem global baseada na diplomacia e na convivência entre nações — em contraposição ao avanço de posturas autoritárias e unilaterais.

Nesse sentido, a fala de Lula não se limita a uma crítica pontual a um adversário político estrangeiro, mas se insere em uma disputa mais ampla sobre os rumos da política internacional. Em um mundo marcado por conflitos crescentes e instituições fragilizadas, o presidente brasileiro aposta na reconstrução do multilateralismo como caminho para evitar um cenário de agravamento das tensões globais.

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