Por Nilson Hashizumi
Há algo curioso acontecendo na política brasileira.
Enquanto os extremos seguem organizados, barulhentos e emocionalmente mobilizados, uma parte significativa do país parece ter entrado em silêncio.
Não é apatia.
É exaustão.
Exaustão de um debate que não avança, de posições que não dialogam e de uma lógica onde vencer parece mais importante do que governar.
É nesse espaço — difuso, fragmentado, ainda sem identidade clara — que surge, mais uma vez, a tentativa de construção de uma terceira via.
Mas há um detalhe importante que costuma ser ignorado:
O centro não nasce da ausência de extremos. Ele precisa ser construído como presença.
A engenharia política que tentou dar forma ao centro
No fim de janeiro de 2026, Gilberto Kassab fez um movimento que, à primeira vista, parecia reunir todos os elementos da racionalidade política.
Atraiu três governadores em fim de mandato — Ronaldo Caiado, Ratinho Junior e Eduardo Leite — e organizou uma espécie de “pré-seleção” para a disputa presidencial.
A ideia era simples, quase didática:
escolher entre os três aquele que tivesse melhores condições de competir, unificar o grupo e apresentar ao país uma candidatura de centro, moderada, dialogadora, sem os vícios dos extremos.
Na lógica da estratégia, fazia sentido.
Na lógica da política real, nem tanto.
Porque política não é apenas construção de cenário.
É disputa de percepção.
Quando o plano encontra a realidade
Ratinho Junior foi anunciado como pré-candidato.
Duas semanas depois, desistiu.
E esse movimento, que pode parecer apenas mais um capítulo da dinâmica eleitoral, na verdade revela algo mais profundo:
O centro ainda não encontrou o seu próprio chão
Com cerca de 7% das intenções de voto no início de março, segundo a Genial/Quaest, Ratinho ocupava exatamente o lugar onde muitas candidaturas de centro param:
existe, aparece, mas não se impõe.
É lembrado — mas ainda não é escolhido.
E na política, essa diferença é brutal.
O jogo que acontece fora dos holofotes
Enquanto o centro tenta se organizar, os extremos seguem jogando.
A reaproximação entre Jair Bolsonaro e Sergio Moro não é apenas um gesto político.
É reposicionamento de força.
É reorganização de território.
É mensagem para dentro e para fora.
Ao fortalecer o palanque no Paraná, ao mesmo tempo em que reconfigura relações internas, o campo conservador demonstra algo que o centro ainda não conseguiu fazer:
agir como bloco.
Já o centro, até aqui, se comporta como soma.
E soma, em política, raramente vence bloco organizado.
O dado que revela o espaço — e o problema
Se a movimentação das lideranças mostra o jogo político, os dados mostram o humor da sociedade.
E o humor é claro: o país está dividido — e cansado.
A pesquisa Genial/Quaest de fevereiro de 2026 mostra um cenário de equilíbrio tenso: 45% aprovam o governo Lula, enquanto 49% desaprovam.
Em março, a desaprovação cresce para 51%, com 44% de aprovação.
Não há ruptura.
Mas há desgaste.
E mais do que isso: há um dado que costuma passar despercebido —
os eleitores independentes, aqueles que poderiam sustentar uma candidatura de centro, não estão plenamente convencidos por nenhum dos lados.
O centro existe.
Mas ainda não se reconhece como escolha.
O erro recorrente: tratar o centro como estratégia — e não como identidade
Há um equívoco que se repete eleição após eleição.
Imaginar que o centro pode ser construído por engenharia política.
Não pode.
Centro não é posicionamento técnico.
Centro é percepção social.
Não se define em reunião.
Se constrói na trajetória.
Não se impõe por acordo.
Se conquista por confiança.
E aqui entra um ponto que deveria ser óbvio, mas raramente é tratado com a devida seriedade:
reputação não se improvisa em ano eleitoral.
Entre a intenção e a viabilidade
O movimento de Kassab tem mérito.
É, talvez, a tentativa mais estruturada dos últimos anos de dar forma a uma alternativa fora da polarização.
Mas esbarra em três barreiras que não se resolvem com articulação:
1. O eleitor não escolhe apenas com a razão — escolhe com identidade
E identidade, hoje, está ancorada nos extremos.
2. O centro não mobiliza — ainda
Porque não oferece pertencimento claro.
3. Visibilidade não é viabilidade
Ser conhecido não é o mesmo que ser escolhido.
E a política, no fim, é sobre escolha.
2026 não será uma eleição simples
Lula chega competitivo, mas sob desgaste.
O campo conservador se reorganiza e tenta reviver sua força.
E, entre esses dois polos, existe um eleitor que não quer repetir 2018, nem reviver 2022.
Mas querer algo diferente não significa saber o que escolher.
E esse é o espaço — e o desafio — da terceira via.
A travessia que ainda não começou
A pergunta não é se há espaço para o centro.
Há.
A pergunta é outra: há alguém capaz de transformar esse espaço em confiança?
Porque, no fim, é sempre sobre isso.
Trajetória gera reputação.
Reputação gera confiança.
E confiança é o que sustenta qualquer projeto de poder legítimo.
Sem isso, não há terceira via.
Há apenas tentativa.
Sobre o autor
NILSON HASHIZUMI
Nilson Hashizumi é estrategista de marketing político e corporativo, jornalista, fotógrafo, gestor de cultura e preparador de candidatos, grupos e agremiações políticas, com MBA em Comunicação Governamental e Marketing Político. Co-fundador da Alcateia Política, orientou, coordenou e defendeu candidatos majoritários em São Paulo e Pará e candidatos proporcionais em São Paulo e Minas Gerais.
Orientado a resultados, trabalha com visão de processos na gestão da comunicação on e off-line para a construção de reputação, imagem e formação de opinião. Atuou por mais de 30 anos na iniciativa privada, organizações da sociedade civil e entidades de classe antes de atuar em favor de entes políticos. Associado ao CAMP.
Especialista em campanhas e comunicação governamental, integra estratégias on-line e off-line na construção de imagem pública
Defende que reputação é patrimônio — construída pela trajetória, sustentada pela coerência e reconhecida pela confiança.

