A Prefeitura de São Paulo, sob a gestão de Ricardo Nunes (MDB), aprovou documentos de prestação de contas do Instituto Conhecer Brasil (ICB), responsável pela instalação de pontos de Wi-Fi gratuito na capital, mesmo com inconsistências nos dados apresentados pela organização. Entre os problemas identificados estão coordenadas geográficas que apontam para outros municípios e até para uma praia no Rio de Janeiro. Leia em TVT News.
As informações foram reveladas pelo Intercept Brasil nesta quinta-feira (24). A reportagem analisou planilhas entregues pela ONG à Secretaria Municipal de Inovação e Tecnologia (SMIT), responsável pelo acompanhamento do programa WiFi Livre SP. O material continha divergências entre endereços, CEPs e coordenadas dos equipamentos, além de registros de instalações com datas futuras.
O Instituto Conhecer Brasil é presidido por Karina Ferreira da Gama, empresária que também comanda a produtora responsável pelo filme Dark Horse, cinebiografia do ex-presidente Jair Bolsonaro (PL). A entidade recebeu mais de R$ 100 milhões da prefeitura para executar o serviço de conectividade em regiões periféricas da cidade.
Segundo a investigação jornalística, as falhas nos documentos comprometem a verificação dos locais de instalação dos equipamentos e dificultam o controle sobre a execução do contrato e a destinação dos recursos públicos.
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Coordenadas apontam para praia no Rio de Janeiro
Uma das inconsistências mais expressivas aparece no registro de um ponto de Wi-Fi que deveria atender ao Conjunto Residencial José Bonifácio, na zona leste paulistana. Embora o endereço e os demais dados cadastrais indiquem a capital, as coordenadas geográficas levam à Ilha de Paquetá, no Rio de Janeiro, a mais de 400 quilômetros do local declarado.
O Intercept identificou 37 pontos cujas coordenadas indicam localidades fora da cidade de São Paulo, apesar de os endereços informados corresponderem a regiões da capital. A análise também encontrou erros em CEPs e divergências nas datas de instalação dos equipamentos.
Em um dos casos, um ponto que constava como instalado e em funcionamento em dezembro de 2024 aparece em outra planilha com data de instalação prevista para dezembro de 2026, embora o sistema já o identificasse como ativo.
As duas planilhas analisadas têm 2.673 registros em comum. Uma delas foi apresentada pelo ICB em janeiro de 2025, enquanto a outra foi localizada em documentos apreendidos durante uma investigação da Polícia Civil, em junho de 2026.
Prefeitura prorrogou contrato apesar das falhas
Mesmo após receber os documentos com inconsistências, a gestão municipal prorrogou o contrato com o instituto em duas ocasiões, elevando o valor total do acordo para mais de R$ 157 milhões.
Em dezembro de 2025, a Secretaria Municipal de Inovação e Tecnologia emitiu parecer favorável à renovação, afirmando que a execução havia sido rigorosamente verificada e estava de acordo com os indicadores estabelecidos.
Entretanto, de acordo com o Intercept, os processos administrativos analisados pela reportagem não continham registros de verificações técnicas que comprovassem a qualidade das instalações. Também não foram encontrados documentos que demonstrassem questionamentos da prefeitura à ONG sobre as inconsistências identificadas nas planilhas.
Em resposta à reportagem, a secretaria afirmou que os pontos são fiscalizados periodicamente por meio de monitoramento técnico e georreferenciado. A pasta declarou ainda que eventuais erros cadastrais são identificados e comunicados à instituição responsável.
O Instituto Conhecer Brasil não respondeu aos questionamentos enviados pelo veículo.
Contrato é alvo de investigação sobre financiamento de Dark Horse
O contrato de Wi-Fi público já está no centro de investigações sobre possíveis irregularidades no uso de recursos municipais. A Polícia Civil de São Paulo apura suspeitas de desvio de dinheiro do programa para financiar a produção de Dark Horse.
Em setembro, o ministro Flávio Dino, do Supremo Tribunal Federal (STF), determinou uma operação relacionada ao caso. A Polícia Federal apontou indícios de uma possível triangulação financeira de pelo menos R$ 6,1 milhões entre empresas e entidades ligadas a Karina Ferreira da Gama.
As suspeitas envolvem a possível utilização de recursos públicos destinados à inclusão digital para custear despesas da produção cinematográfica sobre Jair Bolsonaro.
As inconsistências nas planilhas acrescentam questionamentos sobre os mecanismos de fiscalização do contrato pela prefeitura. Até o momento, porém, os erros documentais não comprovam, por si só, desvio de recursos ou participação de agentes públicos em eventuais irregularidades.
A apuração busca esclarecer tanto a execução do programa WiFi Livre SP quanto o caminho percorrido pelo dinheiro público repassado ao Instituto Conhecer Brasil.