Papa Leão XIV pede perdão pela demora da Igreja em condenar a escravidão

Papa reconhece atraso da Igreja em condenar a escravidão e pede luta contra contra o domínio da Inteligência Artificial
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Esta foto, tirada em 15 de maio de 2026 e divulgada em 25 de maio de 2025 pela Mídia do Vaticano, mostra o Papa Leão XIV assinando sua primeira Encíclica, "Magnifica Humanitas", focada na ascensão da inteligência artificial, no Vaticano. (Foto: Divulgação / Mídia do Vaticano / AFP) / Uso editorial restrito.


Na primeira encíclica escrita pelo Papa Leão XIV, o líder da Igreja Católica pede desculpas pela demora da Igreja em condenar a escravidão. Encíclicas são cartas solenes escritas pelo Papa com mensagens para a comunidade católica. Conheça a encíclica Magnifica Humanitas com a TVT News.

Papa Leão XIV pede perdão pela Igreja demorar em condenar a escravidão

Da Cidade do Vaticano, Santa Sé, com informações da AFP

O papa Leão XIV pediu desculpas pelo longo atraso da Igreja Católica em condenar a escravidão, que chamou de uma “ferida na memória cristã” em sua primeira encíclica, publicada nesta segunda-feira (25).

“Em nome da Igreja, peço sinceramente perdão”, escreveu Leão XIV no texto que define as posições da Igreja em diversas questões, entre elas a inteligência artificial (IA).

No passado, os papas já pediram desculpas pela participação dos cristãos no tráfico de escravizados.

João Paulo II denunciou a atividade em 1992, antes de apresentar, no ano 2000, um amplo pedido de perdão pelas injustiças históricas.

O papa Francisco também denunciou repetidamente as formas contemporâneas de escravidão.

No entanto, as palavras de Leão XIV foram além.

O papa americano destacou que a Igreja foi proprietária de escravizados até a Idade Média e que também assessorou soberanos europeus sobre como justificar a escravidão dos “infiéis”.

“Foi necessário esperar até o século XIX para encontrar uma condenação formal, absoluta e universal da escravidão”, escreveu em “Magnifica Humanitas” (Magnífica Humanidade), um documento que aborda principalmente a ascensão da IA.

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Obra “Navio negreiro” do pintor alemão Johann Moritz Rugendas, de 1830, que narra o tráfico de escravizados, com os negros sequestrados e transportados em condições degradantes nos navios negreiros após a captura na costa da África. Papa Leão XIV reconheceu que o passado escravocrata é uma “ferida na memória cristã, da qual não podemos nos considerar alheios”

A encíclica acrescenta: “É verdade que os acontecimentos do passado não podem ser julgados de forma anacrônica, como se todos os critérios morais que amadureceram ao longo do tempo sempre estivessem disponíveis”.

“Ainda assim, também não podemos negar ou minimizar a demora com que tanto a sociedade quanto a Igreja passaram a denunciar o flagelo da escravidão”.

“Isto constitui uma ferida na memória cristã, da qual não podemos nos considerar alheios”, completou o pontífice.

Papa Leão XIV defende luta contra o ‘dominío’ da IA em sua primeira encíclica

O papa Leão XIV pediu que a humanidade lute contra o “domínio” da inteligência artificial (IA) em sua primeira encíclica, publicada nesta segunda-feira (25), um documento que também denuncia a “desumanização” e o conceito de “guerra justa”.

O texto de 130 páginas, com o título “Magnifica Humanitas” (“Magnífica Humanidade”), aborda uma variedade de questões, como a demora da Igreja em condenar a escravidão e o impacto da IA sobre o meio ambiente.

Esta foto, tirada em 15 de maio de 2026 e divulgada em 25 de maio de 2025 pela Mídia do Vaticano, mostra o Papa Leão XIV assinando sua primeira Encíclica, "Magnifica Humanitas", focada na ascensão da inteligência artificial, no Vaticano. (Foto: Divulgação / Mídia do Vaticano / AFP) / Uso editorial restrito.
Carta encíclica do Papa Leão XIV, “Magnifica Humanitas”, focada na ascensão da inteligência artificial, no Vaticano, em 25 de maio de 2026. (Foto de Alberto Pizzoli / AFP)

As encíclicas são documentos direcionados a todos os fiéis que estabelecem a posição de referência da Igreja sobre questões sociais, morais, políticas ou teológicas.

Diante da importância do documento, o pontífice o apresentou pessoalmente, ao lado de especialistas em IA, entre eles o cofundador da empresa Anthropic, Christopher Olah.

“Não podemos considerar a IA como moralmente neutra”, afirma o papa, que apresenta um pedido para “desarmar” esta tecnologia e “impedir seu domínio sobre o humano”.

Leão XIV também denuncia que o controle das plataformas, das infraestruturas e dos dados “não é prerrogativa dos Estados, mas sim de grandes atores econômicos e tecnológicos que, de fato, determinam as condições de acesso”.

Citando, entre outros, Platão e J.R.R. Tolkien por sua luta contra a desumanização, o papa americano critica as “novas formas de escravidão” para extrair os recursos necessários à IA e pede soluções tecnológicas mais sustentáveis “para reduzir o impacto sobre o meio ambiente e cuidar da nossa Casa comum”.

“Em algumas regiões do mundo, adolescentes e crianças trabalham em condições perigosas na trituração dos materiais dos quais se obtêm as terras raras” um grupo de metais essenciais para a tecnologia moderna.

“Corpos marcados, mutilados, desgastados para que o fluxo de cálculos não seja interrompido”, denuncia o papa.

Contra as “guerras justas”

O Papa também aproveita a encíclica para pedir “perdão” pelo atraso histórico da Igreja em condenar a escravidão.

Além dos desafios tecnológicos, o papa adverte sobre o risco de “desumanização”, alertando contra uma visão do ser humano reduzido ao seu desempenho ou a dados explorados por máquinas.

Desde a sua eleição, há um ano, o primeiro papa americano da história intensificou os alertas sobre os perigos da IA, em particular o seu uso no âmbito militar, e sobre a necessidade de uma “alfabetização digital”.

“Nenhum algoritmo pode fazer com que a guerra seja moralmente aceitável”, escreve Leão na encíclica.

Analistas acreditam que o impacto de “Magnifica Humanitas” pode ser comparável ao da encíclica “Laudato Si” (“Louvado Sejas”), de 2015, na qual o papa Francisco abordou a questão ecológica e que desencadeou uma onda de reações em todo o mundo.

Sem mencionar nomes, o pontífice reitera a necessidade de “superar a teoria da ‘guerra justa'”, um conceito defendido, entre outros, pelo governo americano de Donald Trump, e lamenta que “a humanidade esteja deslizando para uma cultura violenta do poder”, que normaliza a guerra como “instrumento de política internacional”.

Em abril, a Casa Branca criticou o papa por afirmar que “Deus não ouve as orações de quem faz a guerra”, no contexto do conflito no Oriente Médio.

Em uma entrevista coletiva nesta segunda-feira, o papa explicou que o texto surgiu da “escuta”, após dialogar com cientistas, engenheiros, líderes políticos, pais e professores “preocupados” com as jovens gerações.

“Precisamos que mais atores no mundo — comunidades religiosas, sociedade civil, pesquisadores, governos — façam o que Sua Santidade fez aqui: levar isso a sério, examinar com atenção e orientar os acontecimentos em uma direção melhor”, declarou Christopher Olah.

“Magnifica Humanitas” coroa vários anos de reflexão dentro da Igreja sobre as tecnologias relacionadas à IA.

Em 2020, a Santa Sé lançou, em conjunto com empresas de tecnologia e instituições acadêmicas, o Apelo de Roma para a Ética da IA, no qual defendia um desenvolvimento tecnológico respeitoso da dignidade humana.

© Agence France-Presse

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