Pesquisadores identificam sala onde ditadura armou “suicídio” de Vladimir Herzog

Estudo da Unifesp localiza espaço usado pelo DOI-Codi para simular suicídio do jornalista em 1975 e reforça provas materiais de tortura
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Caso Herzog é um dos mais emblemáticos da história da ditadura brasileira. Foto: Acervo/Instituto Vladimir Herzog

Pesquisadores da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp) identificaram a sala exata onde agentes da ditadura militar encenaram a falsa cena de suicídio do jornalista Vladimir Herzog, morto em outubro de 1975 nas dependências do DOI-Codi, em São Paulo. A descoberta, divulgada em reportagem no Fantástico, reforça evidências históricas de que Herzog foi torturado e assassinado sob custódia do Estado. Mais informações em TVT News.

A investigação faz parte de um projeto que reúne especialistas de diferentes áreas, como história, arquitetura e arqueologia, dedicado a reconstituir a configuração original do prédio que abrigava o órgão de repressão. O imóvel, localizado na zona sul da capital paulista, foi palco de graves violações de direitos humanos durante o regime militar.

Segundo os pesquisadores, a identificação da sala foi possível a partir do cruzamento de documentos históricos, fotografias da época — incluindo a imagem oficial divulgada pelos militares — e análises físicas do edifício. Um dos pontos decisivos foi a correspondência entre elementos arquitetônicos visíveis na foto de Herzog morto e características encontradas no local, como o tipo de janela com blocos de vidro, a disposição do espaço e marcas estruturais preservadas.

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Vladmir Herzog
A foto da farsa. Foto: Acervo/Instituto Vladimir Herzog

A equipe também realizou inspeções detalhadas no prédio e encontrou indícios ocultos por reformas posteriores. Entre eles, vestígios de paredes modificadas e estruturas que indicam alterações feitas para descaracterizar o ambiente original. Esses achados ajudaram a confirmar o espaço exato onde a cena foi montada para sustentar a versão oficial de suicídio.

A fotografia divulgada à época já era considerada inconsistente por peritos e pela sociedade civil. Nela, Herzog aparece pendurado de maneira incompatível com um enforcamento, com os pés próximos ao chão — o que levantou suspeitas imediatas. A versão do regime foi contestada desde então por familiares, jornalistas e entidades de direitos humanos.

O estudo da Unifesp também se baseou em depoimentos de ex-presos políticos que passaram pelo DOI-Codi. Esses relatos contribuíram para a reconstrução da dinâmica interna do local e ajudaram a validar as conclusões obtidas pelas análises técnicas. Testemunhos indicam que o espaço identificado era utilizado tanto para interrogatórios quanto para tortura.

Além da sala onde a farsa foi montada, os pesquisadores localizaram outras evidências materiais da repressão, como inscrições deixadas por detentos nas paredes — marcas que registram a passagem do tempo e as condições de encarceramento. Esses vestígios foram encontrados sob camadas de tinta e intervenções feitas ao longo das décadas.

Herzog e o fim da ditadura

O caso Herzog é um dos mais emblemáticos da história da ditadura brasileira. À época, o jornalista era diretor de jornalismo da TV Cultura e se apresentou espontaneamente para prestar depoimento ao DOI-Codi. Horas depois, foi anunciado como morto, em uma versão oficial que alegava suicídio — posteriormente desmentida por investigações independentes e reconhecida como fraude pelo próprio Estado brasileiro.

A morte de Herzog provocou forte reação da sociedade e é considerada um marco no enfraquecimento do regime militar. O episódio impulsionou mobilizações públicas, como o ato ecumênico realizado na Catedral da Sé, e ampliou a pressão por redemocratização.

Décadas depois, a identificação da sala onde a cena foi forjada acrescenta uma dimensão concreta às conclusões já estabelecidas por comissões da verdade e decisões judiciais, que reconhecem a responsabilidade do Estado pela morte do jornalista.

Pesquisadores e entidades de direitos humanos defendem que o prédio do antigo DOI-Codi seja transformado em um espaço de memória. Embora o local seja tombado, ainda não funciona plenamente como centro de preservação histórica. Há iniciativas em andamento para garantir sua destinação à memória das vítimas da repressão.

A descoberta reforça a importância da preservação de evidências materiais para o enfrentamento do negacionismo histórico. Ao localizar o espaço físico da encenação, o estudo amplia a compreensão sobre os mecanismos utilizados pela ditadura para ocultar crimes e manipular versões oficiais.

Mais de 50 anos após a morte de Vladimir Herzog, a nova evidência contribui para consolidar a verdade histórica e reafirma a necessidade de memória, justiça e reparação diante das violações cometidas pelo regime militar brasileiro.

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