A macromolécula polilaminina derivada da proteína laminina, presente na fase embrionária de um ser humano, pode se mostrar eficaz no tratamento de lesões na medula espinhal, tendo até potencial para reverter casos de paralisia. A substância é resultado de mais de 25 anos de pesquisa liderada pela bióloga e professora Tatiana Lobo Coelho de Sampaio, da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), e já apresenta resultados inéditos na regeneração neural. Saiba os detalhes na TVT News.
Em janeiro de 2026, a Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) autorizou o início da Fase 1 dos estudos clínicos em humanos, etapa que avaliará a segurança da substância em pacientes com lesões medulares agudas. O avanço é uma vitória na trajetória científica que começou no fim dos anos 1990, a partir de uma descoberta feita quase por acaso em laboratório.

Da laminina à polilaminina: como surgiu a descoberta
A pesquisa da Dra. Tatiana Sampaio teve início com o estudo da laminina, proteína essencial para a formação do sistema nervoso durante o desenvolvimento embrionário. Em adultos, no entanto, sua presença é rara e desorganizada, um dos fatores que dificultam a regeneração de neurônios após traumas.
Ao submeter a laminina, extraída de placentas humanas, a um processo de acidificação (pH 4.0), a equipe de pesquisa observou que a proteína se polimerizava espontaneamente, formando uma estrutura estável e organizada. Surgia, assim, a polilaminina (polyLM).
Diferente da laminina comum, que forma agregados desordenados, a polilaminina cria uma malha tridimensional com geometria fractal. Essa estrutura funciona como um “andaime biológico”, oferecendo suporte físico para que neurônios atravessem a cicatriz glial, barreira que normalmente impede a reconexão das fibras nervosas após uma lesão.
Os estudos também indicam que a substância reduz significativamente a apoptose (morte celular) nas primeiras horas após o trauma e exerce efeito neuroprotetor contra agentes tóxicos.
Evidências em animais e humanos
Antes de chegar à fase clínica atual, a polilaminina foi testada em mais de 500 ratos e em cães com lesões agudas e crônicas. Nos modelos animais, houve recuperação de funções motoras sem registro de efeitos adversos graves.
Em protocolos experimentais iniciados por volta de 2018, seis pacientes com lesões classificadas como completas (nível ASIA A) receberam o tratamento. Cinco deles evoluíram para ASIA C, recuperando movimentos voluntários e sensibilidade parcial.
Entre os casos mais emblemáticos está o de Bruno Drummond de Freitas, que sofreu tetraplegia após um acidente. Após a aplicação da polilaminina diretamente na medula espinhal por um procedimento cirúrgico, e um ano de fisioterapia intensiva, ele voltou a andar.
“No início, os médicos disseram que eu ficaria em cadeira de rodas para o resto da vida. Depois, falaram que talvez conseguisse andar com muletas. Mas eu nunca perdi a esperança. Um dia, ainda no hospital, mexi o dedão do pé e aquilo foi um choque para todo mundo. A cada semana eu evoluía mais”, contou Bruno à FAPERJ.
Diogo Barros Brollo, que sofreu lesão medular total, relatou retorno de sensibilidade e movimentos voluntários nos pés duas semanas após o procedimento. “Dou graças a Deus de ter tido acesso à aplicação. Tive uma grande chance, uma grande oportunidade. É muito bom ver que o estudo da doutora Tatiana está dando certo, está caminhando para ser liberado para outras pessoas”, declarou Diogo à Folha de S.Paulo.
Além deles, outros seis voluntários receberam doses de polilaminina para auxiliar no tratamento de lesões na medula espinhal.
Parceria, royalties e crise da patente
A produção da polilaminina ocorre por meio de parceria entre a UFRJ e o Laboratório Cristália, empresa brasileira responsável pela industrialização do composto. Em 2023, a tecnologia gerou R$ 3 milhões em royalties para a universidade, o maior valor já recebido pela instituição.
Apesar do sucesso, o Brasil perdeu a patente internacional da tecnologia entre 2015 e 2016, após cortes orçamentários do governo de Michel Temer que impediram o pagamento das taxas de manutenção. Atualmente, a patente nacional é detida pelo Cristália.
Reconhecimento e próximos passos
O impacto científico e social da pesquisa rendeu à Dra. Tatiana Sampaio a Medalha Tiradentes concedida pela Assembleia Legislativa do Rio de Janeiro (Alerj) em 2026. Especialistas apontam que o estudo pode ser um dos mais promissores da neurociência brasileira nas últimas décadas.
A nova fase autorizada pela Anvisa prevê a inclusão inicial de cinco pacientes com lesões entre as vértebras T2 e T10, com foco na avaliação da segurança biológica e da aplicação cirúrgica intramedular.
Além das lesões medulares, pesquisadores investigam o potencial da polilaminina no tratamento de doenças neurodegenerativas como Alzheimer e Parkinson, devido à sua capacidade de estabilizar circuitos neurais e favorecer a sobrevivência de neurônios.

