Um novo relatório do Laboratório de Estudos sobre Desordem Informacional e Políticas Públicas (DesinfoPop), da Fundação Getulio Vargas (FGV), acende um alerta sobre o avanço de discursos misóginos que atacam um dos pilares da democracia brasileira: o direito das mulheres ao voto. Intitulado “Ataques ao direito de voto das mulheres na machosfera brasileira”, o estudo conclui que comunidades da chamada machosfera no Telegram vêm consolidando uma narrativa organizada para deslegitimar o sufrágio feminino, associando o exercício desse direito a uma suposta decadência social e política. Saiba mais na TVT News.
A pesquisa analisou 126 publicações feitas entre dezembro de 2020 e julho de 2026 em 18 comunidades abertas do Telegram. O principal achado é contundente: 87% dos conteúdos são explicitamente contrários ao voto feminino. Segundo os pesquisadores, praticamente não há contrapontos dentro dessas comunidades. As poucas mensagens classificadas como neutras limitam-se ao compartilhamento de reportagens ou registros históricos, sem defesa efetiva do direito ao voto das mulheres.
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Os autores observam que, nesses espaços, a discussão não gira em torno da possibilidade de restringir esse direito. A premissa já é tratada como uma certeza: mulheres não deveriam votar. Essa naturalização aparece em frases como “um dos maiores erros da sociedade ocidental”, “uma das maiores desgraças da humanidade” e “a pior decisão já tomada pelo Brasil”, expressões recorrentes nas mensagens analisadas. Para o estudo, a repetição dessas afirmações transforma o ataque ao sufrágio feminino em um consenso interno, reduzindo a necessidade de qualquer argumentação.
O levantamento também identificou crescimento da circulação desse tipo de conteúdo na machosfera a partir do segundo semestre de 2024, com um pico em agosto de 2025. Os pesquisadores relacionam esse aumento à repercussão internacional de declarações de figuras da direita norte-americana contrárias ao voto feminino. Entre os episódios citados está o compartilhamento, pelo então secretário de Defesa dos Estados Unidos, Pete Hegseth, de um vídeo em que pastores defendiam a revogação da 19ª Emenda da Constituição norte-americana, responsável por garantir o sufrágio às mulheres. Nas comunidades brasileiras da machosfesra monitoradas, a repercussão desse caso foi interpretada como sinal de que haveria espaço para avançar na mesma pauta.
Machosfera: misoginia como justificativa
O relatório aponta que os ataques ao voto feminino são sustentados por dois grandes conjuntos de argumentos na machosfera. O primeiro consiste na essencialização das mulheres, isto é, na atribuição de características apresentadas como naturais ou biológicas para justificar sua suposta incapacidade política.
Em um registro considerado paternalista, mulheres são descritas como excessivamente emocionais, sentimentais e incapazes de tomar decisões racionais sobre temas de interesse público. Em outra vertente, muito mais agressiva, aparecem caracterizações que as definem como “egocêntricas”, “hipergâmicas” e até “psicopatas”, utilizando linguagem pseudocientífica para tentar conferir aparência de legitimidade às afirmações.
Os pesquisadores destacam uma contradição importante nesses discursos da machosfera. Em alguns momentos, as mulheres são consideradas incapazes de governar por excesso de empatia; em outros, pela ausência completa dela. Embora incompatíveis entre si, ambas as justificativas conduzem exatamente à mesma conclusão: negar legitimidade ao voto feminino. Segundo o relatório, isso demonstra que essas características não funcionam como fundamento lógico, mas como justificativas adaptáveis para sustentar um veredito previamente estabelecido.
Outro argumento recorrente nas comunidades afirma que apenas quem estaria sujeito ao serviço militar ou pagaria diretamente pelos custos das decisões políticas teria legitimidade para votar. Nesse raciocínio, o direito ao voto deveria ser condicionado à participação em guerras ou ao pagamento de determinados tributos, lógica que também se estende, segundo o estudo, a ataques contra servidores públicos e beneficiários de programas sociais.
O componente político
Além dos argumentos misóginos, a pesquisa conclui que existe uma motivação claramente política por trás da campanha contra o sufrágio feminino na machosfera.
As mensagens analisadas sustentam repetidamente que as mulheres votariam majoritariamente em candidatos identificados com a esquerda, razão pela qual não deveriam participar das eleições. Frases como “é através do voto feminino que o comunismo prospera” aparecem de forma recorrente, associando feminismo, políticas sociais e partidos de esquerda a uma mesma narrativa conspiratória.
Segundo o estudo, diversas publicações afirmam que mulheres apoiariam candidatos favoráveis ao aborto, à ampliação de direitos sociais, à proteção ambiental ou à assistência estatal, utilizando essas posições para justificar a retirada do direito ao voto. Também aparecem críticas a políticos de direita que procuram dialogar com o eleitorado feminino. Em diferentes ocasiões, lideranças conservadoras são chamadas de “traidoras” por buscarem apoio entre mulheres, evidenciando que a rejeição ao voto feminino possui caráter programático dentro dessas comunidades.
Riscos para a democracia
Na avaliação dos autores, a principal consequência da normalização desses discursos presentes na machosfera é o deslocamento daquilo que passa a ser considerado aceitável no debate público. O relatório alerta que a deslegitimação do voto feminino pode abrir espaço para outras propostas de restrição ao eleitorado, como voto censitário, condicionamento do direito ao serviço militar e exclusão de beneficiários de políticas sociais dos processos eleitorais.
Os pesquisadores também apontam semelhanças entre os conteúdos brasileiros e movimentos observados nos Estados Unidos, onde grupos da direita cristã passaram a defender modelos como o chamado “voto por domicílio”, segundo o qual marido e esposa formariam uma única unidade política, dispensando votos separados. O estudo ressalta, entretanto, que essas propostas permanecem minoritárias, embora tenham conquistado maior visibilidade nos últimos anos.
Ao final, o relatório afirma que o ataque ao sufrágio feminino deve ser compreendido como parte de um processo mais amplo de erosão democrática. Para os autores, a oposição aos direitos das mulheres não aparece como efeito secundário de projetos autoritários, mas como um de seus principais vetores. A pesquisa recomenda aprofundar futuras investigações sobre outra dimensão ainda pouco explorada: os ataques à participação de mulheres como candidatas e ocupantes de cargos eletivos, tema que apenas começa a aparecer nas comunidades monitoradas.