Uma pesquisa inédita realizada pelo Departamento Intersindical de Estatística e Estudos Socioeconômicos (Dieese) traça um amplo retrato do comércio ambulante na cidade de São Paulo. O levantamento identificou 12.337 bancas de vendas e 12.671 trabalhadores nas principais áreas de concentração da atividade na capital paulista, revelando um setor marcado pela informalidade, jornadas extensas e uma diversidade social que inclui grande número de imigrantes. Leia em TVT News.
O estudo, intitulado Mapeamento das Trabalhadoras e dos Trabalhadores Ambulantes da Cidade de São Paulo, foi realizado com apoio de entidades representativas da categoria. As entrevistas ocorreram entre julho e agosto de 2025 em 70 das 244 áreas da cidade que concentram comércio de rua.
Entre os locais pesquisados estão estações de metrô e trem, terminais de ônibus, centralidades comerciais, hospitais e Unidades de Pronto Atendimento, unidades do Poupatempo, parques, universidades e regiões que se tornaram polos de compras informais. O levantamento focou apenas nos trabalhadores que atuam em pontos fixos.
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Os dados indicam que o comércio ambulante não é apenas uma atividade temporária ou de sobrevivência. Para grande parte dos trabalhadores, trata-se de uma ocupação consolidada ao longo do tempo. Segundo o estudo, 43% atuam na atividade há 11 anos ou mais.
Perfil social dos ambulantes
A pesquisa mostra que os homens predominam no setor: representam 63% dos ambulantes entrevistados. A idade média é de 40 anos e quase metade da categoria — 45% — é formada por pessoas pretas e pardas.
Outro dado relevante é a presença significativa de imigrantes. Cerca de 31% dos trabalhadores vêm de mais de 30 países, abrangendo quase todos os continentes. Os sul-americanos representam aproximadamente um quarto do total de ambulantes da cidade, e os bolivianos constituem o principal grupo entre os estrangeiros, correspondendo a cerca de um quinto dos imigrantes.
Além disso, mais de três quartos dos trabalhadores (76%) são proprietários das bancas em que atuam. A principal mercadoria vendida no comércio ambulante é o vestuário, responsável por 55% das vendas.
Falta de autorização e insegurança
Um dos principais desafios enfrentados pela categoria é a ausência de autorização para trabalhar nas vias públicas. O estudo revela que apenas uma parcela minoritária possui permissão do poder público.
De acordo com o levantamento, 56% dos ambulantes atuam sem licença para exercer a atividade. Entre esses trabalhadores, 80% afirmam ter interesse em regularizar a situação e obter autorização oficial.
A falta de regularização expõe os trabalhadores a riscos constantes. Quase metade dos entrevistados relatou conviver há mais de seis anos com a possibilidade de sofrer punições ou apreensão de mercadorias.
A violência também aparece como problema recorrente. Cerca de 24% dos ambulantes disseram ter sofrido ao menos um tipo de agressão ou abuso no exercício do trabalho. Entre as ocorrências relatadas estão confisco de mercadorias pelo chamado “rapa” ou pela polícia, extorsão e violência física ou verbal.
O confisco de produtos foi o episódio mais comum, vivenciado por 38% dos trabalhadores. Já extorsões ou pedidos de propina e casos de violência policial foram relatados por 18% dos entrevistados.
Jornadas extensas e renda inferior
O levantamento mostra que os ambulantes enfrentam jornadas mais longas do que a média dos trabalhadores da capital paulista.
Enquanto cerca de 74% dos ocupados da cidade trabalham até 44 horas semanais — limite estabelecido pela legislação trabalhista — entre os ambulantes esse percentual é menor, de 56%. Por outro lado, 44% trabalham mais do que esse limite. Entre esses, quase 30% chegam a cumprir jornadas superiores a 51 horas semanais.
Mesmo com carga de trabalho elevada, a renda média da categoria é significativamente menor. Os ambulantes ganham, em média, R$ 3 mil por mês. O valor corresponde a pouco mais da metade da renda média dos trabalhadores ocupados na capital paulista, estimada em R$ 5.323,04.
Baixa proteção social
A informalidade também se reflete no acesso à proteção social. Entre os ambulantes que possuem licença para trabalhar, apenas 24% contribuem para a Previdência Social. Já entre os que não têm autorização, o percentual cai para 18%.
A formalização como microempreendedor também é limitada. Segundo a pesquisa, 52% dos trabalhadores afirmaram não possuir registro como Microempreendedor Individual (MEI).
Discriminação e reivindicações
O estudo aponta ainda que o preconceito faz parte da realidade do comércio ambulante. Cerca de 31% dos trabalhadores disseram já ter sofrido algum tipo de discriminação.
Entre os que relataram episódios discriminatórios, 81% atribuem o problema ao fato de serem ambulantes. Casos de racismo foram citados por 14% dos trabalhadores negros ou pardos, enquanto 13% das mulheres relataram ter sofrido misoginia. Entre os imigrantes, 25% afirmaram ter sido vítimas de xenofobia.
Diante desse cenário, a principal reivindicação da categoria ao poder público é a regularização dos pontos de venda. Essa demanda foi mencionada por 66% dos entrevistados.
Outras reivindicações incluem o fim das apreensões de mercadorias, a flexibilização das regras para funcionamento das bancas, melhores condições de infraestrutura — como acesso a água, energia e internet — e a disponibilização de banheiros públicos.
Apesar das dificuldades, a maioria dos trabalhadores afirma permanecer na atividade por escolha. Segundo o levantamento, 73% disseram que não gostariam de mudar de profissão.
Para viabilizar o mapeamento, os movimentos de ambulantes buscaram financiamento por meio de emendas parlamentares de vereadores e de deputados estaduais e federais comprometidos com a pauta do trabalho. O Dieese também contribuiu com recursos obtidos por emenda parlamentar federal para custear a pesquisa.

