Aliado de Bolsonaro integra empresa que diz ter direitos a mineração de urânio no Brasil

Ex-secretário de Assuntos Estratégicos no governo Jair Bolsonaro é do conselho de empresa que declarou a investidores ter 39 direitos minerários associados a urânio em seis estados
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Ex-secretário de Assuntos Estratégicos no governo Jair Bolsonaro é do conselho de empresa que declarou a investidores ter 39 direitos minerários associados a urânio em seis estados. Foto: Atlas Lithium/Reprodução

O almirante Flávio Augusto Viana Rocha, que atuou como secretário de Assuntos Estratégicos durante o governo Jair Bolsonaro (PL), passou a integrar o Conselho de Administração da Atlas Lithium, mineradora com sede na Flórida, nos Estados Unidos. A empresa anunciou sua nomeação em abril e estabeleceu remuneração mensal de R$ 50 mil pelo cargo. Leia em TVT News.

Segundo reportagem do observatório De Olho nos Ruralistas, a companhia informou a investidores norte-americanos, em agosto, possuir 39 direitos minerários associados a urânio, distribuídos por seis estados brasileiros e abrangendo 143,7 mil hectares. A Agência Nacional de Mineração (ANM), porém, não reconhece direitos de pesquisa de urânio nesses registros. De acordo com a reportagem, os processos aparecem formalmente associados a outros minerais, como cobre, grafite, fosfato e terras raras.

A Atlas Lithium tem como principal projeto a exploração de lítio no Vale do Jequitinhonha, em Minas Gerais. Por meio de empresas controladas, também atua em áreas de interesse para minerais considerados estratégicos para a indústria tecnológica, a transição energética e a produção de equipamentos militares.

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Almirante atuou no governo Bolsonaro

Flávio Rocha assumiu a Secretaria de Assuntos Estratégicos da Presidência da República em março de 2021. Durante o governo Bolsonaro, participou de iniciativas relacionadas à mineração, à energia e ao Plano Nacional de Fertilizantes, além de atuar em contatos diplomáticos com outros países.

Conhecido como “sombra” do ex-presidente pela presença frequente em reuniões reservadas, o almirante também participou da reunião de Jair Bolsonaro com embaixadores estrangeiros em 2022, quando o então presidente fez ataques ao sistema eleitoral brasileiro. Segundo informações citadas pelo observatório, Rocha ajudou a elaborar o discurso apresentado naquele encontro.

Em 2023, durante o governo Lula, o militar foi indicado pela Marinha para assumir a Secretaria Naval de Segurança Nuclear e Qualidade, mas sua indicação foi barrada após pressão do Ministério das Relações Exteriores.

Empresa tem projeto de lítio no Vale do Jequitinhonha

A Atlas Lithium desenvolve o Projeto Neves, voltado à exploração de lítio em Araçuaí, no Vale do Jequitinhonha. O projeto foi apresentado durante um fórum sobre minerais críticos promovido pelos Estados Unidos em São Paulo, em março.

O observatório relata que o governo norte-americano anunciou, em parceria com o Japão, um acordo de investimentos que prevê recursos para atividades da empresa em Minas Gerais. A japonesa Mitsui está entre os principais acionistas da Atlas Lithium.

O interesse internacional por minerais críticos está relacionado à disputa por cadeias de fornecimento de matérias-primas utilizadas em baterias, tecnologias avançadas e equipamentos de defesa. Atualmente, a China ocupa posição de destaque nesse mercado.

Plano de Flávio Bolsonaro prevê ampliar participação privada na mineração

Durante discurso na Conferência de Ação Política Conservadora (CPAC), no Texas, em abril, Flávio Bolsonaro afirmou que o Brasil poderia se tornar um fornecedor de minerais críticos para os Estados Unidos.

No plano de governo apresentado ao Tribunal Superior Eleitoral (TSE), o candidato do PL defende parcerias internacionais para a exploração desses recursos e propõe que o Estado atue como regulador, em vez de empresário. O documento também prevê acelerar o licenciamento ambiental e os processos relacionados aos direitos minerários.

Segundo a reportagem, a proposta abre caminho para ampliar a participação de empresas privadas na exploração de urânio, atividade submetida ao monopólio estatal no Brasil.

Conselheiro da Atlas tem ligação com o bolsonarismo

Outro integrante do conselho da Atlas Lithium é Roger Noriega, ex-embaixador dos Estados Unidos na Organização dos Estados Americanos (OEA) durante o governo de George W. Bush. Ele preside o comitê de remuneração da companhia, responsável por recomendar o pagamento mensal de R$ 50 mil a Flávio Rocha.

Noriega tem histórico de aproximação com integrantes do bolsonarismo. Em artigo publicado em 2020, defendeu uma aliança regional entre Brasil e Estados Unidos e apontou Jair Bolsonaro como parceiro para a agenda norte-americana na América Latina.

O observatório também relata que Noriega se reuniu com Eduardo Bolsonaro e Marco Rubio em Washington, em 2018. Rubio, que atualmente ocupa o cargo de secretário de Estado dos Estados Unidos no governo Donald Trump, é apontado pela reportagem como um dos aliados de Eduardo Bolsonaro na articulação de sanções contra o Brasil.

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