A captura do presidente Nicolás Maduro por forças dos Estados Unidos, em uma operação ilegal realizada na madrugada de sábado para domingo, abriu uma nova e grave escalada na crise internacional envolvendo a Venezuela. Para o jornalista e cientista político Ricardo Vaz, editor do portal independente Venezuela Analysis, a ação norte-americana não apenas violou frontalmente o direito internacional, como também produziu um efeito oposto ao pretendido por Washington: fortaleceu a coesão interna do país e evidenciou o isolamento da extrema direita venezuelana.
Falando ao Jornal TVT News – Primeira Edição, direto de Caracas, Ricardo Vaz relatou que a operação foi percebida inicialmente com perplexidade pela população. “Foi uma operação relâmpago, às duas da manhã. Ouvimos explosões gigantescas e, pouco a pouco, fomos entendendo que algo muito grave estava acontecendo”, afirmou. Segundo ele, o anúncio do próprio Donald Trump, confirmando o sequestro de Maduro e da primeira-dama Cilia Flores, selou o caráter espetacular e político da ação.
Para Vaz, o gesto de Trump de transformar a chegada de Maduro aos Estados Unidos em um “espetáculo” midiático lembra momentos sombrios da história recente. O presidente venezuelano foi transferido para Nova York e apresentado como acusado de “narcoterrorismo”, uma acusação rejeitada por Caracas e sem respaldo em relatórios oficiais. “Não há nenhuma prova do envolvimento de Maduro com tráfico de drogas. Isso não é opinião minha, é o que dizem as próprias agências dos Estados Unidos”, destacou o jornalista.
Um dos pontos centrais da análise é o fracasso da direita venezuelana em capitalizar politicamente a ofensiva externa. Segundo Vaz, setores da extrema direita passaram anos defendendo uma intervenção direta dos Estados Unidos, mas agora se mostram incapazes de mobilizar apoio popular. “Disseram que o povo sairia às ruas para festejar a operação. Isso não aconteceu. Se alguém comemorou, foi em Miami”, ironizou. Para ele, a própria administração Trump descartou figuras como María Corina Machado, reconhecendo que não têm apoio nem legitimidade interna.
Em contraste, o chavismo demonstrou mais uma vez sua capacidade de organização social. Mesmo após bombardeios, apagões e a retirada forçada do presidente, não houve saques, caos urbano ou colapso institucional. “O que vimos foi uma demonstração impressionante de estabilidade e educação política”, afirmou Vaz. No domingo, milhares de pessoas marcharam em Caracas para repudiar o ataque dos Estados Unidos e exigir o retorno de Maduro.
Essa resposta, segundo o analista, não é circunstancial. Ela resulta de mais de duas décadas de construção de um movimento político de base, com forte capilaridade territorial. “Não é apenas um movimento eleitoral ou de cargos. São organizações comunitárias que sabem como agir em momentos de crise, manter a calma, organizar informação, água, energia”, explicou. Para ele, isso ajuda a entender por que até setores críticos ao governo rejeitam a mudança política pela via da violência e da intervenção estrangeira.
Do ponto de vista institucional, Vaz ressaltou a rápida atuação do Tribunal Supremo de Justiça, que interpretou a Constituição para enquadrar o sequestro de Maduro como uma ausência temporária, permitindo que a vice-presidenta Delcy Rodríguez assumisse o comando do país. “A Constituição de 1999 não previa que os Estados Unidos raptassem um presidente em exercício, mas há mecanismos para garantir continuidade”, observou.
Já no plano internacional, o jornalista avaliou como importante, ainda que insuficiente, a carta conjunta assinada por países como Brasil, Colômbia, México, Chile, Espanha e Uruguai, condenando os ataques norte-americanos. “Faltou citar explicitamente o sequestro de Maduro e exigir sua libertação”, ponderou. Ainda assim, ele vê a reunião de emergência do Conselho de Segurança da ONU como um momento-chave para expor os Estados Unidos. “Maduro tem imunidade como chefe de Estado. Raptá-lo é uma violação direta da Carta das Nações Unidas.”
Para Ricardo Vaz, a motivação central da ofensiva norte-americana é clara. “Trump já deixou todos os pretextos de lado. Isso não tem a ver com drogas ou migração. É petróleo”, afirmou. Nesse contexto, a carta de Delcy Rodríguez propondo uma “agenda de cooperação” aos Estados Unidos aparece, em sua avaliação, mais como um gesto político do que uma expectativa realista. “Um país que acaba de bombardear a Venezuela e raptar seu presidente não parece interessado em cooperação.”
Ainda assim, o saldo interno da crise aponta para um reforço da soberania venezuelana. “O chavismo não é um homem, não é Maduro. É um povo inteiro”, concluiu Ricardo Vaz, ao destacar que a resposta popular e institucional à agressão externa se tornou, paradoxalmente, a maior demonstração de força política da Venezuela nos últimos anos.
