Enquanto intensifica ações militares unilaterais ilegais no exterior e ameaça governos democraticamente eleitos na América Latina, o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, enfrenta crescente rejeição dentro de seu próprio país e aprofunda uma escalada autoritária contra opositores políticos internos. Ele chegou a ameaçar heróis de guerra de “comportamento sedicioso punível com a morte” por questionar ações ilegítimas do extremista que ocupa a Casa Branca. Entenda na TVT News.
O caso mais recente envolve justamente Kelly, senador democrata, veterano condecorado da Marinha, ex-astronauta da NASA e integrante de comissões estratégicas do Senado, que passou a ser alvo de uma investigação militar formal após criticar publicamente ordens consideradas ilegais do governo.
O Pentágono confirmou que a revisão preliminar contra Kelly foi convertida em uma Command Investigation, procedimento raro e grave no âmbito do direito militar.
A medida autoriza a coleta de provas, depoimentos sob juramento e recomendações oficiais, mesmo sem a apresentação de acusações formais. A decisão marca uma ruptura inédita: trata-se da submissão de um senador em exercício a um mecanismo típico da hierarquia castrense por declarações protegidas pela Constituição.
Vídeo tratado como “sedição”
Kelly tornou-se alvo de Trump após participar, em 18 de novembro, de um vídeo ao lado de outros cinco parlamentares democratas, todos com passagem pelas Forças Armadas ou pela comunidade de inteligência. No pronunciamento, o grupo lembrou militares e agentes públicos de um princípio básico do ordenamento jurídico dos EUA: o juramento de lealdade é feito à Constituição, não ao presidente, e ordens ilegais devem ser recusadas.
A mensagem não citou Trump nominalmente, não convocou insubordinação nem questionou a autoridade civil legítima. Ainda assim, o presidente reagiu com fúria. Em publicações nas redes sociais, classificou o gesto como “comportamento sedicioso” e afirmou que os parlamentares deveriam ser punidos com a morte. As declarações desencadearam uma onda de ameaças contra os congressistas, incluindo ameaças de bomba e de execução.
“Queremos falar diretamente com membros das Forças Armadas e da Inteligência. O povo norte-americano precisa se levantar em defesa das leis e da Constituição. Não abandonem o barco”, apelam congressistas contra ordens ilegais de Trump
Ameaça de corte marcial
Poucos dias depois, o Departamento de Defesa anunciou que analisava “alegações graves de má conduta” contra Kelly, amparando-se em dispositivos que permitem, em tese, a reconvocação de oficiais da reserva para processos disciplinares. A possibilidade de submeter um senador aposentado há 14 anos da Marinha a uma corte marcial é considerada, por juristas e especialistas em relações civis-militares, um precedente extremo e perigoso.
“O uso do aparato militar para punir um opositor político ultrapassa uma linha histórica”, afirmou Paul Rieckhoff, fundador da Independent Veterans of America. “Se isso for adiante, qualquer veterano poderá ser perseguido indefinidamente por críticas ao presidente.”
Kelly declarou que sequer foi formalmente notificado da investigação e soube do procedimento pelas redes sociais. “É assim que eles operam: de forma amadora e intimidatória”, afirmou à CNN. “Passei 25 anos na Marinha. Não estou em comando algum. Isso é perseguição política.”
Trump e as ameaças de morte
Em entrevista coletiva no Capitólio, Kelly responsabilizou diretamente Trump pelo aumento das ameaças contra ele e sua esposa, a ex-deputada Gabrielle Giffords, vítima de um atentado a tiros em 2011. “Violência política não é algo abstrato para nós. Gabby recebe ameaças de morte, especialmente depois do que Trump disse”, afirmou.
“O objetivo é claro: intimidar o Congresso para que não fiscalize este governo. Não vai funcionar”, completou. “Dei muito a este país para ser silenciado por valentões que se preocupam mais com poder do que com a Constituição.”
Operações ilegais e ordens contestadas
O vídeo que motivou a ofensiva contra Kelly ocorreu em meio a denúncias de ilegalidades na chamada Operação Lança do Sul, conduzida pelo Exército dos EUA no sul do Caribe e no leste do Pacífico. Segundo reportagens do Washington Post, ataques a embarcações supostamente ligadas ao narcotráfico resultaram na morte de dezenas de pessoas, inclusive sobreviventes de ataques iniciais, sem devido processo legal, declaração de guerra ou autorização do Congresso.
Democratas e especialistas alertam que tais ordens podem configurar crimes de guerra, colocando militares em risco jurídico direto. Foi nesse contexto que Kelly e outros parlamentares reiteraram a obrigação legal de recusar comandos ilegais, um princípio consagrado no direito internacional desde os julgamentos de Nuremberg.
Uso do Estado como instrumento de vingança
O caso Kelly se soma a outras tentativas do governo Trump de instrumentalizar instituições para fins de retaliação política, incluindo processos fracassados contra o ex-diretor do FBI James Comey e contra a procuradora-geral de Nova York, Letitia James. Embora muitas dessas iniciativas tenham sido barradas pelo Judiciário, analistas apontam que “o processo em si já é a punição”, dada a pressão financeira, psicológica e política imposta aos alvos.
O secretário de Defesa, Pete Hegseth, também entrou no centro das críticas ao adotar linguagem agressiva contra os parlamentares e promover expurgos de oficiais jurídicos que questionavam a legalidade de ordens presidenciais. Kelly ironizou o comportamento do chefe do Pentágono, dizendo que ele “corre pelo palco como uma criança de 12 anos brincando de militar”.
Rejeição cresce, crise se aprofunda
A escalada autoritária ocorre em um momento de fragilidade política do presidente. Pesquisas indicam queda acentuada de aprovação, agravada pela alta no custo de vida, adiamento de propostas na área da saúde e fissuras dentro do próprio movimento MAGA, evidenciadas pela renúncia de aliados históricos no Congresso.
Ainda assim, Trump parece dobrar a aposta, aprofundando conflitos internos enquanto projeta força no exterior, como nas intervenções na Venezuela e nas ameaças à Colômbia e ao México. Para críticos, o padrão é o mesmo: desprezo pelo direito internacional fora do país e corrosão deliberada das garantias constitucionais dentro dele.
“Os Estados Unidos são governados por leis, não por homens”, disse Kelly em nota recente. “Se permitirmos que um presidente ameace congressistas com morte e use o Exército para silenciar críticas, estaremos abrindo mão da própria república.”
