Após Donald Trump protagonizar uma série de polêmicas nesta Copa do Mundo – realizando todas as suas vontades com aval do presidente da Fifa, Gianni Infantino – chegou a hora de retribuir os favores. Segundo o presidente norte-americano, seu desejo é ver Infantino disputando o cargo de secretário-geral da Organização das Nações Unidas (ONU). A informação foi publicada pelo jornal New York Post, que ouviu uma fonte próxima ao governo dos Estados Unidos. Leia em TVT News.
Segundo a publicação, Trump considera que Infantino reúne qualidades para comandar a ONU por ser uma figura reconhecida internacionalmente e capaz de dialogar com diferentes governos. Até o momento, porém, não há confirmação de que o presidente da Fifa tenha interesse em disputar o cargo nem de que os dois tenham tratado oficialmente do assunto.
A movimentação ocorre em um contexto de fortalecimento da relação entre Trump e Infantino durante a Copa do Mundo de 2026, realizada nos Estados Unidos, México e Canadá. A convivência frequente entre os dois líderes, somada a decisões tomadas pela Fifa ao longo da competição, despertou questionamentos sobre a independência da entidade máxima do futebol e sobre a influência política exercida pela Casa Branca.
O mandato do atual secretário-geral da ONU, António Guterres, termina no fim deste ano. Entre os nomes apontados como favoritos para a sucessão estão a ex-presidente do Chile Michelle Bachelet e o diretor-geral da Agência Internacional de Energia Atômica (AIEA), o argentino Rafael Grossi. A eventual entrada de Infantino representaria uma mudança nesse cenário e romperia a expectativa diplomática de que o próximo ocupante do cargo seja um representante da América Latina ou do Caribe.
Relação entre Trump e Infantino ganhou força durante o Mundial

A proximidade entre Donald Trump e Gianni Infantino não passou despercebida durante a Copa do Mundo. O dirigente da Fifa participou de diversos eventos ao lado do presidente norte-americano e chegou a entregar a Trump o chamado Prêmio da Paz da Fifa, criado pela entidade no ano anterior.
Embora encontros entre chefes de Estado e dirigentes esportivos façam parte da agenda institucional de grandes eventos internacionais, a frequência das aparições públicas e a sintonia política entre ambos alimentaram críticas de analistas e dirigentes esportivos.
Para especialistas em relações internacionais e governança esportiva, a aproximação pode colocar em dúvida a autonomia da Fifa justamente em um momento em que decisões administrativas e disciplinares da entidade passaram a beneficiar interesses defendidos pelo governo dos Estados Unidos.
A hipótese de Trump apoiar Infantino para comandar a ONU também é interpretada como um gesto de retribuição política. Caso a candidatura avance, o dirigente suíço poderá contar com o respaldo do país que hoje exerce grande influência sobre a organização da principal competição da Fifa.
O cartão vermelho de Balogun
As discussões sobre a relação entre Trump e a Fifa se intensificaram após o próprio presidente norte-americano confirmar que pediu pessoalmente a Gianni Infantino a revisão da expulsão do atacante Folarin Balogun, da seleção dos Estados Unidos.
O jogador havia recebido cartão vermelho durante a partida contra a Bósnia, válida pelos 16 avos de final da Copa do Mundo. Pela regra da competição, Balogun cumpriria suspensão automática nas oitavas de final diante da Bélgica.
Depois da manifestação de Trump, entretanto, a Fifa decidiu rever o caso e suspendeu a punição, permitindo que o atleta atuasse normalmente.
A decisão provocou forte repercussão internacional. A UEFA classificou a revisão como “incompreensível e injustificável” e afirmou que a medida ultrapassava limites importantes para a credibilidade das competições esportivas.
A polêmica ganhou novos contornos quando o jornal The Athletic informou que integrantes do governo norte-americano teriam mobilizado advogados para elaborar um dossiê contra o árbitro brasileiro Raphael Claus, responsável pela expulsão de Balogun. Segundo a publicação, o material tentava relacionar o juiz a supostos esquemas de manipulação de resultados no futebol brasileiro.
A Fifa declarou não ter encontrado qualquer evidência que sustentasse essas acusações, enquanto a Confederação Brasileira de Futebol (CBF) saiu em defesa do árbitro, destacando sua trajetória profissional e sua reputação no futebol internacional.
Para observadores da política internacional, o episódio reforçou a percepção de que Trump procura utilizar sua posição como chefe de Estado para influenciar decisões que deveriam permanecer restritas às instâncias esportivas.
Seleção iraniana e árbitro barrado
As discussões sobre a relação entre Trump e Infantino não ficaram restritas ao caso Balogun. A realização da Copa do Mundo nos Estados Unidos foi marcada por outros episódios que levantaram dúvidas sobre a igualdade de tratamento entre as delegações e sobre o respeito às regras normalmente adotadas pela Fifa.
Um dos casos de maior repercussão envolveu a seleção do Irã. O governo iraniano denunciou que integrantes da comissão técnica e da delegação oficial tiveram pedidos de visto negados pelas autoridades norte-americanas. Além disso, os jogadores não puderam permanecer em território americano entre uma partida e outra da fase de grupos.
Segundo o embaixador do Irã no México, Abolfazl Pasandideh, a equipe precisou permanecer baseada em território mexicano e realizar deslocamentos de avião no próprio dia dos jogos disputados nos Estados Unidos. A situação contrariou a logística normalmente adotada em Copas do Mundo, na qual as seleções permanecem concentradas próximas aos locais das partidas.
O diplomata afirmou que o excesso de viagens, o desgaste físico e as dificuldades de coordenação poderiam prejudicar diretamente o desempenho esportivo da equipe iraniana. Para Teerã, a decisão também teve impacto político, já que parte da delegação sequer conseguiu autorização para entrar nos Estados Unidos.
Outro episódio ocorreu com o árbitro somali Omar Abdulkadir Artan. Escalado pela Fifa para atuar na Copa, ele foi impedido de ingressar no país sob alegações de possíveis vínculos com terrorismo. O juiz negou qualquer relação com organizações extremistas e afirmou ter sido vítima de preconceito.
Posteriormente, a BBC informou que a Fifa decidiu manter o pagamento integral do cachê do árbitro, mesmo sem que ele pudesse trabalhar na competição. A medida foi interpretada como uma tentativa da entidade de reconhecer que o impedimento ocorreu por decisão das autoridades migratórias norte-americanas, e não por questões esportivas.

