Trump move o mercado, mas a guerra segue

Declarações de Trump sobre negociações são desmentidas por Teerã, enquanto conflito se intensifica e mercado reage a sinais contraditórios
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Israel segue uma lógica própria, enquanto os Estados Unidos parecem agora buscar uma saída para um conflito. Foto: Reprodução

o 25º dia de guerra entre Irã e Israel, o cenário combina escalada militar, disputas narrativas e impactos econômicos globais. Em entrevista ao Jornal TVT News Primeira Edição, o coronel da reserva do Exército Brasileiro Coutinho, mestre em Ciência Política Internacional, avaliou que o conflito caminha sem sinais concretos de trégua, apesar das declarações do ex-presidente Donald Trump sobre supostas negociações. Saiba mais em TVT News.

Segundo o analista, as falas de Trump devem ser interpretadas com cautela e fazem parte de uma estratégia de comunicação que influencia diretamente os mercados. “Cada dia é uma surpresa. Em um momento ele fala em ultimato, depois afirma que atingiu objetivos e, em seguida, diz que há negociações em curso. Isso não se confirma do lado iraniano”, afirmou.

O governo iraniano, por sua vez, nega qualquer diálogo direto com os Estados Unidos. O presidente do Parlamento do país, Mohammad Bagher Ghalibaf, classificou as declarações como “fake news” voltadas à manipulação do mercado financeiro e do preço do petróleo. De fato, após a sinalização de possível trégua, o barril chegou a cair cerca de 11%, enquanto bolsas internacionais reagiram em alta.

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Apesar desse efeito imediato, Coutinho ressalta que a realidade no campo de batalha aponta na direção oposta. “Os ataques continuam intensos. Foram múltiplas ondas de mísseis iranianos contra Israel e mais de 50 alvos atingidos por Israel em território iraniano em uma única madrugada”, destacou. Para ele, isso evidencia a ausência de qualquer acordo em estágio avançado.

No plano diplomático, o coronel aponta a existência de movimentações indiretas, especialmente com a atuação do Paquistão como possível mediador. Autoridades paquistanesas confirmaram contatos com Teerã e a chegada de representantes norte-americanos ao país para discutir uma eventual saída para o conflito. Ainda assim, Coutinho pondera que não há indícios de negociações diretas entre Washington e Teerã.

“Historicamente, mesmo em momentos de maior aproximação, essas conversas ocorreram por meio de intermediários, como Omã. Depois dos ataques recentes, especialmente os chamados ataques de decapitação, o ambiente para diálogo direto se torna ainda mais improvável”, avaliou.

O especialista também chama atenção para a divergência de objetivos entre Estados Unidos e Israel. “Os interesses não são necessariamente os mesmos. Israel segue uma lógica própria, enquanto os Estados Unidos parecem agora buscar uma saída para um conflito que ajudaram a iniciar”, disse.

Coutinho classifica o atual confronto como uma espécie de “terceira guerra do Golfo”, marcada por uma diferença fundamental em relação às anteriores: a ausência de uma coalizão internacional coesa. “Não há alinhamento claro entre os aliados, nem mesmo entre os objetivos políticos. Isso compromete a estratégia como um todo”, afirmou.

No campo militar, o Irã adota uma estratégia de desgaste prolongado, apostando no aumento do custo político e econômico para os Estados Unidos. “Enquanto os EUA apostam no poder aéreo e em ataques de precisão, o Irã trabalha com a lógica da atrição, elevando o custo da guerra ao máximo”, explicou.

Esse cálculo inclui não apenas o impacto financeiro — como o alto custo de sistemas de defesa antiaérea, cujos mísseis podem ultrapassar US$ 1 milhão por unidade —, mas também o cenário político interno norte-americano, em um ano eleitoral. “O Irã busca prolongar o conflito para pressionar os EUA internamente e enfraquecer sua posição diante da opinião pública”, disse.

As perdas humanas também são significativas. Segundo estimativas mencionadas na entrevista, o Irã já contabiliza cerca de 2.500 mortos, enquanto Israel registra milhares de feridos. Ainda assim, Coutinho afirma que o regime iraniano enxerga o conflito como uma ameaça existencial, o que sustenta sua disposição para prolongar a guerra.

“A lógica é simples: diante de uma ameaça ao próprio regime, o Irã entende que não há muito a perder. Isso fortalece a disposição de continuar lutando, mesmo com altas baixas”, afirmou.

Além disso, ataques a lideranças e estruturas estratégicas — atribuídos a Israel — tendem a gerar efeito contrário ao esperado. “Em vez de enfraquecer o regime, esses ataques podem aumentar o apoio interno, consolidando a população em torno do governo”, analisou.

Para o coronel, o conflito atual ultrapassa a dimensão militar e deve ser compreendido como uma disputa estratégica mais ampla, que envolve influência regional, controle de recursos e impacto nos mercados globais. “É uma guerra real, mas também uma guerra de narrativas e de poder econômico”, concluiu.

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