Foi em um 4 de novembro como hoje que Túpac Amaru II liderou uma das maiores rebeliões anticoloniais indígenas da América. Era uma noite de 1780 quando Amaru, junto a aliados, capturaram um corregedor de justiça, o espanhol Antonio de Arriaga, após um jantar em Yanaoca, no Peru. Assim, estava dado o primeiro passo da insurreição, que embora não tenha sido bem sucedida, seus símbolos serviram – e ainda servem – de referência tanto para movimentos de libertação no Peru, como movimentos sociais e políticos em toda a América Latina. Leia em TVT News.
O lendário e imortal rapper nova iorquino 2Pac, o grupo guerrilheiro dos Tupamaros no Uruguai, do qual o próprio Mujica fez parte, o Movimento Revolucionário Túpac Amaru (MRTA) do Peru do XX, ou até mesmo movimentos de camponeses na América Latina – como é o caso do MST – o que todos têm em comum é o resgate da memória de Túpac Amaru II, a liderança indígena que desafiou a ordem colonial espanhola no século XVIII.
Túpac e aliados sofreram uma das repressões mais sanguinárias e violentas da história do país. Em The Tupac Amaru Rebellion, o historiador norte-americano Charles Walker descreve como durante o armistício da segunda fase da revolta – liderada pelo primo de Túpac – facções duras do bando espanhol, como Areche, Escobedo e Mata Linares forjaram provas e violaram o acordo de paz. Disso desencadeou uma onde de prisões e execuções macabras de líderes em junho de 1973.
Para Walker, houve uma evidente tentativa da coroa espanhola em praticar um “genocídio cultural” e apagar a língua quéchua e costumes incas, mas que o “silêncio oficial” falhou diante da força da memória coletiva da resistência andina. O fato de Túpac ter sido resgatado ao longo de todos os séculos que sucederam a revolta comprova como sua luta ecoa até os dias atuais, mesmo diante dos esforços de apagamento histórico.
Contexto histórico: o Peru colonial
Seja na Mesoamérica ou na América Andina, a chegada dos europeus não foi um encontro fácil. Doenças, guerras e a conquista dizimaram a população indígena local.
O modelo espanhol de vice-reinado, que significava a divisão do território, mas com certa autonomia, consideravam as terras como províncias do Império com mesmos direitos que havia na Espanha continental.
Já no século XIV, houve revoltas indígenas contra a administração espanhola do território, como foi a Manco Inca ou Taqui Ongo. Mas a dominação foi mantida por meio de acordos com lideranças e grupos locais.
Foi apenas no final do XVIII, que eclodiu a revolta da Túpac, conhecida por “Grande Rebelião”.
O que motivou a “Grande rebelião” liderada por Túpac
Na segunda metade do XVIII, iniciou-se uma série de reformas da casa real Bourbon, de origem francesa, que na época governava a Espanha. Conhecidas como “Reformas Borbônicas”, as medidas da coroa francesa visavam o rigor fiscal com o repartimento de mercadores – que forçava indígenas a comprar produtos inúteis a preços exorbitantes –, o aumentos de impostos e a mita, que era um sistema de trabalho compulsório imposto pelos espanhóis aos indígenas.
O intuito das reformas era a reorganização do territórios, das políticas econômicas e aumento do poder da administração espanhola. A chegada do visitador José de Areche ao Peru, que tinha como fim aumentar drasticamente a arrecadação da Coroa, levou a situação ao clímax, pois, as reformas só puderam ser impostas por meio do abuso dos corregedores, que eram os representantes jurídicos da coroa.
A insurreição
A insurreição teve seu ponto de partida em 4 novembro de 1780, quando José Gabriel Condorcanqui, conhecido como Túpac Amaru II, capturou o corregedor espanhol da província de Tinta, Antonio de Arriaga.
Seis dias depois, Arriaga foi executado em praça na praça principal de Tungasuca, evento que marcou o início formal da grande sublevação indígena.
Túpac Amaru, cacique de Surimana, Pampamarca e Tungasuca, exercia a atividade de arriero, isto é, tropeiro, condutor ou carreteiro que transporta mercadorias utilizando animais de carga. Ele possuia 350 mulas e declarava-se descendente do último Inca, o que lhe garantia autoridade moral e grande capacidade de mediador cultural entre os mundos espanhol e indígena.
Primeira fase do conflito
A primeira fase do conflito desenrolou-se na região de Cusco entre 1780 e 1781, sob o comando conjunto de Túpac Amaru e de sua esposa Micaela Bastidas, que supervisionava a logística, o abastecimento e a disciplina no acampamento rebelde, contando também com a liderança de figuras femininas como Tomasa Tito Condemayta, cacica de Acos.
O movimento buscou inicialmente articular uma coalizão multiétnica e multiclasse que unisse indígenas, mestiços e crioulos, decretando a libertação dos escravos negros e lutando contra os abusos do sistema colonial – como os corregedores, o repartimento compulsório de mercadorias, as alcabalas, aduanas e os trabalhos forçados nas mitas, minas e obrajes –, ao mesmo tempo que mantinha lealdade formal ao rei Carlos III e à Igreja Católica.
Batalha de Sangará e cidade de Cusco sitiada
As forças rebeldes alcançaram vitórias importantes, como na batalha de Sangarará, e avançaram a ponto de sitiar a cidade de Cusco, embora não tenham conseguido ocupá-la. Contudo, a “radicalização” popular e a libertação de escravizados assustaram a elite crioula*, que retirou seu apoio. Por outro lado, a excomunhão decretada pelo bispo de Cusco, Juan Manuel Moscoso y Peralta, enfraqueceu a autoridade dos líderes sobre os indígenas e gerou deserções.
Geografia dos Andes
Além disso, os combates ocorreram sob condições geográficas e climáticas duríssimas nos Andes, em altitudes superiores a 3.500 metros e sob frio intenso, provocando escassez de alimentos, epidemias e fome, ao tempo em que o conflito escalou para uma espiral de extrema brutalidade e desumanização mútua entre os bandos.
Walker descreve em sua obra o envio de um exército virreinal espanhol de 17.000 homens, que resultou na derrota rebelde na batalha de Tinta e na captura dos principais chefes da insurreição.

Líderes capturados e sentença de Túpac
Em 18 de maio de 1781, após sentença proferida pelo visitador José Antonio de Areche, Túpac Amaru foi obrigado a assistir à execução de sua esposa Micaela Bastidas, de seu filho Hipólito, de Tomasa Tito Condemayta e de outros aliados na praça de armas de Cusco.
Logo em seguida, o líder rebelde teve a língua cortada e foi amarrado a quatro cavalos para ser desmembrado; diante do fracasso em esquartejá-lo por esse meio, o verdugo procedeu à sua decapitação, sendo seu corpo queimado e reduzido a cinzas no cerro de Picchu.
Segunda fase do conflito
Com a morte de Túpac Amaru, a rebelião entrou em sua segunda fase (1782-1783), deslocando seu centro de gravidade para o Altiplano sob o comando de Diego Cristóbal, primo do líder falecido.
Divergências entre tupamaristas e kataristas
Nessa região, o movimento buscou articular-se com a revolta katarista encabeçada por Túpac Katari (Julián Apasa), sua esposa Bartolina Sisa e sua irmã Gregoria Apaza, contudo a aliança fracassou devido a divergências ideológicas e de liderança, visto que os tupamaristas mantinham um projeto unificado em torno da utopia inca aberta a crioulos, enquanto os kataristas constituíam um movimento camponês descentralizado sem conotação incaica.
Essa etapa foi marcada por um aprofundamento das atrocidades, massacres e pelo clima de terror generalizado em ambas as partes.
Embora o bispo Moscoso e a facção moderada espanhola tenham promovido um armistício com Diego Cristóbal, a linha dura colonial integrada por Areche, Escobedo e Mata Linares acabou por impor-se, organizando espionagem e manipulando provas para sabotar o acordo de paz.
Em consequência, os líderes da segunda fase foram julgados e executados no Cusco em 19 de julho de 1783. Após o término dos combates, as autoridades virreinais deflagraram uma severa campanha de erradicação cultural que proibia o uso da língua quéchua, das vestimentas nobres incas como o unco e a mascapaycha, dos retratos dos antigos reis, do instrumento musical pututo e dos títulos hereditários de cacique.
Apesar dessa tentativa de supressão ser considerada um genocídio cultural e uma fantasia fadada ao fracasso pela incapacidade colonial de apagar a identidade andina, o silêncio oficial imposto de início deu lugar à preservação da memória de Túpac Amaru como um símbolo permanente de libertação.
* A elite criola (ou criolla) era o grupo social formado pelos descendentes de de europeus (principalmente esponhóis) nascidos na América durante o período colonial.