Tem um remedinho? Cuidado: 5 de maio é dia do uso racional de medicamentos

Crescimento no uso de antidepressivos e ansiedade em alta reacendem debate sobre patologização da vida comum
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Dia 5 de maio é data para questionar se estamos mais doentes ou mais medicados. Foto: Foto: Joédson Alves/Agência Brasil

Você já deve ter ouvido dezenas de dicas de medicamentos para todo tipo de situação: para dormir melhor, para tirar a dor de cabeça ou para se sentir com mais disposição. Muito cuidado: o uso de medicamentos deve seguir orientação medica. A situação é tão grave que foi criado um dia só para isso: 5 de maio, Dia Nacional do Uso Racional de Medicamentos. Saiba mais sobre o 5 de maio com a TVT News.

Estamos mais doentes ou mais medicados?

O aumento no consumo de medicamentos voltados à saúde mental tem se tornado um dos fenômenos mais marcantes da vida contemporânea. No Brasil, o uso de antidepressivos cresceu 12,4% entre adultos de 29 a 58 anos, segundo levantamento da Funcional Health Tech.

Hoje, esses medicamentos já figuram como o segundo tipo mais utilizado, atrás apenas dos antibióticos. O crescimento acompanha um quadro mais amplo. De acordo com a Pesquisa Nacional de Saúde (PNS), do IBGE, 10,2% da população adulta brasileira já recebeu diagnóstico médico de depressão e, entre essas pessoas, quase metade relatou uso recente de antidepressivos. 

Nesse contexto, ansiedade, insônia e dificuldades de concentração passaram a figurar, com mais frequência, como condições a serem tratadas com fármacos, o que levanta uma questão central se estamos cuidando melhor da saúde mental ou transformando emoções em diagnósticos,

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Uso inadequado e incorreto de remédios pela população em geral é um dos principais fatores para a disseminação de microrganismos resistentes. Foto: Elza Fiúza/Agência Brasil

A Dra. Renata Caveari, coordenadora e professora de Psicologia na Afya Centro Universitário Itaperuna, avalia que há um movimento ambíguo em curso. “Por um lado, houve um avanço importante no reconhecimento do sofrimento psíquico e na redução do estigma. Por outro, estamos cada vez mais intolerantes ao desconforto emocional, o que pode levar à busca rápida por soluções medicamentosas”, afirma. 

Segundo ela, o desafio está em compreender os limites entre o que é esperado e o que exige intervenção. “É importante refletir sobre a intensidade, a duração e o impacto daquilo que sentimos. Em que momento esse sofrimento passa a nos impedir de realizar atividades do dia a dia?”

Dr. Thiago Apolinário, médico e professor na pós-graduação em Psiquiatria da Afya Ribeirão Preto, na mesma linha, reforça a importância de contextualizar o uso dos medicamentos. “A psicofarmacologia moderna transformou o prognóstico dos transtornos mentais graves. Em quadros como depressão maior ou psicoses, o medicamento não é opcional, ele é fundamental”, afirma.

Patologização do normal: tentar anestesiar sentimentos que são respostas normais à vida

O Dr. Thiago Apolinário faz um alerta: “O problema não está no remédio em si, mas quando ele passa a ser utilizado para anestesiar sofrimentos que são respostas normais à vida.”

Segundo o médico, fatores como pressão por desempenho, excesso de estímulos digitais, jornadas exaustivas e instabilidade econômica ajudam a explicar esse cenário. “Vivemos em uma sociedade que exige produtividade constante e performance em todas as esferas. Dessa forma, emoções como tristeza e cansaço acabam sendo vistas como falhas que precisam de correção rápida”, diz.

Para ele, isso contribui para um processo de “patologização do normal” e para o aumento de quadros como burnout e ansiedade crônica.

Nesse sentido, a medicalização pode funcionar como um atalho. “Quando alguém recorre apenas à medicação sem investigar as causas do sofrimento, corre o risco de mascarar questões mais profundas”, explica Renata. Por isso, problemas relacionados ao trabalho, à falta de vínculos afetivos ou a condições sociais adversas, segundo ela, não se resolvem apenas com comprimidos.

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Remédios podem causar dependência se o tratamento se restringir ao alívio de sintomas emocionais, alerta especialista. Foto: Arquivo/Agência Brasil

Dr. Thiago destaca que, em quadros graves, o medicamento cumpre um papel estratégico. “Na fase aguda, o paciente muitas vezes está tão tomado pelo sofrimento que não consegue elaborar suas questões. A medicação estabiliza os sintomas e cria condições para que ele possa se beneficiar de outras abordagens, como a psicoterapia”, explica.

No entanto, ele alerta para o risco de dependência quando o tratamento se restringe ao alívio dos sintomas. “Quando o paciente entende que o sofrimento é multifatorial, envolvendo aspectos biológicos, psicológicos e sociais, ganha mais autonomia no processo de cuidado.”

A banalização de diagnósticos também preocupa. Termos como “ansioso”, “deprimido” ou “hiperativo” têm sido usados com frequência no cotidiano, muitas vezes sem avaliação profissional adequada. Para Renata, isso pode impactar a autonomia do indivíduo, porque quando a pessoa se identifica exclusivamente com um diagnóstico, pode limitar sua capacidade de compreender a complexidade do que sente. 

Outro ponto de alerta é o comportamento cada vez mais frequente de automedicação. “Muitas pessoas chegam ao consultório já fazendo uso de medicamentos por conta própria, em uma tentativa de resolver rapidamente o que estão sentindo. Isso reflete uma sociedade imediatista”, observa a psicóloga. Ela acrescenta que esse impacto também tem sido observado em crianças e idosos, que enfrentam dificuldades semelhantes para lidar com frustrações e tristezas.

Uso de antidepressivos cresce no Brasil

+12,4%
aumento no uso entre adultos (29 a 58 anos)
2º medicamento mais utilizado
atrás apenas dos antibióticos
10,2% dos adultos já receberam diagnóstico de depressão
Quase metade dessas pessoas usa antidepressivos

Uso racional de medicamentos é essencial para segurança e eficácia do tratamento

A discussão sobre a medicalização da vida moderna não nega a importância dos medicamentos, mas propõe refletir sobre seu papel no cuidado em saúde mental, defendendo uma abordagem mais ampla que inclua psicoterapia, mudanças no estilo de vida e o fortalecimento de vínculos sociais.

Como destaca o psiquiatra, embora os fármacos possam atuar no ajuste de neurotransmissores, eles não são capazes, por si só, de construir relações ou atribuir sentido à vida. Em uma cultura que privilegia soluções rápidas, o principal desafio está em encontrar equilíbrio, reconhecendo quando a intervenção medicamentosa é necessária, sem reduzir a complexidade da experiência humana a diagnósticos e prescrições.

5 de maio é Dia Nacional do Uso Racional de Medicamentos

O Dia Nacional do Uso Racional de Medicamentos acontece todo ano em 5 de maio. Esta data foi criada para conscientizar a população sobre os riscos da automedicação e promover o consumo seguro e consciente de remédios.

Principais objetivos do Dia Nacional do Uso Racional de Medicamentos

  • Alerta sobre a automedicação: combater o uso indiscriminado de medicamentos, prática que coloca o Brasil entre os maiores consumidores de medicamentos do mundo.
  • Conscientização sanitária: informar sobre os perigos de intoxicação, interações medicamentosas negativas e o atraso no diagnóstico de doenças graves devido ao uso indevido de medicamentos.
  • Valorização profissional: destacar o papel do farmacêutico na orientação correta ao paciente.

O que é o uso racional de medicamentos?

Segundo a Organização Mundial da Saúde (OMS), o uso racional ocorre quando os pacientes recebem:

  1. Medicamentos adequados às suas necessidades clínicas;
  2. Doses que atendam às necessidades individuais;
  3. Por um período de tempo adequado;
  4. Ao menor custo para ele para sua comunidade

Dicas para o consumo responsável de remédios

  • Nunca se automedique: procure um profissional de saúde (médico ou farmacêutico) para qualquer sintoma.
  • Não siga conselhos de leigos: evite tomar medicamentos indicados por amigos ou familiares.
  • Atenção à receita: siga rigorosamente a dose, horário e duração do tratamento.
  • Armazenamento: guarde medicamentos em locais secos e longe do alcance de crianças.

A data acontece desde 1999, fruto de um movimento estudantil de farmácia, e conta com o apoio do Ministério da Saúde e da Anvisa.

Hoje é Dia Nacional do Uso Racional de Medicamentos

Confira abaixo dicas para evitar problemas após o uso de medicamentos.

5 de maio é o Dia Nacional do Uso Racional de Medicamentos, data criada para alertar a população sobre a necessidade de utilização correta desses produtos, conforme a orientação de profissionais de saúde. Nesta data, as autoridades sanitárias também chamam a atenção para os riscos da automedicação. A mobilização em torno do tema conta com o apoio da Anvisa.  

Confira abaixo informações e dicas para evitar problemas com o uso de medicamentos.   

Orientações gerais para usar remédios 

  • Evite tomar medicamentos sem orientação de um profissional de saúde (médico, dentista, farmacêutico, entre outros). 
  • Não tome medicamentos vencidos. 
  • Não utilize medicamentos indicados para tratar outras pessoas. 
  • Nunca compre medicamentos em feiras e camelôs. 
  • Só compre medicamentos em farmácias e drogarias.  
  • Exija sempre a nota fiscal da farmácia ou drogaria. 
  • Guarde com você a nota fiscal, a embalagem e a cartela ou frasco do medicamento que está sendo usado. Eles são seu comprovante se você precisar registrar alguma queixa em caso de irregularidades. 
  • Não compre medicamentos com embalagens amassadas, lacres rompidos, rótulos que soltam facilmente ou estejam apagados e borrados. 
  • Guarde os medicamentos seguindo as orientações do fabricante. 
  • Se o medicamento deixar de fazer efeito, procure imediatamente o médico. 

Evite a automedicação 

De acordo com informações da Biblioteca Virtual do Ministério da Saúde, a automedicação traz riscos à saúde, pois a ingestão de substâncias de forma inadequada pode causar reações como dependência, intoxicação e até a morte. As discussões em torno do tema ainda reforçam a importância do descarte adequado de medicamentos.  

A automedicação é a utilização de medicamentos por conta própria para tratar sinais e sintomas de algum dano ou doença, sem orientação médica ou farmacêutica. Não use medicamentos indicados por outras pessoas, como amigos, vizinhos e parentes, mesmo que elas digam que tiveram os mesmos sintomas ou sinais que você. 

Como armazenar remédios

Guarde os medicamentos seguindo as orientações do fabricante. Proteja-os da luz, da umidade, do calor e mantenha-os longe de produtos de limpeza e alimentos. Não deixe os medicamentos no banheiro, na cozinha ou no carro. Alguns medicamentos devem ser guardados em temperaturas específicas, como, por exemplo, os que precisam ser armazenados em geladeira. Fique atento à data de validade e não utilize produtos vencidos.  

Como identificar os medicamentos com registro na Anvisa

Outra orientação é ficar atento à comercialização de medicamentos falsificados, que são aqueles que não provêm do fabricante original ou que sofreram alterações ilegais antes do seu fornecimento ao paciente. Confira sempre se o produto tem registro na Anvisa. 

Muita atenção também às promoções e liquidações: preços muito baixos podem indicar que o medicamento tem origem duvidosa, como produtos falsificados, sem nenhuma garantia de qualidade, ou até mesmo que possa ser produto roubado. Exija sempre a nota fiscal da farmácia ou drogaria. 

Intoxicações 

A intoxicação por medicamentos ocorre principalmente pelo seu uso acidental, em especial com crianças. Por isso, é muito importante armazenar esses produtos em locais seguros. Há também outros casos de intoxicação, causados pelo uso do medicamento de forma incorreta ou abusiva, por erro de prescrição ou de administração, por automedicação, entre outros.  

Em caso de intoxicação, a primeira opção é ligar para o Serviço de Atendimento Móvel de Urgência – Samu (192) ou para o Disque-Intoxicação criado pela Anvisa (0800-722-6001). A ligação é gratuita e o usuário é atendido por uma das 36 unidades da Rede Nacional de Centros de Informação e Assistência Toxicológica (Renaciat). 

Resistência aos antibióticos

O Dia Nacional do Uso Racional de Medicamentos também é uma ótima oportunidade para divulgar e reforçar informações sobre a resistência microbiana aos antimicrobianos, que ocorre quando bactérias, vírus, fungos e parasitas mudam ao longo do tempo e não respondem mais aos medicamentos, tornando as infecções mais difíceis de tratar. Dessa forma, a resistência microbiana aos antimicrobianos também aumenta o risco de propagação e gravidade das doenças, com consequente aumento de mortes.  

Os serviços de saúde são um dos principais focos da Anvisa na promoção de medidas preventivas, de controle e de monitoramento de infecções relacionadas à assistência à saúde (Iras) e de resistência microbiana no país. Fazem parte das ações da Agência elaborar e divulgar documentos que informem e orientem os serviços e profissionais de saúde sobre a prevenção e o controle dessas infecções, bem como o gerenciamento do uso de antimicrobianos.   

Como o uso inadequado e incorreto dos antimicrobianos pela população em geral é um dos principais fatores para a disseminação de microrganismos resistentes, é importante reforçar a necessidade do uso racional desses medicamentos para o combate desse grave problema de saúde pública. Para prevenir e controlar a propagação da resistência aos antibióticos, as pessoas devem seguir as seguintes recomendações:   

  • Use apenas antibióticos quando prescritos por um profissional de saúde. 
  • Nunca exija antibióticos se o seu médico disser que você não precisa deles.  
  • Sempre siga as orientações do profissional de saúde ao usar antibióticos. 
  • Nunca compartilhe ou use sobras de antibióticos.  
  • Previna infecções lavando as mãos regularmente, evitando o contato próximo com pessoas doentes e mantendo as vacinas em dia.  
  • Prepare os alimentos de forma higiênica (mantenha-os limpos, separe os crus e cozidos, cozinhe-os bem, mantenha os alimentos em temperaturas seguras, use água e matérias-primas seguras).  

Conheça o VigiMed

Atividade voltada ao monitoramento de medicamentos já aprovados pela Anvisa. O objetivo é garantir que os benefícios dos produtos sejam maiores do que os riscos por eles causados. As seguintes questões também são importantes para a farmacovigilância: eventos adversos gerados por desvios de qualidade de medicamentos, inefetividade terapêutica, erros de medicação, uso abusivo de medicamentos, intoxicações e interações medicamentosas.  

O VigiMed é o sistema disponibilizado pela Anvisa para que cidadãos, profissionais de saúde, detentores de registro de medicamentos e patrocinadores de estudos relatem as suspeitas de eventos adversos aos medicamentos e às vacinas. Acesse o VigiMed  e saiba mais.

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