Fim da escala 6×1 exige mobilização nas ruas, diz Moisés Selerges

Presidente do Sindicato dos Metalúrgicos do ABC critica reação empresarial, rebate manchete da Folha e afirma que redução da jornada é pauta histórica da classe trabalhadora
"Países desenvolvidos têm jornadas menores e não deixaram de ser desenvolvidos por isso". Foto: Adonis Guerra/SMABC

A reação do setor empresarial contra o fim da escala 6×1 e a adoção do modelo 4×3 sem redução salarial ganhou novo capítulo nos últimos dias. Após reportagem da Folha de S.Paulo afirmar que o brasileiro trabalha menos que a média mundial, o vereador Rick Azevedo classificou a abordagem como “rasa e irresponsável”, acusando o jornal de ignorar informalidade, horas extras não pagas e longos deslocamentos. Leia em TVT News.

Para comentar a ofensiva patronal e o debate no Congresso, o Jornal TVT News Primeira Edição entrevistou Moisés Selerges, presidente do Sindicato dos Metalúrgicos do ABC. Em tom direto, Selerges afirmou que a resistência à redução da jornada revela a permanência de uma cultura elitista no país. “Um país que teve mais de 300 anos de escravidão não dá valor ao trabalho. Sempre há resistência da elite contra projetos que beneficiem os trabalhadores, seja jornada, remuneração ou condições de trabalho”, declarou.

Para o dirigente sindical, a manchete que compara horas trabalhadas entre países desconsidera a realidade concreta da classe trabalhadora brasileira. “Pega número cru e ignora informalidade, hora extra não paga, jornada estendida, três horas de transporte por dia. Isso não é debate sério”, criticou, ecoando a avaliação de Rick Azevedo.

Selerges também rebateu a narrativa de que a redução da jornada levaria empresas à falência. Ele lembrou que a última redução ocorreu na Constituição de 1988 e que, de lá para cá, houve avanços tecnológicos e ganhos de produtividade. “Os países desenvolvidos têm jornadas menores e não deixaram de ser desenvolvidos por isso. Na Alemanha, por exemplo, são 36 horas semanais e não teve empresa quebrando”, afirmou.

Segundo ele, a produtividade é responsabilidade do empresariado. “Patrão tem que investir em equipamento, financiar estudo, dar melhores condições. O trabalhador já acorda de madrugada, pega ônibus lotado, enfrenta patrão mal-educado e muitas vezes sai do emprego formal para dirigir aplicativo à noite”, disse, ressaltando ainda a sobrecarga das mulheres, que acumulam trabalho remunerado e cuidados domésticos.

A mobilização no Congresso, segundo Selerges, reflete a correlação de forças no Parlamento. “Você tem frente parlamentar do agronegócio, do boi, do empreendedorismo. Só não tem frente parlamentar do mundo do trabalho”, criticou. Para ele, a composição da Câmara explica a resistência às pautas trabalhistas. “É representante de empresário. E representante de empresário historicamente não corre em nome do trabalhador.”

O presidente do sindicato defende que a única saída é a pressão social organizada. “Ou nos mobilizamos e vamos às ruas ou não vai acontecer. Se depender só de deputado, não sai”, afirmou. Ele citou como exemplo a aprovação da isenção do Imposto de Renda para quem ganha até R$ 5 mil, que, segundo ele, só avançou após mobilizações nacionais.

Selerges também contestou a ideia de que empresários “geram emprego”. “Quem gera emprego é a economia aquecida, é a demanda. Se o trabalhador tem renda, consome, a economia gira e o empresário contrata. Se não vender, ele demite”, argumentou. Para o sindicalista, reduzir a jornada pode, inclusive, impulsionar o crescimento. “O trabalhador com mais tempo livre vai ao parque, ao cinema, consome cultura, movimenta a economia.”

Ele enfatizou que o movimento sindical precisa dialogar tanto com trabalhadores formais quanto com os chamados empreendedores por necessidade. “Muita gente monta um pequeno negócio na comunidade para sobreviver. Isso exige política pública, crédito, apoio dos bancos públicos. Mas as pautas históricas, como redução da jornada, não podem ser abandonadas.”

Ao abordar o cenário eleitoral, Selerges destacou a importância de ampliar a representação comprometida com o mundo do trabalho no Congresso. “Não adianta reclamar do preço do leite e votar no dono da vaca”, afirmou, defendendo maior consciência política da classe trabalhadora.

Para ele, o debate sobre o fim da escala 6×1 explicita uma disputa estrutural. “Existe luta de classes. Não é porque o presidente é um ex-sindicalista que está tudo resolvido. O Executivo negocia o tempo todo com um Congresso que não tem maioria comprometida com os trabalhadores”, avaliou.

Encerrando a entrevista, Selerges reiterou que a reivindicação não é contra o setor produtivo, mas por equilíbrio. “Não somos contra a indústria nem contra o empresário ganhar dinheiro. Mas queremos qualidade de vida. O trabalhador que faz 6×1 não consegue ser padrinho de casamento, não consegue ficar com os filhos. Queremos viver bem também. Somos nós que produzimos a riqueza do país.”

Para o dirigente, o debate sobre jornada precisa ser permanente. “Tem que ser feito de manhã, de tarde e de noite. Ficar calado não vai dar certo.”

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