A tramitação das propostas que tratam do fim da escala 6×1 no mundo do trabalho sofreu um novo entrave nesta quarta-feira (15), após um pedido de vista coletiva apresentado por parlamentares da oposição na Comissão de Constituição e Justiça (CCJ) da Câmara dos Deputados. A iniciativa, liderada pelos deputados Lucas Redecker (PSD-RS) e Bia Kicis (PL-DF), adiou a análise do parecer do relator, Paulo Azi (União Brasil-BA), que havia se manifestado favoravelmente à constitucionalidade das propostas. Saiba mais na TVT News.
O pedido de vista é um instrumento regimental que permite aos deputados mais tempo para examinar a matéria. Na prática, porém, tem sido utilizado com frequência como mecanismo de obstrução, especialmente em pautas de interesse social mais amplo. Com isso, a votação do relatório fica suspensa e deverá ser retomada em uma nova sessão, ainda sem data definida.
A análise na CCJ não trata do mérito da proposta do fim da escala 6×1, mas apenas de sua admissibilidade constitucional. Caso o parecer seja aprovado, o texto seguirá para uma comissão especial, onde será debatido em profundidade antes de eventual votação no plenário da Câmara.
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O relator Paulo Azi destacou, em seu parecer, a relevância histórica e social da regulação da jornada de trabalho, classificando-a como um dos pilares fundamentais do Direito do Trabalho e da justiça social. Ele também ressaltou que a redução da jornada pode contribuir para a preservação da saúde, segurança e bem-estar dos trabalhadores, ao promover um melhor equilíbrio entre vida profissional e pessoal.
Apesar disso, Azi ponderou que os impactos econômicos e setoriais da medida precisam ser analisados com maior profundidade na fase seguinte da tramitação. O deputado sugeriu, por exemplo, a construção de uma regra de transição que permita a adaptação gradual dos diferentes setores da economia, além da possibilidade de compensações fiscais para empresas, como a redução de tributos sobre a folha de pagamento.
As propostas em debate reúnem iniciativas que visam alterar a atual jornada semanal de trabalho no Brasil. O texto original, apresentado pelo deputado Reginaldo Lopes (PT-MG), prevê a redução da carga horária de 44 para 36 horas semanais ao longo de um período de dez anos. Já a proposta da deputada Erika Hilton (Psol-SP), apensada à matéria, propõe a adoção da escala 4×3 — com quatro dias de trabalho e três de descanso — mantendo os salários. Ambas, portanto, defendem o fim da escala 6×1.
Escala 6×1: CCJ não discute mérito
Mesmo antes da análise do mérito das propostas que acabam com a escala 6×1, o debate na CCJ já evidencia resistências por parte de setores conservadores e alinhados ao empresariado, que alegam possíveis impactos econômicos negativos. Estudos citados no relatório apontam aumento de custos para setores como comércio e indústria, argumento frequentemente utilizado para frear avanços em direitos trabalhistas.
Por outro lado, o governo federal tem defendido a redução da jornada como uma pauta estratégica. Integrantes do Executivo avaliam que o tema tem forte apelo social e pode melhorar significativamente a qualidade de vida dos trabalhadores, além de gerar impactos positivos indiretos, como aumento da produtividade e redução de doenças relacionadas ao trabalho.
O presidente Luiz Inácio Lula da Silva tem sinalizado apoio ao fim da escala 6×1 e, diante da lentidão na tramitação da PEC, decidiu enviar ao Congresso um projeto de lei alternativo propondo a adoção da escala 5×2 e a redução da jornada para 40 horas semanais, sem redução salarial. A iniciativa também funciona como forma de presisonar o mundo político para acelerar o debate no Legislativo.
A movimentação do governo ocorre em um contexto de crescente mobilização social em torno do tema. Pesquisas indicam que a maioria da população brasileira é favorável ao fim da escala 6×1, considerada exaustiva e incompatível com padrões contemporâneos de qualidade de vida.
Durante as discussões na CCJ, o ministro do Trabalho e Emprego, Luiz Marinho, reforçou a necessidade de avançar na redução da jornada, com fim da escala 6×1, destacando que a proposta defendida pelo governo — de 40 horas semanais — representa um caminho intermediário viável, capaz de conciliar interesses de trabalhadores e empregadores.
Ainda assim, o adiamento da votação evidencia as dificuldades políticas enfrentadas por propostas que buscam ampliar direitos trabalhistas no Congresso Nacional. A expectativa agora recai sobre a retomada da análise na CCJ e a eventual instalação da comissão especial, etapa considerada decisiva para o futuro da medida.
Enquanto isso, trabalhadores e movimentos sociais seguem pressionando por avanços concretos, em um debate que coloca no centro a disputa entre modelos de desenvolvimento: de um lado, a lógica da maximização do lucro; de outro, a defesa de condições dignas de trabalho e de vida.
