A greve estudantil nas universidades estaduais paulistas ganhou novo fôlego nesta semana e passou a envolver unidades da Universidade de São Paulo (USP), Universidade Estadual Paulista (Unesp) e Universidade Estadual de Campinas (Unicamp). O movimento, iniciado em abril na USP, denuncia a precarização das condições de permanência estudantil, problemas estruturais nos campi e falta de diálogo das reitorias com a comunidade acadêmica. Saiba mais na TVT News.
Na segunda-feira (11), cerca de 2.500 manifestantes participaram de ato no centro da capital paulista, reunindo estudantes, servidores e apoiadores. A mobilização saiu da Praça da República em direção à Faculdade de Medicina da USP, interditando vias como a Rua da Consolação. Antes da caminhada, houve tumulto envolvendo os vereadores Rubinho Nunes e Adrilles Jorge, ambos do União Brasil, além da intervenção da Polícia Militar com gás lacrimogêneo.
O episódio ocorreu um dia após a desocupação da Reitoria da USP pela PM. Estudantes ocupavam o prédio desde o dia 7 de maio, em protesto contra o encerramento unilateral das negociações. Segundo relatos do Diretório Central dos Estudantes, a retirada ocorreu de madrugada, com uso de bombas de efeito moral, cassetetes e detenções. A reitoria afirmou não ter sido avisada previamente da operação e repudiou episódios de violência.
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O que os estudantes reivindicam
No centro da paralisação está a política de permanência estudantil. Na USP, os estudantes pedem reajuste integral das bolsas do Programa de Apoio à Formação e Permanência Estudantil (Papfe), hoje em R$ 885 mensais, para R$ 1.804 — valor equivalente ao salário mínimo paulista. A reitoria propôs correção pelo IPC-Fipe, elevando o auxílio para R$ 912.
Além do aumento das bolsas, a pauta inclui:
- reforma e manutenção de moradias estudantis, como o Crusp;
- melhorias nos restaurantes universitários;
- contratação de docentes e técnicos;
- ampliação do transporte interno;
- políticas de combate à violência sexual e racial;
- apoio psicológico;
- cotas para pessoas trans e pessoas com deficiência;
- vestibular específico para estudantes indígenas.
Na Faculdade de Medicina da USP, alunos do internato também aderiram à greve. Eles denunciam precarização da formação médica, perda de cerca de 30% do quadro funcional do Hospital Universitário na última década e criticam programas pagos de estágio no Hospital das Clínicas.
Na Unicamp, ao menos 16 cursos aprovaram paralisação. Entre as reivindicações estão moradia estudantil em Limeira, transporte, restaurantes e oposição ao projeto de autarquização da área da saúde universitária. Já na Unesp, estudantes de cidades como Bauru, Franca e Assis aderiram ao movimento, denunciando falta de professores, atrasos em auxílios e dificuldades de permanência.
Por que bolsonaristas estão contra
A reação de setores da direita e do bolsonarismo ao movimento tem dois eixos principais: crítica ideológica às greves estudantis e defesa de endurecimento disciplinar nas universidades públicas.
Na semana passada, o governador Tarcísio de Freitas criticou a paralisação na USP e afirmou que “estudante tem que estudar”, classificando o movimento como de cunho político.
Já o deputado estadual Guto Zacarias protocolou na Assembleia Legislativa de São Paulo um projeto de lei que prevê punições a estudantes, professores e dirigentes universitários em casos de greve e ocupações. O texto propõe identificar participantes de atos, acionar imediatamente a Polícia Militar, suspender bolsas estudantis, cortar salários e compartilhar dados com forças policiais.
Especialistas em Direito apontam que a proposta pode afrontar garantias constitucionais como liberdade de manifestação, autonomia universitária e direito de greve. Também há críticas de que o projeto busca criminalizar a organização estudantil e sindical.
Além disso, nomes ligados ao campo bolsonarista e à direita liberal têm utilizado redes sociais para sustentar que universidades públicas seriam espaços de “doutrinação” ou “baderna”, retomando discursos semelhantes aos da agenda “escola sem partido”.
Disputa sobre o modelo de universidade
Para entidades estudantis e sindicais, o conflito vai além do reajuste das bolsas. O que está em debate é o papel social das universidades públicas e o acesso de jovens de baixa renda ao ensino superior.
Nos últimos anos, USP, Unesp e Unicamp ampliaram políticas de cotas e inclusão social, o que aumentou a demanda por moradia, alimentação e assistência financeira. Sem expansão proporcional da estrutura, estudantes relatam dificuldades para permanecer nos cursos.
Centrais sindicais como Central Única dos Trabalhadores, Força Sindical e outras divulgaram manifesto de apoio à greve, defendendo recomposição orçamentária e o fim da repressão policial.
Enquanto o Conselho de Reitores das Universidades Estaduais Paulistas (Cruesp) ainda não marcou nova rodada de negociações, assembleias estudantis indicam manutenção e possível ampliação da paralisação.
A greve que começou na USP agora se transformou em uma mobilização estadual e recolocou no centro do debate temas como financiamento da educação pública, democracia universitária e permanência estudantil.

