A Polícia Civil do Estado de São Paulo deflagrou, nesta segunda-feira (1), a chamada Operação WI-FI. A ação investiga um complexo esquema de fraudes em licitações, desvios de recursos públicos e lavagem de dinheiro em contratos firmados entre a Prefeitura de São Paulo e o Instituto Conhecer Brasil (ICB), ONG de propriedade de Karina Ferreira da Gama, sócia da produtora Go UP Entertainment Ltd, responsável pelo filme Dark Horse , sobre Jair Bolsonaro. Leia em TVT News.
A PF investiga o desvio de verbas, que deveriam garantir o direito à conectividade nas comunidades periféricas da capital paulista, mas foram redirecionadas de forma ilícita para subsidiar a produção de Dark Horse, um longa-metragem sobre a história do ex-presidente Jair Bolsonaro.
O alvo central dos mandados de busca e apreensão é a empresária Karina Ferreira da Gama, produtora responsável pela realização de Dark Horse. Sob a coordenação do Poder Judiciário, a operação cumpriu oito mandados emitidos pela 1.ª Vara Regional de Garantias (1.ª RAJ).
As buscas atingiram a sede do Instituto Conhecer Brasil, o escritório da produtora Go UP, dois endereços residenciais de Karina e dependências oficiais da Secretaria Municipal de Inovação e Tecnologia (SMIT) da Prefeitura de São Paulo.
Corrupção no caso Dark Horse: desvio de recursos públicos e lavagem de dinheiro

As investigações são o resultado inicial de um inquérito policial conduzido pela 2.ª Delegacia de Crimes Contra a Administração Pública, Combate à Corrupção e Lavagem de Dinheiro (DICCA), vinculada ao Departamento de Polícia de Proteção à Cidadania (DPPC).
O procedimento investigativo foi aberto por requisição expressa do Ministério Público do Estado de São Paulo. A atuação do órgão ministerial ocorreu após uma denúncia formal apresentada por Leonardo Carvalho Bastos, membro do conselho de ética do Partido dos Trabalhadores (PT) de Sapucaia do Sul (RS), encaminhada originalmente para o âmbito do Ministério Público Federal.
No centro do escândalo está o contrato administrativo 01/SMIT/2024, firmado entre o Instituto Conhecer Brasil, produtora de Dark Horse, e a Secretaria Municipal de Inovação e Tecnologia. O objetivo formal da contratação era a implantação, operação técnica e manutenção de 5 mil pontos públicos de acesso gratuito à internet por meio de Wi-Fi em bairros periféricos de São Paulo, integrando as metas do programa WiFi Livre SP.
Fraudes
No entanto, o andamento das apurações criminais envolvendo a produtora de Dark Horse identificou graves indícios de direcionamento e fraudes no edital de seleção.
De acordo com os relatórios policiais, o chamamento público promovido pela Prefeitura paulistana registrou apenas a participação do ICB.
A entidade beneficiada não possuía nenhum tipo de experiência técnica prévia ou capacidade operacional no setor de telecomunicações e redes de dados. Historicamente, as atividades da ONG limitavam-se à organização de feiras literárias, eventos corporativos de pequeno porte e celebrações religiosas.
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As falhas estruturais já haviam sido apontadas por órgãos de fiscalização externa. O Tribunal de Contas do Município (TCM) emitiu um parecer técnico em que elencava 20 irregularidades formais no edital de chamamento.
Contrato com instituto de Karina foi mantido mesmo após alerta da fiscalização
Na ocasião, o órgão recomendou a suspensão imediata do contrato, justificando a decisão na “razão da fragilidade dos critérios de seleção adotados” pela Prefeitura. Apesar da advertência, a Secretaria de Inovação e Tecnologia optou por manter o contrato com o instituto ligado a produção de Dark Horse.
Superfaturamento e pagamentos milionários por serviços não prestados
As análises do Ministério Público e do Poder Judiciário apontaram para uma “expressiva discrepância econômica” entre os valores de mercado e aqueles aceitos pela Prefeitura no contrato com o ICB. Para fins de comparação, em convênios anteriores celebrados pela pasta de inovação junto à Prodam (empresa pública de processamento de dados do município), o valor estipulado para a instalação física de cada ponto de Wi-Fi era de R$ 230, enquanto a taxa mensal de manutenção era fixada em R$ 306.
Preço superfaturado
Em contrapartida, o contrato com o ICB estabeleceu o preço fechado de R$ 1,8 mil mensais para cada ponto de acesso instalado na cidade. A denúncia aponta que a ONG não apresentou justificativas econômicas ou relatórios técnicos plausíveis que respaldassem a elevação de preços, configurando fortes indícios de sobrepreço e lesão intencional ao erário paulistano.
O valor estipulado na licitação original era de R$ 108 milhões. Contudo, a Prefeitura celebrou três termos aditivos contratuais em sequência, em um curto intervalo de tempo, sob a justificativa de prorrogar obrigações e acomodar os atrasos cronológicos nas entregas por parte da ONG ligada a Dark Horse. Esses termos elevaram o total dos repasses autorizados para R$ 157,1 milhões.
Mesmo com aumento dos preços, serviços prometidos não foram finalizados
A apuração sobre a execução do projeto constatou que o instituto instalou somente 3,2 mil dos 5 mil pontos previstos. Paralelamente, uma auditoria da Promotoria de Justiça de Defesa do Patrimônio Público e Social da Capital revelou que a Prefeitura antecipou o repasse de R$ 26 milhões sem a efetivação das contrapartidas de trabalho.
ONG recebeu R$11 milhões para operações na periferia, mas as estruturas de Wi Fi nunca foram instaladas
Apenas entre os meses de julho e agosto de 2024, o ICB recebeu R$ 11 milhões relativos a pontos supostamente em operação na periferia, embora a equipe de investigação trabalhe com a forte suspeita de que uma parcela substancial dessas estruturas nunca tenha sido instalada.
Robin Hood às avessas: produtora de Dark Horse desviou recursos que eram direcionados aos mais pobres
Até a assinatura do último aditivo, em dezembro de 2025, o município já havia transferido R$ 83 milhões à ONG, reservando outros R$ 53 milhões no orçamento de 2026, dos quais R$ 12,2 milhões já foram liquidados.
Financiamento oculto de Dark Horse: rota do dinheiro
A Polícia Civil suspeita que o superfaturamento do programa de internet tenha funcionado como fachada para alimentar os cofres da produtora Go UP durante a confecção de Dark Horse. No ofício encaminhado à 1.ª Vara Regional de Garantias, o delegado Antônio Carlos Munuera Silveira descreveu o mecanismo financeiro sob suspeita:
“Há consistentes suspeitas de confusão patrimonial [entre o instituto e a produtora] e de que os recursos públicos do programa ‘WiFi Livre SP’ tenham sido desviados para custear as atividades de produção do referido filme, utilizando as contas das empresas subcontratadas e das demais organizações sociais geridas pela investigada para a lavagem dos valores desviados do erário de São Paulo”.
Para mapear a rota do dinheiro público, a Polícia Civil solicitou autorização judicial para acessar os relatórios e análises de inteligência financeira produzidos pelo Conselho de Controle das Atividades Financeiras (Coaf) referentes às movimentações das contas de Karina da Gama, do ICB e da produtora Go UP.
Flávio Bolsonaro e Banco Master
A rede de financiamento do filme envolve ainda outras figuras de destaque do cenário político e financeiro. Reportagens publicadas pelo site Intercept Brasil revelaram conversas em que o senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ) aparece intermediando e negociando o suporte financeiro à obra com o banqueiro Daniel Vorcaro, proprietário do Banco Master.
Conforme as mensagens obtidas pela Polícia Federal em aparelhos celulares, o banqueiro comprometeu-se a repassar US$ 24 milhões (equivalentes a R$ 134 milhões na cotação do período) para custear o projeto, passando a responder por mais de 90% do orçamento total da produção cinematográfica.
Negociações com banqueiro permaneceram após prisão
As negociações prosseguiram mesmo após a prisão de Vorcaro em novembro de 2025, motivada por fraudes bilionárias.
Além do aporte privado oculto, o projeto audiovisual obteve recursos do orçamento público federal. O roteiro do longa-metragem sobre Jair Bolsonaro é assinado pelo deputado federal Mário Frias (PL-SP).
Mário Frias é investigado por desviar verbas parlamentares para a produção de Dark Horse

No ano de 2024, o parlamentar valeu-se de emendas parlamentares para destinar R$ 2 milhões para a ONG controlada por Karina Ferreira da Gama.
A decisão judicial que fundamentou a Operação Wi-Fi cita especificamente que a empresária recebeu R$ 1 milhão por meio de emendas indicadas pelo deputado, reforçando as suspeitas de desvio de finalidade.
Notas fiscais fictícias, empresas de fachada e subcontratado preso por feminicídio
A auditoria documental realizada pelos investigadores nas prestações de contas entregues pelo ICB identificou uma série de incongruências contábeis e fiscais graves.
Entre as principais irregularidades sob análise está o pagamento de R$ 8,5 milhões à empresa Make One Tecnologia Digital Ltda, uma das subcontratadas para executar fisicamente a instalação dos cabos de internet na periferia.
A Make One apresentou quatro faturas de cobrança sem a emissão das respectivas notas fiscais obrigatórias ou o devido recolhimento dos tributos estaduais e municipais. Os documentos possuíam numeração sequencial idêntica, traziam a mesma data de emissão e idêntico prazo de vencimento.
O fracionamento artificial de valores gerou indícios de montagem documental de gaveta para justificar a saída e a lavagem dos recursos desviados da Prefeitura. A sede da Make One também foi vasculhada pelos policiais nesta segunda-feira.
Outra subcontratada na mira do Ministério Público é a Complexys Soluções Integradas. As investigações apontam que a Complexys emitiu notas fiscais no valor total de R$ 2 milhões que acabaram canceladas formalmente no mesmo dia da emissão. No entanto, tais documentos cancelados foram incluídos na prestação de contas entregue pelo ICB à Secretaria de Inovação e Tecnologia para tentar comprovar despesas regulamentares.
Há também o registro de repasses de R$ 406 mil efetuados em 2024 à firma JR Feijão Ltda, sediada no estado do Ceará, além de práticas de autofaturamento pela própria ONG que superam R$ 1,4 milhão e duplicidade na cobrança de faturas estimadas em R$ 925 mil, de acordo com relatórios internos da própria pasta municipal.
Produtora de Dark Horse subcontratou empresa de preso por feminicídio
A investigação revela desdobramentos ainda mais graves no que tange aos direitos humanos e à segurança pública na periferia. O ICB subcontratou a empresa Favela Conectada Serviço e Tecnologia Ltda (que posteriormente alterou seu nome de registro para Urban Connect Serviços e Tecnologia Ltda) por um montante contratual de R$ 12 milhões, dos quais R$ 2 milhões foram pagos efetivamente até o fim de dezembro de 2025.
Ao inspecionar o contrato de subcontratação, a Polícia Civil constatou a ausência deliberada de dados civis básicos, uma vez que o representante legal da Favela Conectada aparecia identificado nos papéis unicamente pelo primeiro nome, “Alex”.
O trabalho de rastreamento policial comprovou que o indivíduo em questão trata-se de Alex Sandro Bispo dos Santos, que acabou preso pelas autoridades de segurança sob a acusação do crime de feminicídio. Logo após a detenção de Alex Sandro, a propriedade formal da empresa de tecnologia foi transferida para o nome de uma mulher que informou residir exatamente no mesmo endereço do antigo proprietário.
