O território tradicional do samba paulistano, a Barra Funda, na zona oeste de São Paulo, será palco de uma importante ação de afirmação cultural. No dia 4 de junho, feriado de Corpus Christi, as ruas do bairro recebem o Festival Cartografias de Bambas. Leia em TVT News.
O evento gratuito é organizado de forma conjunta pela organização da sociedade civil Iniciativa Negra Por Uma Nova Política Sobre Drogas e pelo Bar do Chagas. O encontro marca o aniversário de dois anos do Samba & Conversa Fiada, um coletivo musical que atua na preservação das manifestações populares na região. Leia em
A atividade acontece das 14h às 21h, na Rua João de Barros, com o objetivo de fortalecer os laços comunitários e a identidade da população negra e periférica por meio da música, da economia criativa e do resgate histórico.
A iniciativa dialoga diretamente com as pautas de cidadania e direitos humanos, combatendo o apagamento histórico de comunidades tradicionais em áreas que sofrem com a especulação imobiliária e a gentrificação.
O samba como arquivo vivo da resistência negra paulistana
A escolha da Barra Funda para a realização do festival reflete a centralidade do bairro na constituição do samba feito em São Paulo.
O projeto Cartografias de Bambas, desenvolvido pela Iniciativa Negra, foi desenhado para atuar no resgate da memória e no protagonismo das pessoas negras na formação cultural daquela localidade. A proposta busca garantir que o legado deixado pelas gerações passadas continue acessível para a classe trabalhadora.
Nathália Oliveira, cofundadora e diretora executiva da Iniciativa Negra Por Uma Nova Política Sobre Drogas, analisa o papel da produção artística marginalizada como uma ferramenta política e de sobrevivência. Para a dirigente, o direito à cultura está diretamente associado à justiça social:
“A arte produzida por pessoas negras não nasce apenas do talento, mas também da necessidade de existir com dignidade em um país que historicamente tentou apagar essas vozes. O samba é um elemento central da identidade cultural paulistana, e essa cultura é um arquivo vivo da nossa resistência”.
A realização do evento foi viabilizada por meio de recursos de uma emenda parlamentar destinada pela deputada estadual Leci Brandão (PCdoB), por intermédio da Secretaria da Cultura, Economia e Indústria Criativas do Estado de São Paulo.
Programação reúne gerações de sambistas e coletivos periféricos
O Samba & Conversa Fiada foi idealizado por instrumentistas locais com o propósito de impulsionar as rodas de rua tradicionais.
A dinâmica do grupo valoriza a musicalidade orgânica, o canto coletivo e a participação direta do público presente, sem palcos ou divisões excludentes.
Para a apresentação comemorativa na Rua João de Barros, o coletivo recebe um corpo expressivo de mulheres intérpretes, compositores veteranos e agremiações musicais de diversas regiões da cidade.
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Entre as presenças confirmadas está a cantora e compositora Simone Tobias, neta do fundador da tradicional Escola de Samba Camisa Verde e Branco, além do sambista Zé Maria. Ambos figuram como personalidades homenageadas pelo projeto Cartografias de Bambas devido à contribuição histórica para o patrimônio imaterial de São Paulo.

O evento terá também as apresentações das cantoras Roberta Oliveira (do projeto Samburbano) e Adriana Moreira, ao lado dos compositores Marco Santos e Queixinho.
Conheça o compositor Queixinho
A pluralidade do cenário musical das periferias paulistanas se faz presente com a participação dos coletivos Pagode na Lata, Samba do Aguidá, Samba do Bule, Samba Murundu, Samba da Paçoca, Samba Camará e do grupo Nosso Dialeto.
A sonoridade do festival é complementada pelas discotecagens e seleções musicais da Festa Puro Caldo e do DJ Piores.
Economia criativa
Além da vertente estritamente musical, o festival promove a Feira da Economia Criativa, que reunirá produtores independentes das áreas de gastronomia, moda autoral e artes visuais.
O estímulo à economia viva e local funciona como uma alternativa de geração de renda para trabalhadoras e trabalhadores autônomos, artesãos e microempreendedores negros e periféricos.
A integração entre a arte de rua e o comércio popular viabiliza canais de distribuição solidária, contestando as lógicas excludentes do mercado tradicional.
Ao ocupar as vias públicas com cultura e cooperação mútua, a Iniciativa Negra e o Bar do Chagas constroem um espaço de sociabilidade seguro, voltado ao bem-estar coletivo e à valorização das manifestações populares que sustentam a história da cidade de São Paulo.

