É entre o Boteco da Dona Tati –, tradicional bar de samba de São Paulo, na esquina da rua Camaragibe e Conselheiro Brotero –, e as ruas Lopes Chaves e Brigadeiro Galvão, celeiro do samba paulistano, que encontra-se a histórica e modesta rua que ocupa apenas uma quadra: a João de Barros, na Barra Funda. Recentemente, no entanto, um novo nome passou a homenagear o espaço, que agora se tornou, enfim, a Rua do Samba da Barra funda. Será nesta via que ocorrerá o Festival Cartografias de Bamba com Samburbano, no domingo, dia 26 de julho. Leia em TVT News.
O festival reúne manifestações culturais, memória, música, religiosidade de matriz africana, economia criativa e valorização do patrimônio negro da capital paulista. Prometendo, assim, mais do que uma programação artística, a iniciativa propõe um reencontro com a história de um território que ajudou a construir a identidade do samba paulistano.
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A atividade integra o calendário de ações culturais desenvolvidas pela Iniciativa Negra em parceria com o Samburbano e o Bar do Chagas, reunindo artistas, pesquisadores, moradores, integrantes de escolas de samba e coletivos comprometidos com a preservação da cultura popular.
Ao longo do dia, a programação inclui caminhada histórica, lavagem simbólica da rua conduzida por baianas e autoridades religiosas do território, rodas de samba, feira de economia criativa e homenagens a pessoas que contribuíram para fortalecer a cultura do samba e a história da Barra Funda.
A iniciativa também reforça a importância da ocupação dos espaços públicos pela cultura e pela população, valorizando uma região que, durante décadas, foi um dos principais pontos de encontro da população negra da cidade.
Rua do Samba reconhece um território de memória
O reconhecimento oficial da Rua João de Barros como Rua do Samba da Barra Funda representa mais do que uma mudança simbólica na paisagem urbana. A medida evidencia o papel desempenhado pelo bairro na formação do samba paulistano e busca preservar uma memória construída por gerações de sambistas, trabalhadores e moradores que transformaram o território em referência cultural.
Desde o início do século XX, a Barra Funda é um espaço de sociabilidade da população negra da cidade, tendo recebido trabalhadores vindos de diferentes regiões do país, muitos deles ligados às ferrovias, às indústrias e aos serviços urbanos. Foi nesse contexto que o samba passou a ocupar ruas, quintais, terreiros e espaços de convivência comunitária.
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Um dos principais símbolos dessa trajetória é o Largo da Banana, considerado um dos berços do samba paulistano. O local tornou-se ponto de encontro de carregadores, trabalhadores ferroviários e músicos que, após o expediente, transformavam o cotidiano em espaço de convivência por meio da música e da cultura popular.
Essas manifestações ajudaram a consolidar uma tradição que atravessou décadas e influenciou diretamente o desenvolvimento das escolas de samba paulistanas.
A ideia do festival é resgatar a história negra da Barra Funda

O Festival Cartografias de Bamba nasce justamente dessa proposta de preservar e compartilhar a memória construída pela população negra da Barra Funda.
Segundo a diretora-executiva da Iniciativa Negra, Nathália Oliveira, preservar esses espaços significa enfrentar processos históricos de invisibilização da população negra e reconhecer que a cidade também foi construída a partir das experiências dessas comunidades.
Ela destaca que iniciativas como o Cartografias de Bamba ajudam a fortalecer políticas públicas voltadas ao patrimônio cultural negro, ampliando o reconhecimento de lugares que, durante décadas, serviram como espaços de convivência, organização comunitária e produção cultural.
Preservar esses territórios, assim, não significa apenas registrar o passado, mas criar condições para que suas histórias continuem sendo contadas pelas pessoas que vivem e constroem esses espaços diariamente.
A compositora Symone Tobias e neta de Inocêncio Tobias, Cardeal do Samba Paulistano, fundador da coirmã Camisa Verde e Branco e figura fundamental na construção do Carnaval de São Paulo, disse estar emocionada ao ver a mudança de nome da rua João de Barros para Rua do Samba. Para ela, isso significa que, enfim, estamos reconhecendo um território que guarda a memória de “homens e mulheres que fizeram do samba um patrimônio cultural de São Paulo”.
“Minha avó, Cacilda da Costa, a Dona Sinhá, e meu avô, Inocêncio Tobias, ajudaram a construir essa história, assim como tantas famílias que transformaram a Barra Funda em um dos grandes berços do samba paulistano. Como neta, sinto a responsabilidade de preservar essa memória e acredito que esse reconhecimento fortalece nossa identidade. Que cada pessoa que passar por essa rua saiba que ali pulsa a história, a resistência e o legado do nosso povo”, disse Symone Tobias.
Carlos Alberto ‘Xará’, também membro da família Tobias e um dos fundadores da Batucada Nossa Tradição complementa, “nosso propósito é resgatar a memória daqueles e daquelas que fizeram e fazem parte da história do Carnaval e do samba paulistano… Dionísio Barbosa, Inocêncio Tobias, Dona Sinhá, Carlos Alberto Tobias, o Tuba. A Rua do Samba da Barra Funda é mais do que um endereço. É um símbolo vivo da resistência, da cultura negra e da memória do povo do samba.”
Conheça o Xará
Programação
Às 11h, haverá uma caminhada histórica realizada pelo Guia Negro, plataforma de afroturismo responsável por promover experiências turísticas em diferentes cidades brasileiras, com roteiro incluino as ruas do bairro operário considerado o berço do samba em São Paulo, para resgate das histórias negras e seus apagamentos.
No período da tarde, o público poderá acompanhar a lavagem e a defumação da Rua do Samba, com as baianas e autoridades religiosas do território, aproveitando ainda a feira de economia criativa – alimentos, bebidas e produtos diversos – montada por expositores locais, empreendedores de vários setores de artesanato.
A partir das 15h, haverá a roda de samba com a Velha Guarda Musical do Camisa Verde e Branco, seguida pela entrega de flâmulas em deferência a pessoas que apoiam a iniciativa e personalidades que fazem parte do arcabouço histórico e social do samba. Nathália Oliveira e Carlos Alberto ‘Xará’ são os mestres de cerimônia. Mandatos parlamentares parceiros também estarão presentes.
A partir das 17h15, o projeto Samburbano, comandado pela sambista Roberta Oliveira, promoverá a roda de samba aberta ao público e com participação especial de Symone Tobias e convidados. Será lançado Cartilha, primeiro single de Párcio Anselmo, músico, sambista e compositor, ativo na cena cultural do samba do território. Já à noite, às 21h, a Batucada Nossa Tradição, encerrará a celebração.
“O principal ativo dos comércios aqui da região é a união popular por meio do samba e das rodas e encontros que acontecem aqui. Essa celebração é mais uma prova da força que a Barra Funda tem”, afirma Francisco Cosme de Oliveira proprietário do Bar do Chagas .

Camisa Verde e Branco mantém viva a tradição do samba paulistano
Entre as atrações musicais está a participação da Velha Guarda Musical do Camisa Verde e Branco, uma das escolas de samba mais tradicionais de São Paulo e profundamente ligada à história da Barra Funda.
Fundada em 1953, a escola tem origem no antigo Grupo Barra Funda, criado ainda na década de 1910, e ocupa posição de destaque na construção do carnaval paulistano. Sua trajetória está diretamente relacionada ao desenvolvimento do samba na região e à atuação da população negra na organização de manifestações culturais da cidade.
Sobre o Cartografias de Bamba
Idealizado e coordenado pela socióloga Nathalia Oliveira, o projeto surgiu em 2024, com caráter multidisciplinar e se baseia em pesquisas e entrevistas com figuras marcantes do samba da Barra Funda, reconhecendo o local como um território historicamente negro e sambista. Entre os depoentes estão Paulo Henrique Correa, um dos fundadores da Velha Guarda Musical e da ala Velha Guarda do Camisa Verde e Branco, as primeiras de São Paulo, Symone Tobias, neta do fundador da escola, Zelão e Seu Ideval, compositores icônicos do samba e Tia Neide — que traçaram um mapa afetivo e cultural do samba paulistano, a partir de vivências, causos e memórias compartilhadas.
O projeto realiza eventos e festivais como forma de educar as novas gerações e reverenciar os griôs em vida e seus legados. Para o ano de 2026 o projeto prevê ampliar os territórios e personagens entrevistados, além de desenvolver uma metodologia de coleta de acervos sobre as memórias encontradas.
O projeto também lança publicações periódicas, tais como a Coleção Cardeais do Samba, e tem como parceiros o Alma Preta, Editora Dandara, Lab Cidade- USP, e os mandatos da deputada estadual Leci Brandão e Ediane Maria.
Serviço
- Festival Cartografias de Bamba e Samburbano – Especial Rua do Samba da Barra Funda
- Data: 26/07/2026 (domingo)
- Horário: das 11h00 às 22h00
- Local: Rua João de Barros, 23 / Rua do Samba (Bar do Chagas) – Barra Funda – SP
- Entrada gratuita / Rua fechada para o evento
*Sujeito à lotação do espaço
Programação:
- 11h–13h – Caminhada histórica conduzida pelo Guia Negro
- 13h–14h – Lavagem e defumação da Rua do Samba pelas Baianas e autoridades religiosas do território
- 14h–21h – Feira de economia criativa, alimentos e bebidas
- 15h–16h – Show da Velha Guarda Musical do Camisa Verde e Branco
- 16h15 – Entrega de flâmulas e agradecimentos – Mestres de cerimônia Nathalia Oliveira e Carlos Alberto ‘Xará’
- 17h15–18h15 – Samburbano
- 18h15–19h – Discotecagem (padronizei “19h00” para “19h”)
- 19h–21h – Samburbano com participação especial de Symone Tobias e convidados
- 21h–22h – Encerramento com Batucada Nossa Tradição

