A indicação do deputado estadual republicano Daniel Perez como novo embaixador dos Estados Unidos no Brasil, anunciada pelo presidente Donald Trump nesta segunda-feira (1º), coloca no centro da relação bilateral um político identificado com a agenda conservadora da atual Casa Branca e com uma das correntes mais influentes da política norte-americana para a América Latina: a comunidade cubano-americana radicada na Flórida. Saiba mais na TVT News.
Aos 38 anos, Perez preside a Câmara dos Representantes da Flórida desde 2024 e precisará ter seu nome aprovado pelo Senado norte-americano antes de assumir o posto em Brasília. Caso seja confirmado, será o primeiro embaixador dos Estados Unidos no Brasil desde a saída de Elizabeth Bagley, ao fim do governo Joe Biden.
A escolha ocorre em um momento de atritos entre os governos de Luiz Inácio Lula da Silva e Donald Trump. Nos últimos meses, divergências comerciais, disputas diplomáticas e declarações de integrantes da administração republicana aumentaram a tensão entre Brasília e Washington, levando analistas a apontarem um dos períodos mais delicados da relação bilateral das últimas décadas.
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Filho de imigrantes cubanos, Daniel Perez nasceu em Nova York, mas construiu sua trajetória política na Flórida, estado que abriga a principal base política do conservadorismo cubano-americano nos Estados Unidos. Ele foi eleito deputado estadual pela primeira vez em 2017 e se tornou um dos nomes em ascensão dentro do Partido Republicano.
Embora tenha concentrado sua atuação parlamentar em temas ligados à saúde, educação, infraestrutura e moradia, Perez não possui experiência relevante em política externa ou diplomacia. Sua indicação segue uma tradição dos Estados Unidos de nomear aliados políticos para postos diplomáticos estratégicos, diferentemente do modelo brasileiro, baseado predominantemente na carreira diplomática profissional.
Nas redes sociais e em manifestações públicas, Perez demonstra alinhamento com o movimento Make America Great Again (MAGA), liderado por Trump. O parlamentar também mantém proximidade política com o secretário de Estado Marco Rubio, uma das figuras mais influentes da política externa republicana e um dos principais defensores de posições duras contra governos de esquerda na América Latina.
A influência da comunidade cubano-americana
A origem política de Perez chama atenção porque remete a um setor que há décadas exerce forte influência sobre a política externa dos Estados Unidos para a região.
Após a Revolução Cubana de 1959, que levou ao poder o líder revolucionário Fidel Castro, parte dos cubanos que deixaram a ilha se estabeleceu principalmente no sul da Flórida. Ao longo das décadas seguintes, organizações e lideranças desse grupo passaram a desempenhar papel relevante dentro do Partido Republicano, defendendo políticas de isolamento econômico e diplomático contra Cuba.
Diversos representantes desse segmento também apoiaram medidas de pressão contra governos progressistas ou de esquerda na América Latina, especialmente em países como Venezuela, Nicarágua e a própria Cuba.
Embora Daniel Perez não tenha atuado diretamente na formulação da política externa norte-americana, sua trajetória política está inserida nesse ambiente ideológico. Em janeiro deste ano, por exemplo, ele celebrou publicamente uma operação militar dos Estados Unidos contra o governo venezuelano, classificando a ação como um avanço para a segurança hemisférica.
Para especialistas em relações internacionais, a escolha de um nome alinhado ao trumpismo e próximo de Marco Rubio indica a intenção da Casa Branca de reforçar sua presença política na América Latina em um momento de disputa geopolítica crescente e de fortalecimento de iniciativas multilaterais defendidas pelo governo brasileiro.
O indicado a embaixador e a relação com o governo Lula
A indicação também é acompanhada com atenção pelo Palácio do Planalto.
Desde o retorno de Trump à presidência, o governo Lula tem buscado preservar canais institucionais de diálogo com Washington, ao mesmo tempo em que mantém uma política externa voltada à ampliação das relações com países do Sul Global, à integração latino-americana e ao fortalecimento de organismos multilaterais.
Em diferentes ocasiões, Lula defendeu uma ordem internacional mais equilibrada e criticou medidas unilaterais adotadas pelas grandes potências. Essas posições contrastam com a visão da atual administração republicana, que tem priorizado ações de caráter mais unilateral em sua política externa.
A chegada de Perez poderá representar um novo teste para a relação entre os dois países, especialmente em temas ligados ao comércio internacional, segurança regional, integração latino-americana e cooperação ambiental.
Embaixadores que marcaram a história brasileira
A história das relações entre Brasil e Estados Unidos registra momentos em que a atuação de representantes diplomáticos norte-americanos extrapolou as funções protocolares e teve impacto direto sobre a política nacional.
Lincoln Gordon e o golpe de 1964

O caso mais emblemático é o de Lincoln Gordon.
Embaixador durante o governo de João Goulart, Gordon desempenhou papel central na articulação do apoio dos Estados Unidos ao movimento que resultou no golpe militar de 1964.
Documentos oficiais posteriormente divulgados pelo governo norte-americano mostraram que o diplomata defendeu junto à Casa Branca apoio político, financeiro e logístico às forças que conspiravam contra Goulart. A chamada Operação Brother Sam previa inclusive suporte militar aos golpistas caso houvesse resistência ao movimento que derrubou o presidente constitucional brasileiro.
O episódio permanece como um dos exemplos mais conhecidos da interferência norte-americana na política latino-americana durante a Guerra Fria.
Outros momentos de tensão
Ao longo das décadas seguintes, diferentes embaixadores norte-americanos acompanharam períodos de divergência entre Brasília e Washington, envolvendo temas como soberania econômica, comércio exterior, integração regional e política ambiental.
Embora o contexto internacional tenha mudado significativamente desde a Guerra Fria, especialistas apontam que a atuação das representações diplomáticas continua sendo um elemento relevante na definição das relações entre os dois países.
Por isso, a chegada de Daniel Perez é observada não apenas como uma mudança administrativa na embaixada dos Estados Unidos, mas como mais um capítulo de uma relação historicamente marcada por cooperação, disputas de interesses e diferentes visões sobre o futuro da América Latina.

