O governo de Donald Trump utilizou dados referentes ao período mais crítico do desmatamento durante a gestão de Jair Bolsonaro para justificar a nova ameaça de tarifaço de 25% contra produtos brasileiros. A conclusão consta de relatório do Escritório do Representante de Comércio dos Estados Unidos (USTR), divulgado nesta semana, que servirá de base para uma possível rodada de sanções comerciais contra o Brasil. Saiba mais na TVT News.
Segundo reportagem publicada pelo jornal O Globo, um dos principais argumentos apresentados por Washington é o combate ao desmatamento ilegal. No entanto, o documento ignora os resultados obtidos pelo governo do presidente Luiz Inácio Lula da Silva desde 2023 e se apoia justamente nos indicadores registrados durante o governo Bolsonaro, quando a devastação da Amazônia atingiu seus piores níveis em 15 anos.
O relatório cita que o desmatamento brasileiro alcançou um pico em 2021, quando foram destruídos cerca de 13 mil quilômetros quadrados da Amazônia. O período corresponde ao auge da política ambiental bolsonarista, marcada pelo enfraquecimento dos órgãos de fiscalização, sucessivos ataques ao Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis (Ibama) e recordes consecutivos de devastação da floresta.
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“Como o Brasil falhou em aplicar — e, em alguns momentos, até mesmo enfraqueceu — suas leis ambientais, o desmatamento tornou-se sistêmico, atingindo um pico em 15 anos em 2021”, afirma trecho do documento reproduzido por O Globo.
A contradição apontada por especialistas e integrantes do governo brasileiro é que os mesmos dados utilizados por Trump para justificar o tarifaço demonstram que o período mais grave do problema ocorreu justamente durante a administração do aliado político da extrema direita brasileira.
Queda do desmatamento foi ignorada
De acordo com a reportagem de O Globo, o documento norte-americano não menciona a forte redução do desmatamento registrada desde a posse de Lula.
Dados oficiais do Projeto de Monitoramento do Desmatamento na Amazônia Legal por Satélite (Prodes), do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe), mostram que a destruição da Amazônia caiu cerca de 50% entre 2022 e 2025. No Cerrado, a redução chegou a 32% no mesmo período.
O relatório também ignora levantamento divulgado recentemente pelo MapBiomas apontando que o desmatamento em todos os biomas brasileiros atingiu, em 2025, o menor nível desde o início da série histórica da entidade, em 2019.
Pela primeira vez, a área total desmatada no país ficou abaixo da marca de um milhão de hectares perdidos em um único ano. A redução ocorreu em todos os biomas nacionais, incluindo a Amazônia, onde a queda foi de 23,5% na comparação entre 2024 e 2025.
Mesmo diante desses resultados, o documento do USTR menciona dezenas de vezes o tema ambiental para sustentar a tese de que produtos brasileiros seriam beneficiados por custos artificialmente reduzidos em razão da ocupação ilegal de áreas desmatadas.
Segundo O Globo, a palavra “desmatamento” aparece 40 vezes ao longo do relatório, número superior ao dobro das referências feitas ao Pix, outro alvo central das críticas de Washington.
Trump elogia Flávio Bolsonaro no mesmo dia
A divulgação da nova proposta de tarifaço ocorreu poucas horas antes de Donald Trump publicar mensagem de apoio ao senador Flávio Bolsonaro em sua rede social, a Truth Social.
Conforme relatou O Globo, o presidente norte-americano divulgou fotografias do encontro realizado na Casa Branca na semana passada e fez elogios públicos ao parlamentar brasileiro.

“Foi muito bom receber Flávio Bolsonaro no Salão Oval da Casa Branca — um homem jovem e inteligente que ama muito o seu país, o Brasil”, escreveu Trump.
Nas imagens divulgadas pelo presidente dos Estados Unidos aparecem também o deputado licenciado Eduardo Bolsonaro e Paulo Figueiredo, um dos articuladores da aproximação entre bolsonaristas e setores da administração republicana.
A publicação ocorreu em meio às tentativas de Flávio Bolsonaro de se desvincular politicamente do novo tarifaço. Em entrevistas recentes, o senador afirmou ter pedido a Trump que poupasse empresas brasileiras das novas sanções comerciais.
Governo vê sabotagem às negociações
O Palácio do Planalto reagiu duramente à investigação conduzida pelos Estados Unidos.
Em nota divulgada após a conclusão preliminar do processo, o governo brasileiro classificou as medidas como injustificáveis e acusou a família Bolsonaro de atuar para sabotar as negociações em curso entre Brasília e Washington.
“É lastimável que todo o trabalho de diálogo e articulação que o governo brasileiro tem feito, inclusive com envolvimento pessoal dos presidentes Lula e Trump, seja sabotado por interesses meramente eleitorais e familiares”, afirmou o comunicado.
A nota também sustenta que a investigação da Seção 301 teve origem em articulações promovidas por integrantes do bolsonarismo junto ao governo norte-americano e acusa aliados do ex-presidente de conspirarem contra interesses nacionais.
Especialista vê hipocrisia em argumento ambiental
Ouvido por O Globo, o secretário-executivo do Observatório do Clima, Márcio Astrini, afirmou que a utilização da agenda ambiental por Trump para justificar barreiras comerciais representa uma contradição.
“Ele não está preocupado com desmatamento. Ele está usando a agenda ambiental e o desmatamento, que realmente existe no Brasil, para justificar essas tarifas indecentes”, afirmou.
Astrini observou ainda que a permanência do desmatamento como problema estrutural cria vulnerabilidades para o país em disputas econômicas e diplomáticas internacionais. Segundo ele, projetos aprovados recentemente pelo Congresso Nacional que enfraquecem mecanismos de fiscalização ambiental podem acabar reforçando argumentos utilizados por governos estrangeiros para atacar a economia brasileira.
Enquanto a consulta pública promovida pelo USTR segue até julho, o governo Lula mantém as negociações para evitar a aplicação definitiva do tarifaço. O episódio, contudo, expõe uma situação politicamente delicada: a principal justificativa ambiental apresentada por Trump para punir o Brasil está baseada justamente nos recordes de desmatamento registrados durante o governo de seu aliado Jair Bolsonaro.
