Defender o lugar de nascimento ou àquele de origem dos pais? Quase metade dos jogadores atuando em seleções africanas na Copa do Mundo de 2026 nasceram em países do continente europeu. A ascendência africana autoriza a dupla nacionalidade que permite a troca mas as razões da escolha estão relacionadas também a fatores culturais, políticos e sociais. Leia em TVT News.
*** Estagiário Rafael Sampaio sob supervisão de Alexandre Barbosa
Embora a presença de jogadores não nascidos na seleção que atuam seja mais pujante no continente africano, elencos de países de outros continentes que disputam a Copa também possuem atletas de origem diversa da nação que defendem. De acordo com dados da FIFA, mais de 250 jogadores convocados para a Copa do Mundo de 2026 jogam por países que não nasceram.
Histórico colonial, imperialismo, migrações e laços familiares são as principais causas da escolha por defender países que não são o de nascimento dos jogadores
Das 10 seleções africanas que disputam a Copa 2026, apenas a África do Sul não possui atletas no elenco que nasceram fora do país. República Democrática do Congo e Marrocos, por outro lado, são os times africanos com mais jogadores nascidos fora do país. Vinte atletas do Congo e 19 de Marrocos nasceram em países europeus, 31 desses jogadores vieram da França, da Espanha e da Bélgica.
Não por acaso, esses três países forneceram tantos atletas aos países africanos. A partir da segunda metade do século XIX, países europeus intensificaram um processo de expansão territorial em busca de novos mercados e de matérias primas para suas indústrias. O continente africano foi o principal alvo das nações europeias. Visando minimizar conflitos e atender as ambições coloniais, praticamente toda a África foi dividida e partilhada entre as principais potências europeias do período.
França e Espanha controlaram Marrocos de 1912 a 1956. O Congo talvez seja o exemplo mais acintoso da violência da colonização. Em 1885, o rei Leopoldo II da Bélgica tomou posse e declarou o território congolês como propriedade particular. A brutalidade do regime colonial belga cuja tortura era pratica corriqueira, foi reconhecida em 2010 pelo atual monarca belga, Felipe. A independência da República Democrática do Congo foi reconhecida em 1960.
A ascendência africana de jogadores de futebol nascidos em países europeus relaciona-se ao passado imperialista da Europa. No processo de exploração das colônias e das pessoas que lá viviam, houve fluxos e miscigenação. Com a independência dos países africanos, a partir da segunda metade do século XX, ondas migratórias mantiveram o fluxo de africanos para a Europa.
Os pais de Achraf Hakimi, um dos melhores laterais direitos do mundo, são marroquinos e chegaram na Espanha bem antes do nascimento do filho em 1998. Saíram do seu país natal por razões econômicas, fator importante nos deslocamentos populacionais. Hakimi foi convidado a integrar a seleção da Espanha mas preferiu defender a pátria dos seus pais. O jogador possui dupla nacionalidade, uma das exigências da FIFA para quem quer atuar em um país que não é aquele onde nasceu.
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Um exemplo fora da África da influência do histórico colonial na determinação da naturalidade de jogadores pertencentes a seleções de países que foram colônias é Curaçau. O país antilhano localizado no sul do mar do Caribe, foi conquistado pela Holanda no século XVII, obtendo independência limitada apenas em 2010. Atualmente, Curaçau é parte do Reino dos Países Baixos. Todos os 26 jogadores de Curaçao nasceram na Holanda.
FIFA estabelece regras para que um jogador atue por um novo país
A entidade máxima do futebol mundial permite que um jogador defenda um país distinto do qual nasceu, mas faz exigências. Um dos requisitos é a dupla nacionalidade. Dupla nacionalidade (ou dupla cidadania) é o status jurídico em que uma pessoa é reconhecida como cidadã de dois ou mais países simultaneamente.
Comumente, existem três formas de obter a cidadania de um país: nascendo nele, sendo descendente de algum cidadão do país no qual se pleiteia o direito; a última forma é tentar o processo de naturalização cujas exigências variam de acordo com o país. Quando se considera os jogadores de futebol com dupla nacionalidade nascidos na europa, a cidadania africana é fruto da descendência.
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Um dos principais nomes do Manchester United, Bryan Mbeumo, nasceu na França mas joga por Camarões, terra do seu pai. Sua dupla nacionalidade foi obtida por descendência. O atacante jogou nas seleções de base francesas até 2020, depois optou pelo time camaronês. Jogar nas seleções de base de um país não impede que o atleta defenda outra nação. O que não pode, terminantemente, é ter jogado pelo time principal do país em jogos oficiais. Isso impede a troca, exceto se o atleta tiver menos de 21 anos. Nesse caso, ele pode mudar de seleção desde que tenha atuado em no máximo três jogos oficiais pelo time principal.
Grandes nomes da Copa do Mundo de 2026 tem origem africana
A França é o país que mais exportou jogadores para outras seleções nessa copa. Oitenta e três jogadores nascidos na França, jogam em outros países. Grande parte desses atletas exportados têm origem familiar no continente africano e mesmo a seleção da França possui a maior parte da sua equipe formada por jogadores com ascendência africana. A maior estrela do futebol francês, Kylian Mbappé, tem pai camaronês e mãe argelina.

O jovem Lamine Yamal, de apenas 18 anos, joga no Barcelona. Destaque da seleção espanhola, Yamal é um dos candidatos potenciais a melhor jogador da Copa. Os pais do atleta são migrantes africanos. O pai é de Marrocos e a mãe da Guiné-Equatorial.

Nenhuma seleção africana jamais ganhou uma copa do mundo. Marrocos, na última edição do mundial, no Catar em 2022, chegou em quarto lugar; no que foi a melhor posição de uma seleção africana em todas as copas realizadas. Apesar do histórico e mesmo que nenhuma seleção do continente chegue nas finais desta Copa, as Áfricas vão comemorar. Em alguma seleção finalista, provavelmente, jogadores de origem africana terão protagonismo.
