Metas redefinidas sem explicação e acordos que parecem mudar conforme a conveniência. Situações como essas podem parecer apenas problemas de comunicação, mas também podem revelar um fenômeno mais profundo e prejudicial às relações de trabalho: o gaslighting organizacional.
O termo ganhou popularidade nos últimos anos para descrever formas de manipulação psicológica em que fatos, falas e percepções são negados ou reescritos, levando uma pessoa a questionar sua própria interpretação da realidade.
Segundo a psicóloga organizacional Patrícia Ansarah, essa prática nem sempre ocorre de forma deliberada no ambiente corporativo, mas pode comprometer a confiança, a autonomia dos profissionais e a capacidade das equipes de colaborar de forma saudável.
“Não é apenas confiança no outro que está em xeque, mas a capacidade de confiar na própria leitura da realidade”, afirma Ansarah, que é fundadora e CEO do Instituto Internacional em Segurança Psicológica (IISP).
Os impactos, segundo Ansarah, vão além do desconforto momentâneo. Quando orientações mudam sem registro ou decisões passadas são desmentidas, os profissionais perdem referências importantes para desempenhar suas funções.
O que favorece o gaslighting
A especialista afirma que ambientes marcados por pouca transparência, ambiguidades frequentes e estruturas hierárquicas rígidas tendem a favorecer esse tipo de situação. Nesses cenários, a versão de quem ocupa posições de maior poder pode prevalecer sobre fatos e registros objetivos.
“O gaslighting no trabalho não se sustenta apenas na intenção de quem distorce, mas na estrutura de poder que permite que certas versões prevaleçam. A manipulação deixa de ser apenas um comportamento individual e passa a operar como efeito relacional”, afirma.
A psicóloga destaca que essas dinâmicas costumam se manifestar de maneira sutil, incorporadas à rotina das equipes. São reuniões em que decisões ganham novos significados dias depois, feedbacks que mudam conforme o contexto e situações em que trabalhadores são convencidos de que compreenderam algo de forma equivocada, mesmo quando as orientações haviam sido claras.

Riscos à segurança psicológica
Para Patrícia Ansarah, combater o gaslighting organizacional é fundamental para garantir a segurança psicológica das equipes. Esse conceito está relacionado à possibilidade de participar de um grupo, expor opiniões, fazer perguntas ou admitir erros sem medo de punição ou humilhação.
Quando microdinâmicas de manipulação são permitidas no ambiente corporativo, os efeitos para a segurança psicológica são cumulativos, diz Ansarah. “Ainda que nem sempre intencional, essa manipulação afeta a autonomia, a capacidade de julgamento e a disposição para se expor. Ambientes em que a realidade se torna instável tendem a produzir times mais defensivos, menos dispostos a contribuir e mais focados em se proteger.”
A consequência é a deterioração da colaboração, da aprendizagem coletiva e da capacidade de responsabilização dentro das equipes. Sem uma compreensão comum dos fatos, torna-se mais difícil identificar problemas, aprender com erros e construir soluções.
Por isso, a psicóloga defende que o enfrentamento do gaslighting organizacional não deve se limitar à responsabilização individual de líderes ou profissionais. O desafio central é garantir condições para que exista uma base mínima de realidade compartilhada entre as pessoas.
“O que está em jogo não é apenas a qualidade das relações, mas a capacidade de um grupo construir entendimento comum sobre o que aconteceu, por que aconteceu e o que fazer a partir disso”, afirma.
Sem esse consenso básico, alerta a especialista, o ambiente de trabalho corre o risco de deixar de ser um espaço de construção coletiva para se tornar um local em que prevalece não quem está correto, mas quem consegue sustentar sua versão dos fatos por mais tempo.
