O senador e pré-candidato à Presidência da República Flávio Bolsonaro (PL-RJ) voltou a colocar em dúvida a confiabilidade das urnas eletrônicas durante uma reunião com embaixadores e representantes diplomáticos de mais de 40 países realizada na terça-feira (21), em Brasília. Saiba mais na TVT News.
O episódio reproduz quase integralmente a estratégia adotada pelo ex-presidente Jair Bolsonaro em julho de 2022, quando reuniu embaixadores no Palácio da Alvorada para disseminar acusações sem provas contra o sistema eleitoral brasileiro — conduta que levou à sua condenação por abuso de poder político e uso indevido dos meios de comunicação e resultou em sua inelegibilidade.
Ao repetir diante de diplomatas argumentos já desmentidos diversas vezes pelo Tribunal Superior Eleitoral (TSE), Flávio reabre uma narrativa que marcou o bolsonarismo nos últimos anos. A diferença é que, desta vez, adversários políticos afirmam não pretender oferecer ao senador o mesmo roteiro político explorado pela família Bolsonaro em diversas ocasiões: transformar eventuais reações institucionais em combustível para um discurso de perseguição.
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Flávio associa urnas brasileiras à Smartmatic
Durante o evento “Debatendo o Brasil”, organizado pela agência Novo Selo Comunicação em parceria com o The Brazilian Report, Flávio Bolsonaro mencionou documentos recentemente divulgados pelo governo dos Estados Unidos sobre suspeitas envolvendo eleições venezuelanas e tentou relacionar a empresa Smartmatic ao sistema eleitoral brasileiro.
Segundo o senador:
“Há poucos dias, por coincidência, há uma denúncia por parte do governo americano de suspeitas de fraudes em processo eleitoral eletrônico, em especial na Venezuela […] Muitas dessas máquinas que são utilizadas nas eleições brasileiras têm a mesma origem dessa empresa venezuelana.”
Em outro momento, acrescentou:
“O pedido que eu faço a todos aqui, não estou questionando o sistema de votação brasileiro, mas que todos os países possam mandar a maior quantidade de observadores possíveis para as nossas eleições […] e também pessoas que tenham conhecimento sobre essa tecnologia e como o Brasil pode dar eleições mais seguras e transparentes.”
Embora tenha afirmado que “não está questionando” o sistema eleitoral, a declaração foi acompanhada da repetição de uma informação falsa já esclarecida oficialmente pela Justiça Eleitoral.
TSE já desmentiu a alegação diversas vezes
A principal afirmação feita por Flávio Bolsonaro — de que as urnas brasileiras teriam origem na empresa venezuelana Smartmatic — já foi desmentida pelo Tribunal Superior Eleitoral em diferentes oportunidades, inclusive em nota atualizada neste mês.
O TSE esclarece que a Smartmatic nunca forneceu urnas eletrônicas nem desenvolveu softwares utilizados nas eleições brasileiras. Todo o projeto das urnas eletrônicas foi concebido, desenvolvido e administrado pela própria Justiça Eleitoral brasileira.
Segundo o tribunal, a empresa venezuelana manteve apenas contratos para serviços de conexão de dados, voz e treinamento de equipes de suporte técnico. A Smartmatic chegou a disputar uma licitação para fabricar urnas em 2020, mas foi derrotada pela Positivo.
O TSE também reafirma que o sistema brasileiro é isolado da internet, utiliza meios criptografados próprios para transmissão de dados e foi submetido, ao longo de mais de duas décadas, a sucessivos testes públicos de segurança, auditorias e fiscalizações sem que fosse comprovada fraude na totalização dos votos.
O roteiro lembra a reunião que tornou Jair Bolsonaro inelegível
O paralelismo entre os dois episódios é evidente.
Em julho de 2022, Jair Bolsonaro convocou embaixadores ao Palácio da Alvorada para apresentar acusações sem provas contra as urnas eletrônicas. A reunião foi transmitida pela TV Brasil e pelas redes oficiais do governo.
Posteriormente, o Tribunal Superior Eleitoral concluiu que o então presidente utilizou a estrutura do Estado para difundir desinformação sobre o processo eleitoral, configurando abuso de poder político e uso indevido dos meios de comunicação. A decisão tornou Bolsonaro inelegível por oito anos.
Na reunião desta semana, o próprio Flávio mencionou o episódio e afirmou que seu pai apenas teria manifestado “uma preocupação com a transparência e a segurança do nosso sistema eleitoral” para que os embaixadores levassem essas preocupações aos seus países.
Na prática, porém, o senador repetiu o mesmo método: utilizar uma plateia internacional para levantar suspeitas sobre a lisura das eleições brasileiras com base em argumentos que já foram oficialmente refutados pela Justiça Eleitoral.

Estratégia amplia discurso de desconfiança antes da eleição
As declarações de Flávio também dialogam com manifestações recentes de Eduardo Bolsonaro, que voltou a levantar suspeitas sobre as urnas eletrônicas e sugeriu, sem apresentar evidências, a possibilidade de manipulação do resultado eleitoral.
O movimento reforça uma estratégia observada desde 2021: questionar previamente a credibilidade do sistema eleitoral antes mesmo da realização da votação.
Após as eleições de 2022, o Partido Liberal chegou a pedir ao TSE a anulação de votos registrados em centenas de milhares de urnas eletrônicas. O pedido foi rejeitado por ausência de provas, e a legenda acabou condenada por litigância de má-fé, recebendo multa de R$ 22,9 milhões.
Também as auditorias conduzidas pelas Forças Armadas após as eleições de 2022 e outras verificações independentes não identificaram qualquer fraude capaz de comprometer o resultado do pleito.
PT decide não recorrer ao TSE
Apesar das semelhanças entre os dois episódios, o PT anunciou que não ingressará no Tribunal Superior Eleitoral para pedir a inelegibilidade de Flávio Bolsonaro.
O líder do partido na Câmara, deputado Lindbergh Farias (RJ), afirmou que o senador estaria justamente tentando provocar uma reação institucional para fortalecer uma narrativa de perseguição política.
Em vídeo divulgado nas redes sociais, Lindbergh declarou:
“Flávio, nós não vamos entrar no TSE para pedir sua inelegibilidade. É isso que você quer, né? Para se dizer perseguido, para ficar acusando. Nós vamos derrotar você e sua turma nas urnas.”
INACREDITÁVEL! Flávio Bolsonaro cria fake News sobre urnas eletrônicas em reunião com embaixadores. É o mesmo roteiro que levou Jair Bolsonaro a ficar inelegível. Flávio, nós não vamos entrar no TSE para pedir sua inelegibilidade. É isso que você quer, né? Para se dizer… pic.twitter.com/xf35921zra
— Lindbergh Farias (@lindberghfarias) July 22, 2026
Segundo o parlamentar, a repetição dos ataques ao sistema eleitoral faz parte de uma estratégia mais ampla de contestação antecipada do resultado caso o bolsonarismo seja derrotado.
Lindbergh também afirmou:
“Vocês querem um motivo para questionar a lisura eleitoral, para pedir que os Estados Unidos não reconheçam, para tentar dar novamente um golpe.”
Flávio repete “cultura golpista” de Bolsonaro, diz presidente do PT
O presidente nacional do PT, Edinho Silva, afirmou que Flávio Bolsonaro reproduziu a mesma estratégia utilizada pelo ex-presidente Jair Bolsonaro nas eleições de 2022 ao reunir diplomatas estrangeiros para levantar suspeitas sobre as urnas eletrônicas. Em nota divulgada após o evento, Edinho classificou a iniciativa como parte da mesma “cultura golpista” que marcou o governo anterior e alertou para os riscos de novos ataques à democracia.
“Flávio Bolsonaro prova que tem a mesma cultura golpista do pai, Jair Bolsonaro, e adota os mesmos métodos utilizados nas eleições de 22“, afirmou o dirigente petista. Segundo ele, o senador questionou justamente o sistema eleitoral que o elegeu repetidas vezes, assim como outros integrantes da família Bolsonaro.
Edinho também relacionou o episódio às conclusões das investigações sobre a tentativa de golpe de Estado após as eleições de 2022. Para o presidente do PT, desacreditar as urnas eletrônicas faz parte de uma estratégia conhecida para enfraquecer a confiança nas instituições democráticas.
“Sabemos quais são as consequências dessa ofensiva antidemocrática. Como provado na investigação e, posteriormente, no julgamento, da tentativa de golpe de janeiro de 23, tentar descredibilizar as urnas é método contra a nossa democracia. E o resultado pode ser gravíssimo, como a história recente demonstrou“, declarou.
O dirigente ainda condenou a disseminação de informações falsas sobre o processo eleitoral por um pré-candidato à Presidência da República. “Não podemos tolerar a desinformação e as fake news contra o nosso sistema de votação por um pré-candidato à Presidência da República“, afirmou.
Por fim, Edinho informou que o Partido dos Trabalhadores avalia quais medidas judiciais poderão ser adotadas em resposta ao episódio e reafirmou o compromisso da legenda com a defesa da democracia. “O Partido dos Trabalhadores avalia as medidas judiciais cabíveis e reitera que está ao lado da democracia e em defesa das urnas eletrônicas e do sistema eleitoral brasileiro, em respeito aos 158 milhões de eleitores e a toda a população do nosso país”, concluiu.
Campanha nega ataque ao sistema eleitoral
Após a repercussão das declarações, a campanha de Flávio Bolsonaro divulgou nota afirmando que o senador “não coloca em dúvida o processo eleitoral brasileiro” e que apenas defendeu o envio de observadores internacionais, prática adotada em diferentes democracias.
O texto sustenta ainda que o pré-candidato “reafirma sua integral confiança no sistema eleitoral brasileiro” e que sua fala foi retirada de contexto.
Entretanto, a associação entre as urnas brasileiras e a Smartmatic — ponto central do discurso apresentado aos diplomatas — permanece incompatível com as informações oficiais divulgadas reiteradamente pelo Tribunal Superior Eleitoral.
Ao repetir uma estratégia que levou Jair Bolsonaro à inelegibilidade, Flávio Bolsonaro volta a internacionalizar questionamentos sobre as eleições brasileiras utilizando argumentos já refutados pelas autoridades eleitorais. Desta vez, porém, a principal força de oposição ao bolsonarismo decidiu não recorrer ao mesmo caminho jurídico, numa tentativa de impedir que o episódio seja convertido em mais um capítulo da narrativa de perseguição política construída pela família Bolsonaro.

