Nesta quinta-feira, ocorreu o jogo de volta do Gre-Nal na Arena do Grêmio, que definiu o último clássificado para as semi-finais da Copa do Brasil. O jogo de ida, no Beira-Rio, terminou com o frustrante placar de 0 a 0, deixando o resultado final em aberto. Com a vantagem de jogar em casa, o Grêmio não decepcionou e encerrou a partida de ontem com a goleada de 3 a 1 contra o Colorado. Com Palmeiras, Vasco e Galo classificados, os confrontos das semifinais reunirão quatro torcidas aliadas da “união DPA (Dedo Pro Alto). Leia em TVT News.
As datas ainda não foram definidas, mas as semifinais serão disputadas em novembro. De um lado, teremos Palmeiras x Vasco, do outro, Atlético-MG e Grêmio. O vencedor dos confrontos disputarão a final em 6 de dezembro, em jogo único.
Na reta final do campeonato, a disputa é acirrada, mesmo assim um clima de amistoso estará presente nas arquibancadas, já que todos os clubes possuem torcidas organizadas que fazem parte da União Dedo Pro Alto (DPA), que é um dos grandes grupos de torcidas aliadas no país, tendo como rival a UPC, União Punho Cruzado, que tem torcidas como a Independente (SP), Jovem Fla (RJ) e Máfia Azul (MG).
Do lado da DPA, a aliança também se consolidou com o nome de “União Sinistra” e engloba as torcidas da Mancha Verde (SP), a Força Jovem (RJ), a Galoucura (MG), a Geral do Grêmio (RS) e a TUP (SP). Além das torcidas dos times semifinalistas, no entanto, ainda existem diversas torcidas nessa união, somando, no total, 22 torcidas.
De acordo com o Observatório Social do Futebol, essa é a lista completa dos integrantes da União DPA:
- Força Jovem do Vasco (RJ)
- Ira Jovem Vasco (RJ)
- Torcida Jovem do Botafogo (RJ)
- Mancha Alvi-Verde (SP)
- Galoucura (MG)
- Império Alviverde (PR)
- Mancha Azul (SC)
- Mancha Verde (RS)
- Geral do Grêmio (RS)
- Força Jovem do Goiás (GO)
- Ira Jovem Gama (DF)
- Bamor Nova Era (BA)
- Trovão Azul (SE)
- Mancha Negra (AL)
- Mancha Azul (AL)
- Explosão Inferno Coral (PE)
- Torcida Jovem do Botafogo (PB)
- Garra Alvinegra (RN)
- Cearamor (CE)
- Esporão do Galo (PI)
- Tubarões da Fiel (MA)
- Torcida Uniformizada Terror Bicolor (PA)
Como surgiram as principais uniões de torcidas organizadas? A DPA e UPC?
Mesmo se enfrentando como adversários, a união entre as torcidas atravessa décadas e vai muito além das arquibancadas.
Em diferentes momentos, torcedores organizados estabeleceram relações de amizade, apoio e proteção, que deram origem aos grandes blocos nacionais e regionais.
Atualmente, existem 61 torcidas organizadas, que são distribuídas em cinco grandes agrupamentos: União Punho Cruzado, União Dedo pro Alto, União Punho Colado e outros coletivos regionais, conhecidos como Lado A e Lado B.
A formação dessas alianças esteve ligada, em grande parte, à necessidade de apoio durante deslocamentos nos jogos fora de casa, encontros entre torcidas e situações de conflito.
Com o passar dos anos, os vínculos criaram redes que passaram a envolver recepção de torcedores visitantes, organização de festas, troca de materiais e apoio logístico.
Apoio em confrontos
Essas alianças também se relacionaram com episódios de confronto entre grupos rivais.
A lógica de proteção entre torcidas acabou, em determinados contextos, associada à preparação para enfrentamentos, disputas territoriais e conflitos em dias de jogos.
As amizades entre organizadas ajudaram a formar uma espécie de sistema de alianças que ultrapassou as fronteiras dos clubes.
Gaviões da Fiel e Jovem Santos de fora
Entre as dez maiores torcidas organizadas do país, duas não integram esses blocos: os Gaviões da Fiel, do Corinthians, e a Torcida Jovem, do Santos.
Torcida do Palmeiras e Vasco: uma das alianças mais antigas do futebol
Uma das histórias mais antigas relacionadas às amizades entre torcidas envolve Palmeiras e Vasco. A origem remonta a 1942, em um período de forte tensão política em torno do Palestra Itália, que precisou abandonar o antigo nome e assumir a identidade de Palmeiras.
Durante a partida que decidiu o Campeonato Paulista daquele ano, o ambiente era de pressão sobre o clube paulista. Adalberto Mendes, capitão do Exército e dirigente do Vasco, entrou em campo carregando a bandeira do Brasil para proteger o time palmeirense das vaias.
O gesto ocorreu em meio ao clima de hostilidade diante das reclamações da arbitragem, que expulsou um jogador do São Paulo e deu um pênalti para o alviverde.
A relação entre torcedores dos dois clubes ganhou outra dimensão em 1951, durante a Copa Rio. Depois de o Vasco ser eliminado nas semifinais, aproximadamente 100 mil torcedores cariocas foram ao Maracanã acompanhar a decisão entre Palmeiras e Juventus.
A presença vascaína chamou atenção porque os torcedores passaram a apoiar o clube paulista. Registros daquele dia mostram torcedores do Vasco acompanhando a conquista palmeirense nas arquibancadas.
Décadas depois, outro episódio reforçou essa relação. Em 1979, torcedores vascaínos ajudaram palmeirenses que haviam ficado cercados durante uma confusão com rivais no Rio de Janeiro. O episódio passou a integrar a memória da amizade entre as duas torcidas.
A DPA começa a se organizar a partir dos anos 80
A partir dos anos 1980, as lideranças de diferentes torcidas passaram a estruturar de maneira mais prática as relações que já existiam. Um dos objetivos era oferecer apoio aos torcedores durante viagens para outras cidades.
A dinâmica ganhou força na década seguinte, quando a Galoucura, torcida organizada do Atlético-MG, passou a integrar oficialmente a parceria Palmeiras e Vasco. A entrada do grupo mineiro ampliou a rede e aproximou torcedores de São Paulo, Rio de Janeiro e Belo Horizonte.
Cartas e documentos produzidos pelas torcidas durante esse período registram parte desse processo. As correspondências eram utilizadas para manter contato entre as lideranças, organizar deslocamentos e trocar materiais relacionados às organizadas.
A relação também envolvia a comercialização e a troca de produtos, como camisas, bonés e adesivos. Dessa forma, uma rede que inicialmente estava baseada em relações de amizade e apoio passou a ter mecanismos próprios de comunicação e colaboração.
No caso da relação entre Palmeiras e Vasco, a proximidade ganhou até uma expressão física em São Paulo. Desde 1996, uma loja oficial do Vasco funciona nas proximidades do estádio do Palmeiras, no bairro que concentra a comunidade palmeirense.
A convivência entre as torcidas continuou sendo registrada em episódios posteriores. Em 2018, o Palmeiras conquistou o Campeonato Brasileiro em São Januário. O ambiente de respeito entre as torcidas foi acompanhado, posteriormente, por uma homenagem da torcida palmeirense ao Vasco. No Allianz Parque, torcedores do Palmeiras produziram um mosaico com a Cruz de Malta, símbolo vascaíno.
A entrada da Galoucura e a expansão nacional
A participação da Galoucura ajudou a transformar uma relação que tinha forte presença entre São Paulo e Rio de Janeiro em uma articulação de alcance nacional.
Durante os anos 1990, a torcida do Atlético-MG formalizou a aproximação com os demais grupos por meio de correspondências e apoio logístico no Mineirão. Torcedores paulistas e cariocas passaram a contar com suporte dos mineiros durante suas viagens a Belo Horizonte.
A relação permaneceu ao longo das décadas seguintes. Em 2017, integrantes da torcida atleticana fizeram uma homenagem no gramado ao estender uma bandeira da Mancha Verde após a morte do fundador da torcida palmeirense.
No Sul do país, a Geral do Grêmio também passou a ocupar posição de destaque nessa rede de amizades. A torcida gremista mantém relação com os grupos envolvidos na aliança e costuma receber torcedores aliados em Porto Alegre.
Essas relações podem aparecer em momentos que contrastam com a rivalidade entre os clubes. Quando duas equipes se enfrentam, as torcidas continuam defendendo seus respectivos times dentro do estádio. Fora dele, porém, os grupos aliados podem organizar recepções e atividades conjuntas.
É nesse contexto que surgem festas compartilhadas em dias de jogos. Os grupos podem reunir seus cantos e bandeiras para marcar a relação de amizade, mantendo a disputa esportiva entre os clubes.
Amizade entre torcidas não elimina a rivalidade entre clubes
A existência dessas alianças cria uma situação particular no futebol brasileiro. Dois clubes podem disputar uma partida decisiva enquanto suas torcidas organizadas mantêm relações de amizade.
Palmeiras, Vasco, Atlético-MG e Grêmio, por exemplo, já protagonizaram confrontos importantes em competições nacionais. A rivalidade esportiva não impediu a construção de vínculos entre seus grupos de torcedores.
Entre os confrontos de maior relevância estão a Supercopa do Brasil de 1990, vencida pelo Grêmio contra o Vasco; a final do Campeonato Brasileiro de 1997, quando o Vasco superou o Palmeiras; a decisão da Copa do Brasil de 2016, em que o Grêmio derrotou o Atlético-MG; e a final da Copa do Brasil de 2020, vencida pelo Palmeiras contra o Grêmio.
Os resultados mostram como a amizade entre torcidas não significa alinhamento entre os clubes. Dentro de campo, cada equipe mantém seus objetivos e sua disputa por títulos. A relação entre as organizadas, por outro lado, é construída fora da competição.