O governo dos Estados Unidos, sob o comando do presidente Donald Trump, aprovou um acordo de cooperação nuclear com a Arábia Saudita que poderá permitir ao reino desenvolver capacidade própria de enriquecimento de urânio para seu programa nuclear civil. O pacto, com duração prevista de 30 anos e avaliado em dezenas de bilhões de dólares, representa uma mudança importante na política nuclear norte-americana para o Oriente Médio e desperta forte preocupação entre especialistas em não proliferação diante do risco de uma nova corrida armamentista na região. Saiba mais na TVT News.
Segundo informações divulgadas inicialmente pelo The Wall Street Journal e confirmadas pela agência Associated Press (AP), o acordo poderá ser anunciado oficialmente nesta quarta-feira (22). O texto ainda precisará ser analisado pelo Congresso dos Estados Unidos, onde enfrenta resistência de parlamentares democratas e republicanos preocupados com as consequências estratégicas da decisão.
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O entendimento prevê a participação de empresas norte-americanas na implantação da infraestrutura nuclear na Arábia Saudita e poderá autorizar, após um estudo conjunto de viabilidade econômica com duração de dois anos, a construção de uma instalação para enriquecimento de urânio em território saudita.
Embora Washington afirme que todo o processo permanecerá sob supervisão dos Estados Unidos, especialistas alertam que a simples existência de centrífugas capazes de enriquecer urânio na Arábia Saudita representa um passo tecnológico importante para qualquer país que, futuramente, decida desenvolver armas nucleares.
Programa civil ou porta de entrada para armas?
O enriquecimento de urânio, por si só, não significa que um país esteja construindo uma bomba atômica. Para produzir um armamento nuclear, são necessárias diversas outras etapas técnicas, incluindo domínio sobre explosivos de alta precisão, sistemas de detonação e miniaturização do dispositivo.
Ainda assim, o enriquecimento é considerado uma das fases mais sensíveis do ciclo do combustível nuclear justamente porque reduz significativamente a distância tecnológica entre um programa exclusivamente civil e um eventual programa militar.
A preocupação aumenta porque, segundo fontes ouvidas pela Associated Press, a Arábia Saudita não aceitou aderir ao chamado Protocolo Adicional da Agência Internacional de Energia Atômica (AIEA), instrumento que amplia os poderes de inspeção internacional e permite monitoramento mais rigoroso das instalações nucleares.
Especialistas em não proliferação consideram esse protocolo um dos mecanismos mais importantes para evitar desvios de material nuclear.
Outro ponto criticado é que a Arábia Saudita também recusou adotar o chamado “padrão ouro” dos acordos nucleares civis firmados pelos Emirados Árabes Unidos com Washington. Nesse modelo, os Emirados aceitaram desenvolver energia nuclear sem enriquecer urânio em seu próprio território, reduzindo significativamente os riscos de militarização.
Guerra com o Irã amplia tensão
O anúncio ocorre em um momento particularmente delicado para o Oriente Médio.
Os Estados Unidos e Israel mantêm forte pressão militar e diplomática sobre o Irã sob a justificativa de impedir que Teerã desenvolva uma arma nuclear. Os recentes ataques contra instalações nucleares iranianas tiveram justamente esse objetivo declarado.
O governo iraniano, entretanto, continua afirmando que seu programa nuclear possui exclusivamente fins pacíficos e nega qualquer intenção de produzir armamentos atômicos.
Ao mesmo tempo, a Agência Internacional de Energia Atômica acompanha com preocupação o avanço do programa iraniano de enriquecimento de urânio. Analistas internacionais consideram que o país já acumula conhecimento técnico e estoque suficiente de urânio altamente enriquecido para reduzir significativamente o chamado “tempo de ruptura” — período necessário para produzir material físsil destinado a uma bomba, caso uma decisão política fosse tomada.
É justamente esse cenário que preocupa os países vizinhos.
Em 2018, o príncipe herdeiro saudita Mohammed bin Salman declarou publicamente que, caso o Irã obtenha uma arma nuclear, a Arábia Saudita buscará desenvolver capacidade equivalente “o mais rápido possível”.
Essa declaração voltou a ganhar relevância diante do novo acordo firmado com Washington.
Israel mantém política de ambiguidade nuclear
A discussão sobre proliferação nuclear no Oriente Médio também envolve outro fator frequentemente apontado por especialistas: o arsenal atômico israelense.
Israel nunca confirmou oficialmente possuir armas nucleares, adotando há décadas uma política conhecida como “ambiguidade estratégica”. Apesar disso, existe amplo consenso entre centros internacionais de pesquisa, especialistas em segurança internacional e organizações independentes de monitoramento nuclear de que o país mantém um arsenal nuclear operacional.
Essa situação torna o equilíbrio estratégico regional ainda mais complexo.
Enquanto Washington e seus aliados exercem intensa pressão para limitar os programas nucleares do Irã, o arsenal israelense permanece fora dos tratados internacionais de transparência e inspeção aplicados a outros países da região.
Na prática, o Oriente Médio convive hoje com três realidades distintas: o programa nuclear iraniano permanentemente monitorado e alvo de sanções internacionais; um arsenal israelense amplamente reconhecido por especialistas, embora nunca oficialmente admitido; e agora a possibilidade de surgimento de uma infraestrutura de enriquecimento de urânio também na Arábia Saudita.
Congresso dos EUA ainda poderá barrar acordo
O acordo firmado por Trump ainda enfrentará uma etapa decisiva no Congresso norte-americano.
Pela legislação dos Estados Unidos, os parlamentares poderão votar uma resolução para bloquear o tratado. Entretanto, para derrubar a decisão presidencial será necessária maioria qualificada de dois terços dos votos caso Trump utilize seu poder de veto, cenário considerado politicamente difícil.
O governo norte-americano sustenta que a parceria permitirá manter influência direta sobre o programa nuclear saudita e, ao mesmo tempo, reduzirá a participação de China e Rússia na expansão da infraestrutura energética do reino.
Além da dimensão estratégica, o acordo representa uma oportunidade econômica para a indústria nuclear dos Estados Unidos. Empresas norte-americanas deverão assumir posição privilegiada na construção de reatores, instalações e sistemas tecnológicos destinados ao programa saudita.
Especialistas alertam para efeito dominó
O principal temor de analistas internacionais é que a decisão norte-americana desencadeie um efeito cascata no Oriente Médio.
Caso a Arábia Saudita obtenha autorização para enriquecer urânio, outros países da região, como Turquia, Egito e Emirados Árabes Unidos, poderão reivindicar tratamento semelhante, ampliando o número de Estados com domínio sobre tecnologias nucleares sensíveis.
Embora Washington afirme que o objetivo permanece limitado ao uso civil da energia nuclear, especialistas em segurança internacional alertam que a combinação entre rivalidades geopolíticas, guerras em curso e disputas por influência regional pode acelerar uma corrida tecnológica com potencial de alterar profundamente o equilíbrio estratégico do Oriente Médio nas próximas décadas.
Nesse contexto, o novo acordo entre Estados Unidos e Arábia Saudita ultrapassa a dimensão energética. Ao abrir espaço para o enriquecimento de urânio em um dos principais atores da região, em meio à escalada envolvendo Irã e Israel, a iniciativa reacende o debate internacional sobre os limites da não proliferação e os riscos de uma nova era de competição nuclear no Oriente Médio.

