A advogada, ativista política e candidata a deputada federal por São Paulo, Natália Boulos (PSOL), afirmou que o estado vive as consequências de um modelo de gestão baseado em privatizações, criticou a condução do governador Tarcísio de Freitas (Republicanos) e defendeu a ampliação da participação das mulheres na política como condição para enfrentar a violência de gênero. As declarações foram feitas durante entrevista ao quadro Isso é Urgente, do Jornal TVT News Segunda Edição, exibido nesta quinta-feira (6). Saiba mais na TVT News.
Integrante da Executiva Nacional e secretária de Organização do PSOL, Natália também abordou temas como mobilidade urbana, Sabesp, feminicídio, democracia, representação feminina e sua trajetória no Movimento dos Trabalhadores Sem Teto (MTST).
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Privatização da CPTM expôs “desastre” da gestão Tarcísio
Ao comentar os problemas registrados no sistema ferroviário paulista após o processo de privatização, Natália afirmou que a crise evidencia o fracasso da política de concessões implementada pelo governo estadual.
Segundo ela, o recuo anunciado por Tarcísio em relação à realocação dos trabalhadores da CPTM representa uma vitória da mobilização sindical.
“Essa greve e tudo o que aconteceu com o transporte público mostram a marca do desastre da gestão Tarcísio. O governador entregou serviços essenciais para a iniciativa privada e o resultado foi uma tragédia.”
Para a dirigente do PSOL, a paralisação demonstrou que a população rejeitou o modelo de privatização adotado pelo governo paulista.
Ela argumentou que um gestor público não pode transformar serviços essenciais em experiências de mercado.
“Você não pode fazer teste com a vida das pessoas. Um teste com a privatização levou trem a pegar fogo e deixou trabalhadores sem saber se chegariam vivos ao destino.”
Recuos mostram incapacidade de gestão
Durante a entrevista, Natália relacionou os recuos do governador em temas como câmeras corporais da Polícia Militar, pedágio eletrônico (free flow) e privatizações ao desgaste político e eleitoral da gestão.
Na avaliação da candidata, porém, as mudanças de posição revelam mais do que preocupação com a opinião pública.
“O Tarcísio se vendeu como um grande gestor, mas demonstra falta de capacidade de gestão. Um governador precisa dar estabilidade, não gerar medo e incerteza.”
Segundo ela, São Paulo, historicamente visto como referência administrativa, passou a ser lembrado por sucessivas crises nos serviços públicos.
Reestatização da Sabesp
Natália Boulos também defendeu a reversão da privatização da Sabesp.
Segundo ela, a venda da companhia foi conduzida de maneira questionável e produziu efeitos negativos tanto para os consumidores quanto para os trabalhadores.
“Privatizar a água transforma um direito básico em mercadoria. Quem compra uma empresa dessas pensa no lucro, aumenta tarifa, reduz qualidade e demite trabalhadores.”
Ela afirmou que existem fundamentos jurídicos para discutir a reversão do processo de privatização, criticando cláusulas contratuais que, segundo ela, impõem elevados custos ao poder público.
A dirigente do PSOL também relacionou a piora da qualidade da água ao aumento de problemas de saúde.
Segundo Natália, isso acaba pressionando o Sistema Único de Saúde (SUS), elevando os gastos públicos.
Feminicídio: corte de orçamento tem impacto direto
Um dos principais momentos da entrevista foi a discussão sobre o aumento dos casos de feminicídio em São Paulo.
Para Natália Boulos, existe relação direta entre a alta da violência contra as mulheres e a redução dos investimentos estaduais em políticas públicas de proteção.
“Não tenho dúvida de que existe relação. O combate ao feminicídio depende de políticas públicas.”
Segundo ela, enquanto o Brasil registrou redução nos índices nacionais, São Paulo caminhou na direção oposta.
A candidata atribuiu esse cenário ao corte de aproximadamente 50% dos investimentos destinados ao enfrentamento da violência de gênero, além da ausência de expansão da rede de atendimento às mulheres.
Ela também criticou a postura do governador diante dos casos de feminicídio.
“Eu não me lembro de ver o governador ir à televisão prestar solidariedade às famílias ou dizer que a violência contra a mulher precisa acabar.”
Lula e o pacto nacional contra o feminicídio
Ao comparar as políticas federal e estadual, Natália destacou a atuação do presidente Luiz Inácio Lula da Silva no enfrentamento à violência contra as mulheres.
Segundo ela, o governo federal colocou o tema no centro da agenda pública por meio da articulação entre os três Poderes e da construção de um pacto nacional de combate ao feminicídio.
Na avaliação da dirigente do PSOL, a postura das lideranças políticas também influencia o enfrentamento da violência.
“Quando uma liderança trata esse tema como prioridade, ela ajuda a mobilizar toda a sociedade.”
Trajetória no MTST
Durante a entrevista, Natália relembrou sua entrada no Movimento dos Trabalhadores Sem Teto.
Ela contou que participou da primeira ocupação aos 17 anos, no Campo Limpo, bairro onde nasceu e mora até hoje.
Foi nesse contexto que conheceu Guilherme Boulos, embora o relacionamento entre os dois tenha começado anos depois.
Em tom descontraído, afirmou que sua principal contribuição foi convencer o hoje deputado federal a morar no Campo Limpo.
“A gente se conheceu no MTST. O que eu fiz mesmo foi levar o Guilherme para morar no Campo Limpo.”
Mais mulheres no Congresso
Ao abordar sua candidatura à Câmara dos Deputados, Natália afirmou que ampliar a presença feminina nas instituições é condição para enfrentar desigualdades estruturais.
Segundo ela, a baixa representação das mulheres nos espaços de decisão influencia diretamente a formulação de políticas públicas.
“A vida das mulheres continua sendo decidida majoritariamente por homens.”
Ela ressaltou, porém, que a discussão não deve se limitar ao aumento do número de parlamentares mulheres.
Na avaliação da dirigente do PSOL, é preciso eleger representantes comprometidas com pautas ligadas aos direitos das mulheres, ao combate à violência e à redução das desigualdades.
“Não basta querer mais mulheres. É preciso querer mulheres comprometidas com políticas que mudem concretamente a vida das brasileiras.”
Democracia e avanço do feminismo
Na parte final da entrevista, Natália refletiu sobre a evolução do debate feminista no Brasil.
Ela lembrou que iniciou sua militância ainda na adolescência, quando a discussão sobre igualdade de gênero ocupava um espaço muito menor dentro da própria esquerda.
Segundo ela, apesar dos desafios atuais, houve avanços importantes nas últimas décadas.
A dirigente também associou o crescimento de movimentos misóginos ao fortalecimento das pautas feministas.
Na avaliação da candidata, o avanço da extrema direita e dos grupos que questionam direitos das mulheres representa uma reação às conquistas obtidas pelo movimento feminista.
Natália citou ainda o impeachment da ex-presidenta Dilma Rousseff como um marco da intensificação da misoginia na política brasileira e defendeu que a igualdade entre homens e mulheres seja incorporada como eixo estruturante dos projetos políticos.
“O feminismo não pode ser um detalhe ou uma cota. Precisa fazer parte de um projeto de país.”
Encerrando a entrevista, ela afirmou que o reconhecimento do protagonismo feminino nas eleições representa um avanço democrático, mas destacou que esse reconhecimento precisa ser acompanhado de maior participação das mulheres nos espaços de decisão e da implementação de políticas públicas voltadas à igualdade de direitos e ao enfrentamento da violência de gênero.