O que é a Doutrina Monroe mencionada por Trump

Doutrina criada em 1823 para conter a influência europeia nas Américas se tornou uma diretriz de intervenção na América Latina e é agora ressucitada por Washingtron
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Governo Trump ressucita a Doutrina Monroe em vídeo oficial do governo – Foto: Ken Cedeno/AFP

Em vídeo publicado nesta terça-feira (11) nas redes sociais do Departamento de Estado, o governo Trump cita a Doutrina Moroe, diretriz formulada no século 19, ao afirmar que o “domínio americano” sobre o hemisfério não deverá mais ser questionado. Leia em TVT News.

Durante o governo de Trump, a pressão de Washington sobre países da América Latina vem crescendo. Os EUA tem apontado a presença da China como uma das principais ameaças aos interesses americanos no continente e ampliado a atenção sobre temas como imigração, tráfico de drogas e controle de áreas consideradas estratégicas.

O vídeo divulgado pelo Departamento de Estado tem mais de cinco minutos e apresenta a Doutrina Monroe como uma referência histórica para a atuação dos Estados Unidos nas Américas. A produção é narrada por Kevin Marino Cabrera, embaixador americano no Panamá, e cita episódios recentes da política externa de Trump como exemplos de aplicação dessa visão.

O que é a Doutrina Monroe

A Doutrina Monroe surgiu na primeira metade do século 19 durante o governo do presidente norte-americano James Monroe (1758-1831), conduzindo a política externa do Congresso americano em um momento de profundas transformações políticas no continente.

No início do século 19, diversos países da América Latina haviam acabado de conquistar sua independência de potências europeias. Ao mesmo tempo, existiam preocupações em Washington sobre a possibilidade de Espanha, França e outras potências tentarem recuperar posições coloniais nas Américas.

Nesse cenário, Monroe afirmou que os continentes americanos não deveriam ser considerados espaços disponíveis para novas interferências. A mensagem também estabelecia que os Estados Unidos não pretendiam interferir nas guerras ou nos assuntos internos das potências europeias e por isso eles não deveriam fazer o mesmo no continente americano.

A expressão mais conhecida dessa política é a frase “América para os americanos”. Inicialmente, a doutrina funcionava sobretudo como uma advertência às potências europeias, mas ela não parou por aí.

Com o crescimento do poder americano, a real interpretação da doutrina se reveleu. A política passou a ser associada à reivindicação de uma posição privilegiada dos Estados Unidos no Hemisfério Ocidental. “América para americanos” assim seria, “América para os Estados Unidos”, que passaram a interferir na política de diversos países, como foi o caso de Cuba no fim do século 19 e começo do 20 com a chamada “emenda Platt”, que na prática colocava os EUA na posição de aprovar ou não resultados de eleições.

Como a doutrina passou a justificar intervenções

Ao longo do tempo, diferentes governos americanos reinterpretaram a Doutrina Monroe. Essas adaptações ficaram conhecidas como corolários, que acrescentavam novas interpretações à formulação original.

Um dos mais conhecidos foi apresentado em 1904 pelo presidente Theodore Roosevelt. O chamado Corolário Roosevelt defendia que os Estados Unidos poderiam intervir nos assuntos internos de países latino-americanos em determinadas circunstâncias, especialmente quando esses governos fossem considerados incapazes de cumprir compromissos internacionais.

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A mudança ampliou significativamente o alcance da doutrina. Washington passou a reivindicar para si uma espécie de papel de poder de polícia no continente.

A política ficou relacionada à expressão “big stick”, ou “grande porrete”, usada para representar uma diplomacia baseada na combinação entre negociação e possibilidade de intervenção. Essa concepção contribuiu para uma série de intervenções americanas, diretas ou indiretas, sobretudo no Caribe e na América Central.

A Doutrina Monroe também ganhou novas interpretações durante a Guerra Fria. Naquele período, os Estados Unidos passaram a considerar a expansão da influência soviética e do comunismo na América como uma ameaça à sua posição estratégica.

Um dos episódios mais conhecidos foi a Crise dos Mísseis de Cuba, em 1962. A instalação de mísseis soviéticos na ilha levou a um dos momentos de maior tensão entre Estados Unidos e União Soviética durante a Guerra Fria.

Trump e a “Doutrina Donroe”

Kevin Marino Cabrera, embaixador americano no Panamá, narra o vídeo sobre a Doutrina Monroe publicado pelo Departamento de Estado dos Estados Unidos – Reprodução/ Youtube

A retomada da Doutrina Monroe por Trump ocorre em um contexto diferente daquele do século 19. Em vez da disputa com potências coloniais europeias, a preocupação central apresentada pelo governo americano envolve a influência crescente da China e de outros atores externos na América Latina.

A política passou a ser chamada por analistas de “Doutrina Donroe”, uma combinação do sobrenome Trump com Monroe. O próprio presidente americano utilizou o termo para descrever sua interpretação da política hemisférica.

Em dezembro de 2025, a Casa Branca apresentou uma nova Estratégia de Segurança Nacional na qual a Doutrina Monroe apareceu como referência para a relação dos Estados Unidos com a América Latina. O documento estabeleceu o Hemisfério Ocidental como uma área prioritária para Washington.

A estratégia também relaciona questões latino-americanas a preocupações diretamente ligadas à segurança dos Estados Unidos, incluindo imigração e tráfico de drogas.

O secretário de Defesa americano, Pete Hegseth, também defendeu que os Estados Unidos deveriam recuperar influência que, segundo ele, teria sido perdida para a China no chamado “quintal” americano.

Canal do Panamá está no centro da disputa

O Canal do Panamá aparece como um dos principais pontos dessa disputa por influência. Construído pelos Estados Unidos no início do século 20, o canal passou ao controle panamenho em 1999.

O governo Trump tem criticado a presença chinesa relacionada à infraestrutura e à atividade econômica na região. Para Washington, o canal possui importância estratégica por conectar os oceanos Atlântico e Pacífico.

No vídeo publicado pelo Departamento de Estado, o canal é apresentado como um símbolo da liderança histórica dos Estados Unidos no continente.

A disputa mostra como a releitura da Doutrina Monroe vai além de uma referência histórica. A política externa do governo Trump utiliza a ideia de primazia americana no Hemisfério Ocidental para justificar maior atenção sobre governos latino-americanos, rotas estratégicas e investimentos de potências estrangeiras.

Venezuela também aparece na política de Trump

O Departamento de Estado citou ainda a atuação do governo Trump na Venezuela como exemplo da aplicação contemporânea da doutrina. O material menciona a captura do ex-presidente venezuelano Nicolás Maduro durante uma operação americana no início de 2026.

A referência evidencia a disposição do governo Trump de associar a defesa dos interesses americanos na região a ações de pressão sobre governos latino-americanos.

Ao recuperar uma doutrina formulada há mais de dois séculos, Washington apresenta a América Latina e o Caribe como áreas de interesse estratégico direto dos Estados Unidos. A mudança também ocorre em meio à disputa global por influência, especialmente entre Washington e Pequim.

A declaração do Departamento de Estado de que o domínio americano no Hemisfério Ocidental “nunca mais será questionado” reforça a dimensão política da atual releitura. A frase sinaliza que a administração Trump pretende reafirmar a primazia dos Estados Unidos sobre uma região que, desde o século 19, ocupa espaço importante na estratégia internacional de Washington.

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