Demori denuncia cerco dos EUA a Cuba e alerta para guerra de narrativas na América Latina

Jornalista lança documentário Revolução no Escuro e relata escassez de combustível, alimentos e medicamentos em Cuba
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"Os automóveis, no geral, estão todos parados, sem combustível”, contou. Foto: Reprodução/TVT

Cuba atravessa uma das mais graves crises econômicas e sociais de sua história recente, marcada por escassez de combustível, alimentos e medicamentos, apagões frequentes e retração do turismo. É o cenário retratado pelo jornalista Leandro Demori no documentário Revolução no Escuro, lançado nesta quinta-feira (13), que registra os efeitos do bloqueio e das restrições impostas pelos Estados Unidos sobre a economia cubana. Saiba mais na TVT News.

Em entrevista ao TVT News Primeira Edição, Demori relatou o que encontrou durante sua viagem à ilha e afirmou que o agravamento da crise está diretamente relacionado ao chamado bloqueio energético e naval. Segundo o jornalista, a situação chegou a um ponto em que até o transporte aéreo internacional foi afetado pela falta de combustível.

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“Voos muito próximos, Santo Domingo, alguns voos de Miami, Panamá, mas fora isso, voos de lugares um pouco mais distantes não estão chegando no país porque não conseguem abastecer para voltar”, relatou.

Bloqueio amplia crise de combustível e energia

De acordo com Demori, a situação se agravou significativamente nos últimos meses. Ele afirmou que grandes empresas internacionais que atuavam em Cuba, principalmente nos setores de hotelaria e mineração, deixaram o país em meio às novas restrições.

O jornalista também descreveu os efeitos da interrupção das importações. Segundo ele, a dificuldade não envolve apenas produtos considerados supérfluos, mas itens básicos para o funcionamento da economia.

“Você tem uma incapacidade hoje do país, por conta do bloqueio, de fazer importação de qualquer tipo de coisa”, afirmou. A lista, segundo ele, inclui peças, ferramentas, materiais de escritório, alimentos e, principalmente, combustível.

A dependência do petróleo para a geração de eletricidade torna a situação ainda mais grave. Demori descreveu Havana, cidade com mais de 1 milhão de habitantes, como uma metrópole submetida a apagões prolongados.

“A distribuição de água está parada também porque as bombas não conseguem bombear água para a casa das pessoas. Os automóveis, no geral, estão todos parados, sem combustível”, contou.

O problema também atinge a coleta de lixo. No trecho final da entrevista, Demori antecipou imagens do documentário que mostram lixo acumulado no centro histórico de Havana e moradores queimando resíduos diante da dificuldade de funcionamento dos caminhões de coleta.

Escassez de medicamentos

Um dos pontos centrais de Revolução no Escuro é a situação do sistema de saúde e a dificuldade de acesso a medicamentos e insumos hospitalares.

Demori afirmou ter encontrado farmácias populares com prateleiras vazias e relatou que medicamentos passaram a ser procurados no mercado informal. Segundo ele, até fábricas cubanas que anteriormente produziam medicamentos estão enfrentando dificuldades para funcionar porque não recebem os insumos necessários.

“Para recorrer a medicamentos, as pessoas têm que comprar de modo ilegal”, relatou.

O jornalista contou ainda a história de um morador de Havana que atua informalmente como uma espécie de “farmácia ambulante” em frente a um hospital oncológico. Turistas levam medicamentos e materiais hospitalares para Cuba, e parte desses produtos é posteriormente distribuída a famílias que precisam de insumos para tratamentos.

Entre os materiais citados estão luvas cirúrgicas, gazes, agulhas e medicamentos. Demori afirmou que, em determinadas situações, pacientes precisam deixar o hospital para buscar fora os materiais necessários à realização de procedimentos.

Crise não elimina identidade nacional cubana

Apesar da deterioração das condições de vida, Demori afirmou que a população cubana não demonstra disposição majoritária para apoiar uma intervenção militar dos Estados Unidos.

Segundo o jornalista, há críticas ao governo cubano e diferentes posições políticas dentro da sociedade. Entretanto, essas críticas não significam necessariamente apoio à intervenção estrangeira.

“A noção de independência, de liberdade, ela é muito forte mesmo entre os críticos”, afirmou.

Demori relacionou esse sentimento à própria formação histórica de Cuba, anterior à Revolução de 1959. Para ele, a identidade nacional cubana remonta à luta pela independência em relação à Espanha e permanece presente entre setores distintos da população.

O jornalista também destacou que a comunidade cubana nos Estados Unidos está longe de formar um bloco político homogêneo. Segundo seu relato, a ideia de que todos os cubanos que deixaram a ilha apoiam a extrema direita e defendem uma intervenção militar norte-americana seria cada vez menos representativa.

Turismo cubano entra em colapso

Outro setor fortemente atingido é o turismo. Demori lembrou que a atividade havia crescido durante o período de aproximação entre Cuba e Estados Unidos promovido pelo governo de Barack Obama.

Naquele período, Cuba chegou a receber mais de 4 milhões de turistas em um ano, segundo os dados oficiais mencionados pelo jornalista. A pandemia de Covid-19 interrompeu esse fluxo, e a expectativa de recuperação foi posteriormente frustrada pelo endurecimento das políticas de Washington.

Demori descreveu uma Havana com praças vazias, hotéis fechados e ausência dos tradicionais navios de cruzeiro.

“Você não vê um turista caminhando por Havana Vieja. É um negócio realmente triste e impressionante”, afirmou.

A falta de combustível também inviabiliza voos de longa distância. Com isso, a entrada de turistas fica restrita principalmente a trajetos curtos, enquanto hotéis de grandes redes internacionais deixaram de operar.

O impacto, segundo o jornalista, vai além do fechamento dos estabelecimentos. Os hotéis funcionavam também como estruturas de importação de alimentos, equipamentos e outros insumos. Com a saída das empresas, parte desse conhecimento e dessa capacidade logística também deixou a ilha.

Mudanças econômicas e desigualdade

Ao mesmo tempo em que enfrenta o agravamento do bloqueio, Cuba discute mudanças internas em seu modelo econômico. Demori afirmou que a Assembleia Nacional discutia mais de 100 medidas econômicas durante o período em que esteve no país.

Entre as propostas, estão medidas de abertura para capital estrangeiro e ampliação da iniciativa privada em determinadas atividades profissionais.

O jornalista observou, porém, que o processo também produz novas desigualdades. Segundo ele, Cuba começa a apresentar características de uma sociedade de classes mais acentuadas, com grupos que conseguem acessar recursos e importar produtos enquanto grande parte da população enfrenta dificuldades.

“Cuba agora rapidamente está se tornando um país muito parecido com a América Latina no geral, com uma sociedade de classes que não existia antes”, afirmou.

Denúncia de abordagem a jornalistas e influenciadores

Na parte final da entrevista, Demori ampliou a discussão para o cenário político latino-americano. Ele relatou ter denunciado anteriormente abordagens realizadas pelo consulado dos Estados Unidos em São Paulo a influenciadores digitais.

Segundo o jornalista, representantes consulares teriam convidado influenciadores para reuniões sobre liberdade de expressão e liberdade no ambiente digital. Ele afirmou ainda que representantes norte-americanos teriam participado de um evento ligado ao jornalismo investigativo e abordado jornalistas com ofertas relacionadas a vistos, cursos e reuniões nos Estados Unidos.

Demori disse ter identificado uma situação semelhante no México. De acordo com seu relato, um influenciador mexicano teria mostrado publicamente uma abordagem feita pela embaixada dos Estados Unidos com o objetivo de levá-lo para reuniões e discutir o combate a “falsas narrativas”.

O jornalista relacionou os episódios a uma estratégia mais ampla de disputa de narrativas e influência política.

Segundo Demori, documentos vazados mencionados em reportagem do jornal britânico The Guardian indicariam uma orientação do governo norte-americano para que embaixadas abordassem influenciadores e jornalistas em diferentes países.

“O Brasil está sob um cerco”, afirma Demori

Ao concluir a entrevista, Demori apresentou sua interpretação sobre o impacto dessas iniciativas no cenário político latino-americano. Para ele, a disputa por influência não está restrita a Cuba e envolve também o Brasil e outros países da região.

“O Brasil está sob um cerco. Isso está acontecendo a olhos vistos”, afirmou.

O jornalista alertou ainda para a possibilidade de que a disputa em torno das eleições brasileiras seja acompanhada por uma guerra de narrativas sobre a legitimidade do processo eleitoral.

“Estamos a 60 dias das eleições. Para mim, essa é a grande questão do Brasil nesse momento”, declarou.

O documentário Revolução no Escuro busca justamente registrar, a partir das ruas e dos relatos de moradores, os efeitos da crise cubana. Demori afirmou que o primeiro ato seria apresentado em uma transmissão em seu canal no YouTube e que a íntegra do documentário seria disponibilizada posteriormente.

Entre as imagens antecipadas pelo jornalista estão açougues sem carne, farmácias vazias, dificuldade de acesso a medicamentos, lixo acumulado no centro histórico de Havana e moradores queimando resíduos diante da falta de combustível para a coleta.

O trabalho, portanto, coloca no centro do debate não apenas a crise econômica cubana, mas também a disputa geopolítica que envolve a ilha e as relações entre Estados Unidos e América Latina. Para Demori, compreender o que ocorre em Cuba exige observar simultaneamente as dificuldades internas, as escolhas do governo cubano e o impacto das medidas adotadas por Washington.

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