Em julho deste ano, uma professora de uma escola estadual em São José dos Campos, interior de São Paulo, publicou um vídeo em redes sociais denunciando que um aluno colocou vidro em seu copo de água. Em abril, na mesma cidade, uma professora foi chutada após retirar a prova de um aluno de 14 anos por suspeita de cola. Ao cair, a profissional sofreu uma convulsão. Esses são só alguns dos casos de violência contra professores registrados pela imprensa nos últimos meses. Saiba mais em TVT News.
João* é professor da rede pública há mais de 30 anos. Ele relata ter passado por várias situações de ameaças dentro da sala de aula. Uma das ameaças foi por parte da mãe de um aluno que invadiu a escola. “Me ofendeu, me xingava, eu tentando dialogar, explicar que o filho tinha mau comporamento e tinha encaminhado ele para a direção da escola”. No episódio, ele foi ameaçado também pelo pai do aluno, por meio de telefone.
“Senti minha língua enrolar, o braço retorcer, precisei procurar auxílio médico, fui sozinho, não tive o apoio da instituição. Depois registrei boletim de ocorrência. Fui informado pela autoridade policial que os pais do aluno tinham antecedentes criminais […] eu não conseguia dormir, tinha pesadelos, sinto toda aquela dor, tudo aquilo que vivi”, rememorou.
Ele precisou mudar de unidade escolar, mas no novo local, ao tentar mediar um conflito de estudantes do 9° anos, levou uma cadeirada. “Atingiu com força minhas mãos e braços. Foi constatado rompimento no ombro e na mão e, isso tem me causado muita dor e incômodos e me abalado muito emocionalmente”, desabafou. O nervoso pelas agressões causou sequelas em João como pressão alta. “Tive alterações no meu metabolismo, cheguei a perder até a visão”.
Rede de proteção
O secretário de políticas para os trabalhadores da educação do Sindsep (Sindicato dos Servidores Municipais de São Paulo), Maciel Nascimento, afirma que não existe um protocolo estabelecido nas escolas municipais caso o professor seja vítima de violência.
“Há uma ideia de preservação da imagem do professor, da centralidade do território dessa ação educacional, no caso de um município, as Diretorias Regionais de Educação, no caso do estado, que são as Unidades Regionais de Ensino e a gente acaba tocando o processo de forma interna para que isso não amplie”.
Roberto Guido, presidente interino da Apeoesp (Sindicato dos Professores do Estado de São Paulo) concorda. Para ele, o que o governo Tarcísio chama de rede de proteção, não existe. “A gente orienta que se faça boletim de ocorrência, mas a maioria das vezes, nesses casos, o professor ou a professora é desestimulado a fazer porque, o que interessa para a escola, é se apresentar como um paraíso de paz num ambiente de guerra.”
Segundo Guido quando se faz o boletim, ou quando o caso toma proporções maiores por causa da mídia, existe, eventualmente, a transferência do estudante “provavelmente eles vão ser indiciados, ou vão sofrer algum tipo de processo”.
Os tipos de violência são variados. O secretário do Sindsep resgata um exemplo que ficou conhecido no ano passado: um pai rasgou o desenho de um Orixá. A atividade fazia parte das propostas pedagógicas e estava amparada na lei que torna obrigatório o ensino da cultura afro-brasileira e indígena. Após rasgar o desenho, o pai acionou a Polícia Militar que entrou armada na escola acuando profissionais da educação.

Segundo Nascimento, na época, foi feito um debate com a Secretaria Municipal de Educação da cidade de São Paulo e com prefeitura. Em conjunto com os educadores chegou-se a elaborar um protocolo do enfrentamento ao racismo e xenofobia na educação. No entanto, o sindicalista afirma que “nem sempre essa situação ocorre envolvendo a questão étnico-racial”.
João acredita que deveria ter protocolos para proteger o professor e orientá-lo a como proceder em situações com essas, mas denuncia que acontece o contrário. “A atual gestão tem exercido uma política de punição de profissionais que adoecem, muitas vezes são submetidos a uma readaptação e, estão tendo cortes no salário em mais de 30% no momento que mais precisam com gastos com despesas médicas, e sem direito aos prêmios de gratificação.”
Após os casos de violência, ele faz acompanhamento com psicológo e está afastado. “Eu sempre tive paixão pelo meu trabalho, espero em algum momento voltar”, contou.
Tipos de violência
Para Maciel Nascimento o crescimento da violência contra os professores é agravado com o crescimento do fascismo na sociedade. “A violência se dá de várias formas, inclusive, naquele recadinho que o pai coloca no caderno da criança […] há uma atuação silenciosa de assédio sobre esses profissionais que, cada dia mais, estão afastados da questão pedagógica e aproximados das questões tecnológicas, como, por exemplo, preencher relatórios”.
Ainda sobre a violência, que na visão dos entrevistados vem do próprio Estado, recentemente, a Secretaria Municipal de educação autorizou a filmagem de um documentário da produtora conservadora “Brasil Paralelo” dentro da Escola Municipal de Educação Infantil (EMEI) Patrícia Galvão. O documentário questionava, por exemplo, a obrigatoriedade legal da matrícula. “A ação e a violência, por vezes, ela não parte só do pai ou do aluno. A própria secretaria comete diariamente várias violências em relação aos profissionais”, relatou Nascimento.
Já Guido destaca que os professores são cada vez mais submetidos a situações de violência e conflito dentro das escolas. “Muitas vezes essa reprodução da violência social dentro da escola é a forma como o Estado oferece o serviço público como um todo, ao não oferecer condições de trabalho adequada aos professores, não providenciar funcionários na quantidade necessária para dar apoio à ação pedagógica.”
A consequência das diversas violências é que os professores cada vez mais desenvolvem problemas psicológicos como enfermidades como depressão e burnout.
Para o presidente interino da Apeoesp, as escolas reproduzem uma dinâmica em que a comunidade fica afastada e o governo do estado tenta resolver com as propostas de escolas cívico-militares. “São falsas soluções porque objetivam uniformizar as atitudes, quando as pessoas são diferentes, há diferenças de classe, etnia, nacionalidade, gênero.”

Antonio Cruz/ Agência Brasil
Guido critica o aumento da violência no Estado de São Paulo e acredita que isso tem reflexo no âmbito escolar. “Nós temos [violência] nas redes sociais, por isso que é fundamental, que a gente trabalhe pela regulamentação das redes, para que a gente não tenha crianças e adolescentes submetidas a uma violência virtual, e que, muitas vezes, acaba também sendo apresentando no âmbito real.
Faltam registros
O diretor do Sindsep alerta que o registro da violência muitas vezes fica em um livro de comunicado interno na escola. “Não existe um dado que a gente possa acompanhar a partir de um instrumental criado pela secretaria e foi isso que a gente [o Sindsep] propôs que tenha um que tenha um instrumental que saia da unidade escolar, caminhe para a diretoria regional de educação e seja encaminhado à secretaria. A gente precisa levantar esses dados, precisamos saber exatamente em que território essas questões estão acontecendo.”
Prevenção
Nascimento propõe um diálogo institucional com a população usuária. “A prefeitura precisa dialogar, desenvolver campanhas. Hoje me parece que a gente quebrou, inverteu valores, a escola precisa, não só desenvolver o processo pedagógico, mas também desenvolver a discussão de valores. E aí, entra a questão, não é papel da escola discutir valores. Isso precisa vir de casa”.
Ele que também faz parte do Fórum Municipal de Educação acredita que o novo Plano Municipal de Educação precisa discutir a violência nas escolas. “A gente começa a olhar também para os municípios e pensar em estratégias, que venham através de uma lei aprovada, construindo com participação social, com gestão democrática”.
Para Guido, a assistência psicológica não é suficiente e ainda muito precária nas escolas. “ Não é um programa que a gente possa considerar como sério para o tamanho da gravidade do problema que a gente tem e não tem em toda a escola […]” , criticou.
Outro lado
Questionada se existe um protocolo para a violência nas escolas, a SME (Secretaria Municipal de Educação) informou em nota que promeve políticas de prevenção.
“A Secretaria Municipal de Educação (SME) promove uma série de políticas públicas voltadas à prevenção das violências e à promoção da Cultura de Paz nas unidades educacionais. Entre as iniciativas estão o Programa entre Nós: Convivência Ética e Democrática na Escola e na Sociedade, desenvolvido em parceria com a Unicamp, o fortalecimento das Comissões de Mediação de Conflitos (CMCs) e demais ações formativas, realizadas em parceria com instituições como o Instituto Vladimir Herzog.
Em situações de violência contra profissionais da educação, a SME oferece apoio e orienta que o caso seja comunicado à direção da unidade educacional e às respectivas Diretorias Regionais de Educação (DREs), para o devido acompanhamento e adoção das providências cabíveis. Nos casos que possam configurar crime, a orientação é também acionar as autoridades policiais e registrar Boletim de Ocorrência.
As unidades educacionais contam ainda com o suporte das DREs, do Núcleo de Apoio e Acompanhamento para a Aprendizagem (NAAPA), composto por psicólogos e psicopedagogos, do Gabinete Integrado de Proteção Escolar (GIPE) e do Comitê de Proteção Escolar.
Em complemento às ações da SME, a Secretaria Municipal de Gestão disponibiliza o Programa de Orientação e Proteção em Saúde Mental dos Servidores (REDE SOMOS), voltado à promoção e à proteção da saúde mental dos servidores públicos municipais. O programa acolheu 887 servidores em 2025 e 2026 e realizou 2.753 ações de promoção à saúde, incluindo reuniões, palestras, lives temáticas e contatos com a rede pública para atendimento. Atualmente, são 370 interlocutores distribuídos pelas Secretarias e Subprefeituras.”
Já a Secretaria Estadual de Educação afirmou que acompanha a rotina das escolas pelo “Programa para Melhoria da Convivência e Proteção Escolar”.
“A Secretaria da Educação do Estado de São Paulo (Seduc-SP) acompanha diariamente a rotina das escolas estaduais por meio do Programa para Melhoria da Convivência e Proteção Escolar (Conviva-SP), o qual atua no monitoramento, gestão e integração de ocorrências e ações de prevenção à violência nas escolas da rede estadual.
As estratégias da pasta estão amparadas no Protocolo Conviva 179, que estabelece uma série de iniciativas na gestão de riscos e orienta as direções e coordenações escolares na condução de cada caso. O documento contextualiza a atuação dos Professores Orientadores de Convivência, responsáveis pela mediação de conflitos diários nas unidades, e dos profissionais do Programa Psicólogos nas Escolas.
A atuação da Secretaria de Segurança Pública (SSP) é parte integrante dos esforços por mais segurança nas escolas. A qualquer momento, as escolas podem solicitar reforço da Ronda Escolar para realizar a segurança no perímetro das unidades e auxiliar na mediação de ocorrências na parte interna.
Por meio do Programa Viva Bem, a Seduc-SP disponibiliza atendimento on-line com psicólogos e psiquiatras aos servidores da rede, reforçando o compromisso da Secretaria com a valorização dos profissionais da educação, a promoção da cultura de paz e a construção de um ambiente cada vez mais seguro para toda a comunidade escolar.”
*nome fictício, pois a vítima preferiu não se identificar
Você também pode se interessar
- Reportagem revela novos repasses de Vorcaro e contradições no financiamento de filme sobre Bolsonaro
- Alcolumbre relembra caso Dark Horse ao falar sobre Vorcaro