O levantamento mais recente do Datafolha mostra um empate técnico entre os candidatos à Presidência da República Lula e Flávio Bolsonaro. O resultado ocorre em meio a acontecimentos que movimentaram o cenário político, como as investigações envolvendo Lulinha, filho do presidente; as revelações sobre o caso do Banco Master; e, mais recentemente, a crise instaurada no Supremo Tribunal Federal (STF). Mais informações em TVT News.
A cada novo fato político, envolvendo direta ou indiretamente os candidatos, as pesquisas ajudam a indicar como o eleitorado recebe essas informações e de que maneira elas podem repercutir na decisão de voto.
Afinal, o que os levantamentos de intenção de voto revelam sobre a corrida eleitoral deste ano? A TVT News conversou com Franciel Cruz, jornalista, cronista e apresentador da irreverente Live das Canjebrinas. Para ele, a grande quantidade de pesquisas, em vez de apenas medir a temperatura da disputa ou retratar o cenário do momento, tem produzido aquilo que costuma chamar de “caosfonia”: uma mistura de caos com cacofonia.
Entrevista
TVT: No levantamento mais recente do Datafolha, o candidato do Avante, Augusto Cury, foi a grande surpresa, ao subir de 2% para 8%. A que você atribui esse avanço?
Franciel Cruz: Essa semana nós tivemos a Quest também. Na Quest, o candidato, o Cury, sobe oito pontos. Acontece que, desses oito pontos, sete ele tira do balaio da extrema direita ou da direita, ele tira três de Caiado na Quest, três de Flávio, um de Renan, um de Zema. Então, quando você vai ver todo e, enfim, sai um também dos indecisos, nulos e tal.
TVT: E quanto à queda de Lula?
Franciel Cruz: Então, eu vi muita gente alvoroçada, mas se você for pegar, tanto no Datafolha quanto na Quest, que são as duas últimas pesquisas, o Lula oscila, que é uma oscilação normal de um ponto. Então, se alguém ganha seis em uma pesquisa ou oito, tem que saber de onde vieram esses votos, se vieram do mesmo balaio. Estou vendo muito alvoroço em relação a isso, é um alvoroço que eu entendo como descabido, porque, se ele estivesse tirando votos de Lula, aí tudo bem, aí seria um motivo, mas não há. Não se considera em pesquisa nem em queda, porque a pesquisa que tem menos margem de erro, que era a Atlas, por exemplo, é 1% ou 2%.

TVT: Pesquisas como as da AtlasIntel e da Quaest também apresentam cenários regionalizados e apontam para uma polarização ainda muito presente, com Lula vencendo com folga no Nordeste, por exemplo, e Flávio em vantagem no Sul e no Sudeste. Que conclusão podemos tirar desses resultados? O cenário político ainda é semelhante ao de 2018 ou ao de 2022?
Franciel Cruz: Então, eu acho que do ponto de vista estritamente eleitoral, sim, há um quadro parecido, apesar de ter uma recuperação de Lula, especialmente na região sudeste, por enquanto, pelo menos é o que demonstram as pesquisas. Então, Lula tem o melhor desempenho hoje em São Paulo do que teve em 2022, pelo menos até agora. Mas é o seguinte: esta é a eleição que Lula tem a maior possibilidade de ganhar no primeiro turno, apesar de ser uma eleição muito dura não pelo adversário, porque Flávio é muito fraco do ponto de vista de carisma, de qualquer coisa. Só que não é Flávio que está jogando. Quem está jogando é uma naco grande do PIB, é as organizações Globo e o restante da mídia hereditária, mas especialmente capitaneada pela Rede Globo, como nunca fez na história, né?
TVT: Franciel, como você avalia a metodologia das pesquisas? Você citou a AtlasIntel, que, em junho, questionou os eleitores sobre o áudio de uma conversa entre Flávio Bolsonaro e Daniel Vorcaro. A abordagem gerou uma série de dúvidas sobre se a pergunta havia sido formulada de maneira adequada.
Franciel Cruz: Olha que eu não sou negacionista de pesquisa, não é essa história. É de saber que os jornais, os portais passaram a ser dominados por instituições financeiras e atualmente não são mais. As pesquisas agora estão coladas ao sistema financeiro. Você tinha o Ibope, que era contratado pela Rede Globo, tinha o Datafolha, que era contratado pelo Jornal Folha de São Paulo. Você tem a pesquisa Real Time, Btg Pactual, banco. Você tem a pesquisa são pesquisas ligadas ao sistema financeiro. Em relação à Atlas, mas essa pesquisa específica, eu não a colocaria como enviesada, porque essa pergunta, ela é só foi feita depois de todas as outras perguntas, como eles colocaram depois, não tem como estar induzindo o entrevistado desse ponto de vista. Outra questão é que Ah, pesquisa não é só retrato, é uma tendência. Você tem que olhar a tendência e tem que olhar o retrato daquele momento tal e analisando a tendência. Então não é como eh burramente o presidente do do TSE, né? Cássio Concá Nunes queria premiar as pesquisas que mais acertasse. Isso é uma idiotice fora do comum.
TVT: E quanto ao caso do Banco Master? Houve diversas tentativas de associá-lo a Lula. Você acredita que esse escândalo ainda pode prejudicar a campanha?
Franciel Cruz: Eu costumo brincar que eu trabalho de pedreiro, então eu entendo que tudo é construção na vida. (O caso Master) foi tratado de uma forma extremamente leviana num dos canais das organizações Globo (Globonews), que foi a história do PowerPoint que as pessoas já esqueceram. Colocaram a foto de Vorcaro e a sigla do PT, Galípolo, Guido Mantega e Lula. Não tem Flávio lá, não tem Bolsonaro lá. A única figurinha que está sobreposta é de Lula. Que não tinha e não tem nada a ver com a história. E aí a campanha seguia polarizada eleitoralmente, Lula um pouquinho na frente, no primeiro turno e empatado, no segundo. Até que, até que chega o Intercept e diz: “Ó, nós temos aqui uma brincadeirinha de Flávio”. Pronto. Mas agora isso tudo foi esquecido. Agora resta à campanha de Lula saber como agir e ir para o enfrentamento.
TVT: Agora vamos falar de outro candidato que também tem ganhado destaque: Renan Santos, do Missão. Ele desempenha um papel semelhante ao do Padre Kelmon em 2022, como uma figura jocosa da disputa?
Franciel Cruz: Eu vou discordar um pouco de ti para dizer que ele não é uma figura engraçada, porque o Padre Kelmon seria uma figura folclórica apenas, por mais barbaridade que dissesse, não era tão perigosa quanto esse cidadão. Porque esse cidadão, ele vocaliza o que há de mais nefasto na sociedade. São pautas de uma crueldade fora do comum. Porque a partir do momento que ele diz que vai dar um banho de sangue e aponta para a favela, ele está pregando uma guerra contra os pobres literalmente, mas não para o crime organizado. O crime organizado tá na Faria Lima, em nenhum momento ele disse que ia chegar atirando na Faria Lima. O projeto dele é de desestabilização. Então, eu acho de uma gravidade muito maior do que o padre Kelmon.
TVT: E quanto à recusa de Lula e Flávio em participar dos debates do primeiro turno? Como você avalia essa estratégia?
Franciel: Não é uma novidade. Fernando Henrique não participou, Lula não participou de debates nas eleições passadas. Do ponto de vista da história das eleições no Brasil, ele (debate) perdeu muito a relevância, porque a gente ficava esperando, o país ficava esperando o debate para saber o que ia acontecer. Só que o debate virou uma esculhambação para dizer o mínimo, né? Você tem cadeiras voando, você tem padre fantasiado, não sei o quê. Então virou uma desmoralização desse instituto do debate. Então eu não vejo que tenha prejudicado em nada não (a ausência de Lula), mas eu acho que no último debate que é o da Rede Globo, eu creio que todos irão, porque quem não for, pode perder a possibilidade de ganhar, no caso de Lula, no primeiro turno, ou no caso perder no primeiro turno se Flávio por acaso não for, né? Então eu continuo afirmando: o governo Lula está num momento ruim, mas ainda falta um mês, exatamente um mês para a eleição. Muita coisa ocorre nesse período e as pessoas têm que parar de se guiar pelo que eu chamo de Esquerda Ibis. Ibis, para quem não sabe, é um time de Pernambuco que fica louvando toda vez que perde. “Oh, que maravilha, a gente perdeu”. Aí eu digo que tem Esquerda Ibis, que é aquela que tem tesão pela derrota. Não pode ser uma pesquisa com a situação de um ponto que diz: “Ai meu Deus, o mundo acabou, não tem mais jeito “. Se você pegar no último ano ou até nos últimos 6 meses, é esse o quadro, não houve grandes modificações. Tá a mesma coisa e Lula continua ali com índice de intenção de voto espontâneo muito alto, com quase 10 pontos de frente. E uma coisa que eu queria sublinhar é o seguinte também: mas e o segundo turno? Não existe segundo turno, se não existir o primeiro. E quem ganha no primeiro desde a maldita redemocratização não é o segundo.