Um levantamento que acompanhou as finanças de pessoas que começaram a apostar nas famigeradas bets identificou um aumento da inadimplência e redução do acesso ao crédito com o uso frequente dos jogos. Mais informações em TVT News.
A pesquisa comparou consumidores que fizeram a primeira aposta depois de janeiro de 2025, quando entrou em vigor a regulamentação do setor no Brasil, com pessoas de perfil semelhante que ainda não haviam utilizado plataformas de apostas.
Nos 12 meses seguintes à primeira aposta, a proporção de inadimplentes ficou, em média, 20% maior entre os apostadores, considerando a evolução registrada no grupo que não apostava.
O impacto também apareceu nas faturas de cartão de crédito. No primeiro ano após o início das apostas, a parcela da fatura em atraso cresceu, em média, 38,7%, descontada a variação observada entre os não apostadores.
Dados bancários identificam impacto das apostas
O artigo “Online Betting and Financial Distress: Evidence from Brazil”, ainda não publicado em revista científica, foi elaborado por pesquisadores do Insper e da Stone, empresa do ramo financeiro, utilizou informações de movimentações bancárias de milhões de clientes. Os dados permitiram identificar transferências via Pix destinadas a sites de apostas, a data da primeira transação e as mudanças nas finanças dos usuários.
A metodologia também considerou padrões como pequenos pagamentos recorrentes para os mesmos CNPJs que, através de cruzamentos de dados, foi possível identificar transferências tanto para plataformas autorizadas quanto para sites ilegais.

O levantamento mostra que um em cada dez apostadores destina mais de 20% de todo o dinheiro movimentado da conta bancária no mês às bets. Esse nível de gastos já é capaz de comprometer boa parte do orçamento doméstico, reduzindo a capacidade de honrar despesas e dívidas.
Bancos reduzem crédito de apostadores
Outro resultado identificado no estudo foi a diminuição do crédito oferecido pelas instituições financeiras. Depois de começarem a apostar, os usuários sofreram redução média de 16% no limite de empréstimos disponível, já descontada a evolução geral da oferta de crédito para quem nunca apostou.
Para se ter uma ideia, essa perda é próxima a de trabalhadores demitidos em processos de desligamento coletivo, que sofrem perda de aproximadamente 20% no limite do cartão de crédito.
O dado sugere, portanto, que as instituições financeiras conseguem, através dos hábitos de gastos, identificar o quanto de recursos a pessoa dispões para as apostas e, munidas dessas informações, diminuem a oferta ao crédito e, consequentemente, à exposição ao risco de inadimplência.
Jovens podem sofrer impacto maior das bets
Os clientes da Stone analisados no levantamento são, em média, mais velhos do que o perfil predominante dos apostadores brasileiros. Levando esse dado em consideração, os efeitos verificados podem ser ainda maiores no conjunto da população.
A pesquisa identificou que os jovens comprometem uma parcela maior do orçamento com apostas e são mais impactados pela inadimplência.
Os pesquisadores ponderam, no entanto, que idade, renda e histórico de crédito influenciam os hábitos de consumo. Quem tem mais até pode gastar mais, mas quem tem menos, sofre mais os impactos das apostas.
Maioria perde dinheiro nos primeiros meses
O estudo também revela (o que parece óbvio, mas muitos influenciadores patrocinados por bets tentaram convencer do contrário) que a maior parte dos usuários não recebe retorno financeiro das plataformas. Nos primeiros seis meses após o início das apostas, 82,5% não conseguiram recuperar o dinheiro perdido com as bets.
No mesmo período, 90,8% perderam mais dinheiro em apostas do que receberam de volta.
A pesquisa encontrou ainda uma relação contraditória: pessoas que já enfrentavam dificuldades financeiras apresentaram maior probabilidade de começar a apostar. O resultado indica que, em alguns casos, os jogos são utilizados como tentativa de obter renda ou superar dívidas anteriores.
Com cerca de 25 milhões de brasileiros utilizando essas plataformas, de acordo com dados do Ministério da Fazenda, os efeitos sobre inadimplência, renda e acesso ao crédito podem alcançar passar do individual para uma dimensão mais ampla. O avanço das apostas ocorre em um cenário no qual o endividamento e o comprometimento da renda das famílias estão em patamares elevados no país.
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