STF pode interferir em uma decisão que é prerrogativa do presidente?

Entenda os limites entre os Poderes com a escalada da crise no STF e pedido de afastamento do diretor-geral da PF
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Fachin (à esquerda, de óculos escuros), ao lado de Alcolumbre e Presidente Lula, no desfile de 7 de setembro. República é mantida pelo sistema de freios e contrapesos dos 3 poderes - Foto: Rosinei Coutinho/STF

A decisão do ministro André Mendonça, do Supremo Tribunal Federal (STF), de afastar preventivamente o diretor-geral da Polícia Federal, Andrei Rodrigues, abriu uma nova discussão jurídica em Brasília: até onde pode ir o Supremo quando uma decisão judicial interfere em uma atribuição que a Constituição reserva ao presidente da República?

A Advocacia-Geral da União (AGU) anunciou que pretende recorrer da decisão sob o argumento de que o afastamento, determinado de forma monocrática, teria avançado sobre uma competência privativa da Presidência da República. A nomeação e a exoneração do diretor-geral da Polícia Federal são atribuídas ao chefe do Executivo.

O episódio reacende uma questão mais ampla sobre a separação dos Poderes: um ministro do STF pode determinar o afastamento de uma autoridade cuja nomeação e exoneração são atribuições do presidente? Em quais situações uma decisão judicial pode limitar um ato do chefe do Executivo? E onde está o limite entre o controle judicial e a autonomia dos demais Poderes?

Para a criminalista Lorena Pontes, do Durão, Almeida & Pontes Advogados Associados (DAP Advocacia), o ponto central da discussão é diferenciar a competência do Judiciário para controlar a legalidade de atos administrativos da possibilidade de substituir uma decisão que a Constituição atribui especificamente ao chefe do Executivo.

“O fato de uma determinada nomeação ou exoneração ser uma prerrogativa do presidente não significa que esse ato esteja imune ao controle judicial. O Judiciário pode analisar a legalidade, a constitucionalidade e eventuais abusos. A questão mais delicada é saber até onde esse controle pode chegar sem que o Judiciário passe a exercer uma competência que a Constituição atribuiu a outro Poder”, explica.

STF pode afastar uma autoridade escolhida pelo presidente?

A discussão não significa que atos presidenciais estejam acima da Justiça. A Constituição estabelece competências próprias para cada Poder e, ao mesmo tempo, permite mecanismos de controle destinados a impedir abusos ou ilegalidades.

O artigo 84 da Constituição lista atribuições privativas do presidente da República, enquanto o artigo 102 estabelece a competência do STF como guardião da Constituição.

Por isso, segundo Lorena, é necessário analisar o fundamento da decisão judicial.

“É preciso diferenciar duas situações. Uma coisa é o Judiciário reconhecer que determinado ato praticado por uma autoridade pública viola a Constituição ou a lei e, dentro de sua competência, determinar uma medida para fazer cessar essa ilegalidade. Outra é o Judiciário substituir diretamente uma escolha que a Constituição reservou ao chefe do Executivo. É justamente nessa fronteira que está a discussão jurídica mais relevante”, afirma.

Decisão de ministro do Supremo que afastou diretor-geral da Polícia Federal reacende debate sobre até onde o Judiciário pode avançar sobre atribuições exclusivas do chefe do Executivo

No caso da direção-geral da Polícia Federal, a controvérsia ganhou força porque a AGU pretende sustentar que a decisão de afastamento teria interferido diretamente na competência presidencial para nomear e exonerar o chefe da corporação.

O controle judicial tem limites?

Para a criminalista Amanda Guimarães, do Durão, Almeida & Pontes Advogados Associados, o controle exercido pelo Judiciário é essencial para garantir que autoridades públicas atuem dentro da lei, mas precisa observar os limites constitucionais e as garantias do devido processo.

“O controle judicial é uma ferramenta fundamental do Estado Democrático de Direito, inclusive quando envolve atos praticados por autoridades do Executivo. Mas esse controle precisa estar amparado em fundamentos jurídicos concretos e respeitar as competências estabelecidas pela Constituição. Uma decisão judicial não pode ser analisada apenas pelo resultado que produz; é necessário verificar também se o procedimento adotado e os fundamentos utilizados estão dentro dos limites legais”, afirma Amanda.

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Os 3 poderes: PGR, Paulo Gonet; Presidente da Câmara, Hugo Motta e presidente da República, Lula. Foto: SEAD/PR

Segundo a advogada, a discussão também envolve a necessidade de evitar que medidas excepcionais sejam utilizadas sem uma fundamentação proporcional à gravidade de seus efeitos.

“Quando uma decisão judicial interfere diretamente no exercício de uma função pública, especialmente em uma estrutura ligada a outro Poder, é necessário observar critérios como fundamentação, necessidade e proporcionalidade. Quanto maior o impacto institucional da medida, maior deve ser o cuidado na demonstração de sua base jurídica”, acrescenta.

Decisão monocrática aumenta a discussão

Outro ponto que chama atenção no caso é o fato de a determinação ter sido tomada individualmente por um ministro do STF.

Isso não significa, por si só, que uma decisão monocrática seja inválida. Ministros possuem hipóteses legais e regimentais para tomar decisões individuais. A questão é saber se, naquele caso específico, estavam presentes os requisitos para uma intervenção judicial dessa natureza e se a medida respeitou os limites da competência do Supremo.

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Chefes regionais da PF colocam cargos à disposição em reação ao afastamento do diretor-geral determinado pelo ministro André Mendonça. Foto: José Cruz/Agência Brasil

Para Amanda Guimarães, a análise deve considerar também os efeitos da decisão sobre os envolvidos e sobre as próprias instituições.

“Em matéria criminal e constitucional, especialmente quando estão em jogo autoridades públicas, é fundamental que a análise jurídica não seja substituída por conclusões antecipadas. A existência de uma investigação, de uma suspeita ou de uma controvérsia não significa, automaticamente, que qualquer medida restritiva esteja autorizada. Cada providência precisa encontrar respaldo no ordenamento jurídico e respeitar as garantias fundamentais”, avalia.

Onde termina o poder do STF e começa a prerrogativa do presidente?

O caso coloca em evidência um dos principais desafios do sistema de freios e contrapesos brasileiro: nenhum dos Poderes atua de maneira absolutamente isolada, mas também não pode simplesmente absorver as competências constitucionais dos demais.

O Judiciário pode controlar atos do Executivo quando houver fundamento jurídico para isso. Ao mesmo tempo, o presidente possui competências próprias que não podem ser afastadas sem uma justificativa constitucional ou legal adequada.

Para Lorena Pontes, o equilíbrio entre essas atribuições é justamente o ponto central da discussão.

“A discussão não deve ser tratada como uma disputa sobre quem tem mais poder. O ponto jurídico é identificar qual Poder recebeu determinada competência e em quais circunstâncias a Constituição permite que outro Poder intervenha. É esse equilíbrio que sustenta a separação dos Poderes e evita tanto a ausência de controle quanto a concentração indevida de autoridade”, conclui.

Amanda Guimarães reforça que a análise deve ser feita a partir das garantias previstas no próprio ordenamento jurídico.

“A independência entre os Poderes não significa ausência de fiscalização, assim como o poder de fiscalização do Judiciário não significa liberdade para ultrapassar qualquer limite. O sistema constitucional foi construído justamente para permitir controles recíprocos, mas sempre dentro das competências e garantias previstas em lei”, conclui.

O episódio envolvendo o comando da Polícia Federal, portanto, vai além da situação individual do diretor-geral. A discussão pode estabelecer parâmetros sobre os limites da atuação do STF diante de atos que integram as competências constitucionais do presidente da República.

Diretores da PF colocam cargos à disposição em apoio a Andrei Rodrigues

Os diretores da Polícia Federal manifestaram, por meio de uma nota, total apoio ao diretor-geral afastado Andrei Rodrigues e colocaram seus cargos à disposição para o delegado William Marcel Murad, que assumiu como diretor-geral substituto. O comunicado foi divulgado nesta terça-feira (8), algumas horas depois da decisão do ministro do Supremo Tribunal Federal André Mendonça que determinou o afastamento de Rodrigues. Leia em TVT News.

Leia a íntegra do comunicado dos Diretores da PF

Os Diretores da Polícia Federal vêm a público expressar seu total apoio ao Diretor-Geral, Delegado de Polícia Federal Dr. Andrei Rodrigues, e ao seu Diretor de Inteligência, Delegado de Polícia Federal Dr. Leandro Almada, diante dos injustificados ataques sofridos pela Polícia Federal na data de hoje.

Da mesma forma como a Instituição Polícia Federal tem, em sua história e feitos, a razão de sólida admiração dos brasileiros, o Dr. Andrei também conta com um percurso profissional dedicado à defesa da PF, com atuação técnica, isenta e responsável.

arrativas marcadamente influenciadas por interesses político-eleitorais não têm o poder de apagar a história, a reputação e a trajetória profissional de quem quer que seja.

Assim, cumprindo nosso dever de defender a Instituição de ataques e tentativas de usurpação de funções, e assegurando o interesse público na manutenção de uma Polícia Federal capaz de promover justiça e assegurar o Estado Democrático de Direito, tornamos público nosso apoio aos diretores.

Para que fique absolutamente claro, repudiamos toda e qualquer tentativa de imputar a eles ou à Polícia Federal uma atuação não republicana. Tais acusações, desprovidas de fundamento, afrontam a história, a credibilidade e o compromisso institucional que sempre pautaram suas condutas. Neste ato, colocamos nossos cargos à disposição do Diretor-Geral substituto.

Assinam a nota:

  • Dennis Cali, diretor de Investigação e Combate ao Crime Organizado e à Corrupção (Dicor/PF);
  • Fabrício Schommer Kerber, diretor de Polícia Administrativa (DPA/PF);
  • Otavio Margonari Russo, diretor de Combate a Crimes Cibernéticos (DCiber/PF);
  • Felipe Tavares Seixas, diretor de Cooperação Internacional (DCI/PF);
  • Helena de Rezende, diretora de Gestão de Pessoas (DGP/PF);
  • Roberto Reis Monteiro Neto, diretor Técnico-Científico (Ditec/PF);
  • André Luis Lima Carmo, diretor de Administração e Logística (Dlog/PF);
  • Christiane Correa Machado, diretora de Ensino da Academia Nacional de Polícia (Diren-ANP/PF);
  • Alexsander Castro de Oliveira, diretor de Proteção à Pessoa (DPP/PF);
  • Ademir Dias Cardoso Júnior, diretor de Tecnologia da Informação e Inovação (DTI/PF);
  • Humberto Freire de Barros, diretor da Amazônia e Meio Ambiente (Damaz/PF).

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