Flávio Bolsonaro mira modelo econômico de Milei apesar de crise e desemprego na Argentina

Coordenadora econômica da campanha defende redução de impostos e gastos públicos inspirada nas medidas adotadas pelo presidente argentino
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Fundação anunciou suspensão de 'assistência climática' após declarações do presidente Javier Milei durante a convenção partidária do PL. Foto: Reprodução/Redes sociais

A campanha de Flávio Bolsonaro (PL) para a Presidência da República pretende buscar referências na política econômica adotada pelo presidente argentino Javier Milei, apesar dos efeitos sociais e econômicos negativos provocados pelo processo de ajuste adotado no país vizinho. Leia em TVT News.

A estratégia que inclui redução de gastos públicos, desregulamentação, revisão de impostos e uma forte redução da máquina pública, foi apresentada por Daniella Marques, coordenadora econômica da campanha e ex-presidente da Caixa Econômica Federal durante o governo Jair Bolsonaro.

Segundo ela, o modelo implementado na Argentina serve de inspiração para propostas que o grupo pretende levar ao Brasil.

Durante evento do grupo Esfera, na segunda-feira (14), Daniella afirmou que a equipe de Flávio trabalha na elaboração de medidas para revogar normas e reduzir impostos criados ou elevados durante a gestão do ex-ministro da Fazenda Fernando Haddad. De acordo com a assessora, já foram identificadas mais de mil normas que poderiam ser retiradas.

“Flávio fez uma orientação para a equipe, para a gente trabalhar na revogação e voltar atrás em todos os impostos criados ou elevados pelo Haddad. Já temos mais de mil normas mapeadas para revogar, usando um pouco de inspiração no que foi feito no governo Milei na Argentina”, afirmou.

A assessora também classificou a experiência argentina como referência para a redução da burocracia e dos impostos. “Milei é um ótimo exemplo em termos de voltar a ter capacidade de investimento e redução de burocracia e impostos”, declarou.

Modelo argentino combina queda da inflação e aumento do desemprego

Javier Milei assumiu a Presidência da Argentina em dezembro de 2023 e colocou em prática uma agenda econômica baseada em reformas liberais, redução do gasto público, desregulamentação, abertura comercial e redução de subsídios.

Entre os resultados apontados no material divulgado sobre o período estão a desaceleração da inflação e a redução da taxa de pobreza. A pobreza teria recuado de 42% em 2023 para 32%. Ao mesmo tempo, porém, a economia argentina passou por um período de estagnação e o desemprego aumentou.

Os efeitos das medidas também aparecem no setor produtivo. A indústria argentina enfrenta maior concorrência internacional após a abertura comercial, enquanto a redução da demanda interna afeta empresas e trabalhadores.

O segundo texto-base descreve uma situação de forte pressão sobre a economia real. A queda da inflação, embora tenha sido apresentada como resultado positivo da política econômica, ocorre em meio à retração do consumo. Empresários locais, segundo o material, resumem a situação com a afirmação de que “não há inflação porque não há compras”.

A redução do consumo teria alcançado até produtos básicos de higiene, enquanto a perda de postos de trabalho passou a ocupar espaço entre as principais preocupações da população.

Austeridade atinge mercado de trabalho e indústria

A política de ajuste fiscal implementada pelo governo Milei também é associada, no material-base, à redução de subsídios e à abertura da economia para produtos estrangeiros. O processo trouxe impactos para a indústria argentina, com empresas reduzindo turnos de produção ou encerrando atividades.

Desde o início do ciclo de ajustes, mais de 240 mil postos de trabalho com carteira assinada teriam sido eliminados no setor privado, com forte impacto sobre a indústria manufatureira.

O governo argentino mantém a defesa do superávit fiscal como eixo da política econômica. A equipe liderada pelo ministro da Economia, Luis Caputo, sustenta que o equilíbrio das contas públicas deve ser preservado e que o custo do ajuste atual seria necessário para a construção de uma economia mais estável no futuro.

A estratégia, entretanto, produz efeitos distintos entre os indicadores macroeconômicos e as condições enfrentadas por trabalhadores e consumidores. A desaceleração dos preços convive com menor consumo, fechamento de empresas e aumento do desemprego.

Pobreza e serviços públicos pressionam a população

Os efeitos sociais do ajuste também são destacados no material. Dados referentes ao primeiro semestre apontam que aproximadamente um terço da população urbana argentina permanecia em situação de pobreza, enquanto quase 1 milhão de pessoas teriam sido levadas à indigência.

Entre os fatores citados está o aumento das tarifas de serviços públicos, como energia elétrica, água e transporte. O reajuste desses serviços pesa diretamente sobre o orçamento das famílias e ocorre em paralelo às mudanças promovidas pelo governo na estrutura de subsídios.

O próprio Milei teria classificado o cenário social recente como “horrível”, embora mantenha a defesa de que as mudanças adotadas apontam para uma recuperação estrutural da economia.

Flávio também defende redução de gastos no Brasil

A proposta apresentada pela campanha de Flávio Bolsonaro prevê, segundo Daniella Marques, um ajuste fiscal que permita a redução dos juros no Brasil. A equipe pretende enxugar a máquina pública e reduzir privilégios tributários, mas afirma que os programas sociais não seriam alvo de cortes.

A assessora disse que os técnicos da campanha apresentarão alternativas ao Congresso Nacional, a quem caberia discutir e decidir sobre as medidas.

Entre as propostas mencionadas estão a retomada do Imposto sobre Operações Financeiras (IOF) ao patamar de 2022 e o fim do imposto de exportação sobre petróleo.

Flávio também já apresentou a ideia de um amplo processo de revisão de normas, chamado pela campanha de “revogaço”, além de defender um programa de privatizações. Entre as empresas citadas está os Correios. O pacote de redução de despesas públicas foi associado ao termo “tesouraço”, em referência à “motosserra” utilizada por Milei como símbolo de seu programa de cortes.

Em discursos realizados em junho, Flávio chegou a afirmar que os brasileiros teriam a “esperança de terminar como a Argentina está hoje”.

Experiência argentina divide indicadores econômicos e realidade social

A experiência argentina apresentada como referência pela campanha de Flávio combina resultados distintos. De um lado, a inflação apresentou forte desaceleração e houve redução da taxa de pobreza em determinados períodos. De outro, o país enfrenta problemas relacionados ao emprego, ao consumo, à atividade industrial e às condições de vida de parte da população.

O material-base também aponta desgaste político de Milei. Pesquisas de opinião mencionadas nos textos indicam desaprovação de cerca de 60% ao desempenho do governo argentino, em um contexto de pressão sobre a população trabalhadora.

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