A “Joia da Coroa” sobre escombros: como o novo Sesc esconde uma história de remoções no centro de SP

São Vito e Mercúrio foram demolidos após a retirada das famílias; Prefeitura afirma que ofereceu alternativas aos moradores
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O Sesc Dom Pedro II repousa sobre os escombros dos dois edifícios mais icônicos do centro de São Paulo, símbolos da falta de moradia. — Foto: UNA barbara e valentim/Divulgação

Durante décadas, os edifícios São Vito e Mercúrio fizeram parte da paisagem do Parque Dom Pedro II, no centro de São Paulo. Eram prédios degradados, com problemas estruturais, mas também cumpriam uma função cada vez mais rara na região: ofereciam moradia acessível perto de empregos, transporte público e equipamentos urbanos. Mais informações em TVT News.

Nos anos 2000, centenas de famílias foram retiradas dos imóveis com a promessa de revitalização, mas os dois edifícios acabaram demolidos entre 2010 e 2011. Mais de duas décadas depois do início das remoções, uma nova unidade do Sesc será inaugurada em breve, em uma região profundamente redesenhada pelo poder público a base de expulsões e da velha higienização do centro expandido.

Uma cidade dentro de um edifício

Projetado pelo engenheiro Aron Kogan e construído na década de 1950, o São Vito chegou a reunir cerca de 600 quitinetes distribuídas por mais de 20 andares. No térreo e na sobreloja funcionavam estabelecimentos comerciais. Na cobertura, um amplo salão chegou a receber festas e apresentações artísticas.

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Vista aérea do Vale do Anhangabaú. – Foto: Werner Haberkorn/Fotolabor/Museu Paulista da USP

Vizinho ao Mercadão e próximo ao terminal Parque Dom Pedro II, o edifício abrigava trabalhadores do comércio popular, ambulantes, aposentados e famílias que dependiam da localização para trabalhar e acessar melhores aparelhos públicos.

Ao longo do tempo, a falta de manutenção, dívidas e a deterioração das instalações elétricas e das áreas comuns transformaram o prédio em símbolo do abandono do centro.

A degradação, porém, não ocorreu no vazio. Ela também expôs a ausência de uma política permanente para recuperar edifícios residenciais ocupados por famílias de baixa renda e enfrentar o enorme déficit habitacional que a capital enfrenta.

O São Vito passou a ser chamado de “treme-treme” e frequentemente retratado apenas como problema de segurançdegradação ou criminalidade. Estudo acadêmico sobre o caso aponta que a estigmatização pública do prédio e de seus moradores contribuiu para legitimar a demolição.

A Prefeitura afirma, por outro lado, que o São Vito e o Mercúrio foram demolidos “em razão de comprometimentos estruturais graves” e que essa situação impossibilitava a permanência das famílias.

Projeto de reforma abandonado

Em 2004, durante a administração Marta Suplicy, as últimas famílias deixaram o São Vito. Naquele período, foi apresentado um projeto de recuperação do edifício, com reorganização das unidades residenciais e possibilidade de retorno ou aquisição dos apartamentos por antigos moradores.

A reforma representava uma alternativa à lógica de afastar a população de baixa renda do centro. A região já possuía transporte, hospitais, escolas, comércio e oferta de empregos — infraestrutura que custa caro reproduzir nos bairros periféricos.

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O edifício São Vito costumava ser apontado como um dos piores endereços da cidade, sendo popularmente conhecido como sua “maior favela vertical”. – Foto: Creative Commons

Com a mudança de gestão municipal, o projeto de recuperação foi descartado. As administrações José Serra e Gilberto Kassab sustentaram que reformar o São Vito seria mais caro do que demolir o prédio.

Os moradores dos dois edifícios alegam que a remoção foi forçada e violenta, além disso, muitos nunca receberam apoio do poder público. Muito pouco foi oferecido, como auxílio aluguel e indenizações que não chegavam a R$ 10 mil, valor insuficiente para dar entrada em um imóvel próprio.

Cláudia Márcia Alves, técnica de enfermagem, era moradora do São Vito e possuía contrato de compra do imóvel. Quando ocorreu a remoção, seus filhos eram pequenos e hoje, já têm mais de 20 anos. Atualmente, com 59 anos, Cláudia não vê mais perspectiva de fazer um financiamento imobiliário.

Eu já não faço mais uma um um financiamento de 35 anos, né? Porque quem no Brasil vai viver tudo isso? Tá aí o SESC sendo feito no lugar, no endereço que é meu, que eu morava nesse endereço. Eu ainda tenho uma os documentos falando que eu poderia voltar para esse lugar. Será que eu posso voltar e morar no no SESC? – disse, indignada.

A existência de estudos e projetos de recuperação, contudo, está registrada em reportagens e documentos da época. A controvérsia está no alcance desse compromisso e nas condições que seriam oferecidas para o eventual retorno dos antigos moradores.

Maria Helena de Oliveira, dona de casa, morava no Edifício São Vito há mais de 10 anos, quando soube que teria de deixar o imóvel, que estava em seu nome. Ela conta que era um quitinete pequeno e trabalhava em dois empregos para pagar o financiamento e, após sair do São Vito, recebeu da prefeitura um auxílio aluguel de apenas R$ 300 reais e isso gerou dificuldades para encontrar uma nova moradia.

Era 300 reais e só aquele. Todo o tempo, não tinha aumento. Então as imobiliárias não aceitavam o Bolsa Aluguel. E a gente tinha que pôr do bolso para um pagar o aluguel. Com promessa por parte da prefeitura, né? Que ia reformar nosso kitnet, apartamento e a gente ia voltar pagando a reforma. Então isso não aconteceu. O prédio foi demolido e nós ficamos a Deus dará, né? Sem apartamento, sem casa. – conta Maria Helena.

Além da perda de moradia, esses moradores também poderiam perder o emprego, caso não conseguissem seguir vivendo na região central. É o caso do Jailson de Jesus Almeida. Atualmente ele está aposentado, mas ele ainda mora no centro, na rua Guaianases, bem próximo ao novo Sesc. No início, ele buscou um quarto alugado para ficar próximo ao trabalho, mas até hoje, segue na região, na esperança de reaver sua moradia.

Teve várias reuniões no CDHU, a na prefeitura, e tempo foi passando, foi passando e nada aconteceu. – lamentou.

Os depoimentos reunidos pela reportagem mostram que a saída não representou apenas uma mudança de endereço. Para antigos moradores, significou o rompimento de vínculos de vizinhança, o afastamento do trabalho e a perda de uma rotina construída ao longo de anos.

Mercúrio: pressão e deslocamento para bairros distantes

No edifício Mercúrio, a retirada avançou no fim de 2008. O prédio tinha 24 andares e 84 apartamentos. Parte dos moradores trabalhava no comércio do centro e pagava aluguéis que dificilmente encontraria em outro imóvel na mesma região.

Famílias procuraram casas em bairros distantes, como Artur Alvim e Grajaú, ou foram morar de favor com parentes em outros municípios. Moradores relataram ainda o corte no fornecimento de água durante o processo, o que os obrigava a carregar baldes pelas escadas.

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O Edifício Mercúrio possuía 24 andares e 140 apartamentos e era “irmão gêmeo” do São Vito. – Foto: Creative Commons

A Jennifer Santos da Silva Freire cresceu no Mercúrio. Ela conta que estudava e trabalhava na região, se deslocava a pé e hoje, morando na zona norte da cidade, precisa se deslocar quilômetros para chegar ao trabalho. Ela se diz triste ao olhar para o novo Sesc, onde ficava seu antigo apartamento.

Aqui embaixo era nossa área de lazer. Esse terminal (Parque Dom Pedro II) a gente andava de bicicleta, a gente brincava, pedia pizza. A gente trabalhava aqui, eu estudava aqui perto, era tudo perto, entendeu? Agora fica mais difícil, né? Porque a nossa vida é aqui no centro. bate uma tristeza enorme. A gente era muito feliz. – Completa.

Maria Selma da Conceição Alves também vivia há anos no Mercúrio e luta até hoje para ser devidamente indenizada. Ela conseguiu ser recebida pela Prefeitura e recebeu novas promessas de ressarcimento, mas nada concreto.

Vivi 25 anos no Mercúrio, tive minhas duas filhas morando lá. Agora já faz 18 anos que saí, né? São 18 anos de muita luta. Saí daí enxotada. Agora fizeram o SESC e nós não temos direito nem de visitar. Então, eu acredito, né? É que isso precisa ser reparado, porque as família do Mercúrio quando saiu daí, saiu com muita crueldade. – afirmou.

O Mercúrio foi completamente esvaziado entre dezembro de 2008 e fevereiro de 2009. Depois, acabou demolido com o São Vito. A Prefeitura justificou a operação como parte de uma recuperação “urbanística e ambiental” do centro, vinculada à criação de uma praça e à requalificação do Parque Dom Pedro II. A posição oficial foi divulgada pela Secretaria Municipal de Habitação.

Da praça prometida à concessão por 99 anos

Pouco tempo depois das demolições, a destinação da região começou a mudar. Em 2012, o Executivo municipal enviou à Câmara um projeto para conceder ao Sesc o uso de uma área de 9.203,04 metros quadrados entre as avenidas do Estado e Mercúrio.

O texto autorizava uma concessão sem concorrência pública pelo prazo de 99 anos. A área descrita no projeto incluía trechos de ruas, passeios e parte da Praça São Vito. A legislação também permitia prorrogações nos prazos para apresentação do projeto e início das obras. Veja a íntegra do PL 476/2012.

Na justificativa encaminhada aos vereadores, a Prefeitura afirmou que a unidade iria contribuir para a “revitalização do Parque Dom Pedro II”. O plano previa biblioteca, teatro, restaurante, oficinas, áreas esportivas, piscinas e atividades gratuitas ou a preços populares. Leia a justificativa do projeto.

Na nota enviada à reportagem, a administração afirmou que “a construção da nova unidade do Sesc não integra a área da concessão” prevista no Plano de Requalificação Urbana do Parque Dom Pedro II. Segundo a Prefeitura, o plano também não prevê uso habitacional para a região.

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Ex-moradores do São Vito e Mercúrio ainda aguardam solução. – Foto: Elizeu Fundão/ TVT News

A informação reforça justamente um dos principais pontos do debate: a política de requalificação atualmente planejada para o Parque Dom Pedro II não contempla a reposição das moradias populares retiradas do território.

De acordo com Benedito Roberto Barbosa, o Dito, advogado do Centro Gaspar Garcia de Direitos Humanos e que acompanha o caso desde o início, houve um compromisso da prefeitura na época, ainda na gestão da prefeita Marta Suplicy, de que as famílias iriam reotnar ao prédio reformado. Mas com a mudança na gestão, todas promessas foram descumpridas.

Então foi uma situação muito triste, né, porque eram quase 700 famílias, né, entre o São Vito e o Mercúrio. E depois a gente ficou sabendo que o terreno, que é do município, ia ser cedido para o SESC. Vamos lembrar que o SESC é uma entidade privada, né, não é uma entidade pública, né? – Reforçou.

Um projeto inclusivo poderia combinar diferentes funções: equipamentos culturais, recuperação ambiental, espaços públicos e novas moradias populares. Cultura e habitação não são interesses incompatíveis.

Um novo monumento diante de uma dívida antiga

Com inauguração prevista para 2026, o novo Sesc Parque Dom Pedro II terá mais de 36 mil metros quadrados, seis pavimentos, teatro, biblioteca, piscinas, áreas verdes e espaços de convivência.

O investimento é estimado em cerca de R$ 350 milhões, e a expectativa é receber aproximadamente 8.000 pessoas por dia. Segundo a Folha, será uma das maiores unidades do Sesc na capital. Para Dito, a matéria, tão elogiosa à nova sede, que o diretor da seção paulista do Sesc, Luiz Galina denomina como “joia da coroa”, na realidade, esconde uma história de muita dor e luta.

Apagou da memória, da história que eles contaram nos jornais, que nesse lugar moravam mais de 700 famílias e parte dessas famílias estão nas ruas, pagando aluguel ou ficou em situação de rua, morando em ocupação, sem solução habitacional. Então isso aí é inaceitável, né? – protestou.

O prédio poderá devolver circulação e atividade a uma região degradada por décadas de intervenções viárias, abandono do espaço público e poluição do rio Tamanduateí. Ao mesmo tempo, sua imponência evidencia uma contradição: a cidade consegue mobilizar investimentos para atrair milhares de frequentadores, mas não incorpora moradia popular ao plano de requalificação da mesma região.

Em nota, a Prefeitura de São Paulo sustenta que os prédios apresentavam “comprometimentos estruturais graves”, o que teria inviabilizado a permanência dos moradores. A administração municipal também afirma que ofereceu diferentes alternativas habitacionais às famílias e contesta a existência de uma promessa de reforma para que elas continuassem nos imóveis.

Segundo a administração municipal, o atendimento habitacional foi garantido por diferentes alternativas:

  • 187 famílias adquiriram imóveis pelo Programa Carta de Crédito;
  • 31 receberam moradias da Companhia de Desenvolvimento Habitacional e Urbano, a CDHU;
  • 42 foram encaminhadas para empreendimentos da Cohab-SP;
  • 21 continuam recebendo Auxílio Aluguel enquanto aguardam atendimento definitivo.

De acordo com a nota, essas 21 famílias deverão ser encaminhadas ao Residencial Marquês de São Vicente, com entrega prevista ainda para este ano.

Os números mostram que parte das famílias teve acesso a uma solução definitiva. Também revelam, entretanto, que mais de duas décadas depois da retirada do São Vito e cerca de 18 anos após a desocupação do Mercúrio, ainda existem antigos moradores dependentes de auxílio temporário.

A gestão também informou que a Procuradoria-Geral do Município acompanhou o processo de desapropriação do Mercúrio e que os valores das indenizações aos proprietários foram depositados judicialmente.

A Prefeitura ainda informa que a permanência nos prédios era inviável. Os relatos dos antigos moradores, por sua vez, mostram que a retirada produziu deslocamentos, rompeu vínculos e afastou famílias de uma região onde algumas viviam e trabalhavam havia décadas.

Já os moradores prometem seguir pressionando. Após 20 anos de espera e sem nenhuma definição por parte da justiça ou poder público, eles pretendem avançar por instâncias internacionais. De acordo com Benedito Barbosa, o caso agora deve seguir para a Corte Interamericana de Direitos Humanos.

Nós vamos levar esse caso e fazer uma denúncia contra o Estado brasileiro para garantia do direito à moradia digna dessas famílias. O SESC, que pegou o empreendimento, doação da prefeitura, a gente não sabe exatamente o que que aconteceu, mas não pode também apagar a memória, a história que eles. O SESC em cima, né, dos escombros do São Vito e do Mercúrio. É isso que nós estamos cobrando nesse momento, que todas as famílias, sem exceção, sejam atendidas em unidade habitacional e tenham o seu direito à moradia garantido, né? É um absurdo que isso não tenha acontecido ainda depois de mais de 20 anos, né? – defendeu.

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